Questão c3f6e076-b5
Prova:UESPI 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Intertextualidade, Análise sintática, Termos essenciais da oração: Sujeito e Predicado, Sintaxe, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

O teor argumentativo do Texto 2 é reforçado também:

TEXTO 2 

A revolução digital

Texto e papel. Parceiros de uma história de êxitos. Pareciam feitos um para o outro.

Disse “pareciam”, assim, com o verbo no passado, e já me explico: estão em processo de separação.

Secular, a união não ruirá do dia para a noite. Mas o divórcio virá, certo como o pôr-do-sol a cada fim de tarde.

O texto mantinha com o papel uma relação de dependência. A perpetuação da escrita parecia condicionada à produção de celulose.

Súbito, a palavra descobriu um novo meio de propagação: o cristal líquido. Saem as árvores. Entram as nuvens de elétrons.

A mudança conduz a veredas ainda não exploradas. De concreto há apenas a impressão de que, longe de enfraquecer, a ebulição digital tonifica a escrita.

Isso é bom. Quando nos chega por um ouvido, a palavra costuma sair por outro. Vazando-nos pelos olhos, o texto inunda de imagens a alma.

Em outras palavras: falada, a palavra perde-se nos desvãos da memória; impressa, desperta o cérebro, produzindo uma circulação de ideias que gera novos textos. A Internet é, por assim dizer, um livro interativo. Plugados à rede, somos, autores e leitores. Podemos visitar as páginas de um clássico da literatura. Ou simplesmente, arriscar textos próprios.

Otto Lara Resende costumava dizer que as pessoas haviam perdido o gosto pela troca de correspondências. Antes de morrer, brindou-me com dois telefonemas. Em um deles prometeu: “Mando-te uma carta qualquer dia destes”.

Não sei se teve tempo de render-se ao computador. Creio que não. Mas, vivo, Otto estaria surpreso com a popularização crescente do correio eletrônico.

O papel começa a experimentar o mesmo martírio imposto à pedra quando da descoberta do papiro. A era digital está revolucionando o uso do texto. Estamos virando uma página. Ou, por outra, estamos pressionando a tecla “enter”.

Josias de Souza. A revolução digital. Folha de São Paulo. 6/05/96.

Caderno Brasil, p. 2). 

A
pelo uso de sujeitos pospostos ao verbo.
B
pelo recurso da intertextualidade.
C
pelo uso de uma sintaxe elaborada.
D
pelo uso de palavras eruditas.
E
pelo uso de períodos curtos.

Gabarito comentado

V
Viviane Mendes Monitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é textual-discursivo: o reforço argumentativo decorre da intertextualidade em sentido amplo, marcada por alusões, reaproveitamento de fórmulas conhecidas e diálogo com outros discursos. Isso se evidencia em trechos como “Mas o divórcio virá, certo como o pôr-do-sol a cada fim de tarde.” e “Estamos virando uma página. Ou, por outra, estamos pressionando a tecla “enter”.”; por isso, a alternativa correta é a B, e não as que tratam de sintaxe, vocabulário ou extensão dos períodos.

Tema central: intertextualidade argumentativa
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra porque desloca a análise para um traço sintático eventual. Mesmo que haja casos pontuais de sujeito posposto, isso não organiza nem sustenta o teor argumentativo global. O comando pede o recurso que reforça a argumentação, e a base mostra que esse reforço vem do diálogo com outros discursos, não da ordem dos termos na oração.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o texto reforça sua tese sobre a passagem do papel ao meio digital por meio de ecos de outros discursos e objetos culturais reconhecíveis: o universo do livro, da correspondência, da literatura e a reformulação de expressões já estabilizadas. Quando o articulista diz “A Internet é, por assim dizer, um livro interativo.” e contrapõe “Estamos virando uma página. Ou, por outra, estamos pressionando a tecla “enter”.”, ele constrói sentido por aproximação e contraste entre suportes culturais. Além disso, a entrada da voz de Otto Lara Resende amplia esse diálogo discursivo. Esse conjunto é o que efetivamente reforça a persuasão do texto.
C
Errada
A alternativa está errada porque o texto não tem como marca central uma sintaxe rebuscada ou estruturalmente complexa. A construção é predominantemente clara e fluida. O efeito argumentativo destacado pela questão decorre de analogias, imagens e alusões intertextuais, não de elaboração sintática como traço decisivo.
D
Errada
A alternativa é incorreta porque o vocabulário do texto não se caracteriza por erudição predominante. A linguagem é majoritariamente acessível, com algumas escolhas expressivas, mas a força persuasiva não depende de palavras eruditas. O núcleo argumentativo está na articulação entre discursos e imagens socialmente reconhecíveis.
E
Errada
A alternativa está errada porque a extensão dos períodos não explica o reforço argumentativo pedido. Há, de fato, períodos curtos, mas também há períodos médios e longos; portanto, esse não é o traço distintivo que resolve a questão. O que sustenta a argumentação é o mecanismo discursivo de intertextualidade.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o candidato escolher um traço formal visível — como períodos curtos, vocabulário mais formal ou construção sintática — e ignorar que o comando pede um mecanismo discursivo. Outra confusão real é achar que só existe intertextualidade quando há citação literal; aqui ela aparece por alusão, reformulação e incorporação de outra voz.
Dica para questões semelhantes
  • Se o comando perguntar pelo reforço da argumentação, procure primeiro o mecanismo discursivo que organiza a persuasão, não um detalhe gramatical isolado.
  • Não reduza intertextualidade à citação explícita: alusão, reaproveitamento de expressões conhecidas e entrada de outra voz também contam.
  • Confira se a alternativa escolhida explica o efeito global do texto; se ela descreve apenas um traço ocasional, tende a estar errada.

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