Questão eaef67e6-b5
Prova:UESPI 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Gêneros Textuais, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

 Dentre os poemas que compõem Sol Sanguíneo, destacamos abaixo um excerto de “Mater”, que evoca uma das nossas matrizes culturais: a África. Leia o poema e analise o que se comenta a seguir.


I


De ti não há sequer
um álbum de família:


retratos da infância
nos campos de arroz e gergelim.


Talvez reste em pensamento
pedaços de tua voz


no vento
como impressões digitais
 num rio.


II
No dia em que o azul
roubou teus olhos
e o silencio rival rasgou
teu nome,
cotovias cantaram no teu rastro.
No dia em que a manhã
cerrou teus olhos.

A
O poema fala da felicidade que foi para os africanos deixarem a sua terra e embarcarem para o Brasil.
B
O poema defende que os africanos que vieram para o Brasil trouxeram intacta a memória do passado.
C
Quando os versos falam de “impressões digitais/num rio” ele se refere à solidez da água.
D
Quando lemos “De ti não há sequer/um álbum de família”, o poeta está afirmando que no século XVI ainda não havia fotografia.
E
O poema trata da violência cultural que foi praticada contra aqueles que vieram da África e do pouco que teria restado das suas memórias.

Gabarito comentado

A
Ana FernandesMentora Qconcursos

Gabarito: E

Fundamento decisivo: A resolução depende da inferência textual autorizada pelos versos “De ti não há sequer / um álbum de família: [...] Talvez reste em pensamento / pedaços de tua voz [...] como impressões digitais / num rio. [...] o silencio rival rasgou / teu nome”, que indicam ausência de registros, memória fragmentária e apagamento identitário.

Tema central: apagamento da memória
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque atribui felicidade a uma experiência que o poema representa por perda e sofrimento. Essa leitura é incompatível com expressões como “não há sequer”, “o silencio rival rasgou / teu nome” e “No dia em que a manhã / cerrou teus olhos”, que pertencem ao campo semântico de supressão, violência e privação.
B
Errada
Está errada porque o texto não fala em memória intacta, mas no contrário. Em “Talvez reste em pensamento / pedaços de tua voz”, o advérbio “Talvez” introduz incerteza e “pedaços” indica fragmentação. O poema autoriza inferir memória rarefeita, não preservação integral do passado.
C
Errada
Está errada porque a imagem “impressões digitais / num rio” não sugere permanência nem “solidez da água”; ela produz sentido de instabilidade e apagamento. A alternativa inventa um valor semântico estranho ao contexto e contraria o eixo do poema, que é o desfazimento dos vestígios.
D
Certa
A alternativa E sintetiza com fidelidade o sentido global do poema. O eu lírico não apresenta continuidade tranquila da origem, mas desenraizamento e perda: “não há sequer / um álbum de família” marca ausência de registros; “Talvez reste em pensamento / pedaços de tua voz” mostra que a lembrança sobrevive apenas em fragmentos; “como impressões digitais / num rio” reforça a ideia de rastro que se desfaz; e “o silencio rival rasgou / teu nome” sugere violência simbólica contra a identidade. Por isso, a leitura correta é a de violência cultural sofrida pelos africanos e do pouco que restou de suas memórias.
E
Errada
Está errada porque transforma um verso de valor simbólico em afirmação histórica que o texto não faz. “um álbum de família” funciona como imagem de registro de origem e pertencimento; não há base textual para concluir que o poeta esteja afirmando a inexistência de fotografia no século XVI.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre evocar a origem africana e supor preservação ou celebração dessa experiência. As imagens do poema são metafóricas e apontam para apagamento, não para felicidade, memória intacta ou leitura literal de expressões como “álbum de família” e “impressões digitais / num rio”.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique o campo semântico dominante do poema antes de interpretar uma alternativa: aqui predominam ausência, fragmentação e rasura da identidade.
  • Quando houver metáforas, teste se a leitura da alternativa combina com o sentido global do texto; “impressões digitais / num rio” só faz sentido como dissolução de vestígios.
  • Desconfie de alternativas que transformam imagem poética em dado literal ou histórico sem apoio expresso no texto.

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