Questão c747eff7-de
Prova:UFAC 2009, UFAC 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Figuras de Linguagem, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Observe o trecho abaixo:

“Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que nem marca dum pé gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão de Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.” (ANDRADE, M. Macunaíma: o herói sem nenhum caráter. 22.ed. Belo Horizonte: Itatiaia, 1986. p. 29- 30)

Na passagem acima, Mário de Andrade retoma uma tradição de contar histórias, onde Macunaíma, o herói da nossa gente, representa uma espécie de símbolo de afirmação da nossa mestiçagem que até então, antes do modernismo, era vista como sinal de inferioridade. Ao sair da água encantada, porém, ele consegue ficar branco, enquanto seus dois irmãos, mais adiante, continuam com os traços indígenas e negroides. Essa metáfora compõe, junto com a forma de contar histórias:

A
o pobre cenário de nossa relação com o passado.
B
o irremediável apego a uma tradição narrativa, sem mais sentido para a época.
C
o mergulho nas nossas raízes e o desafio de compreendê-las na sua complexidade.
D
uma discussão que confirma, apenas, a falta de sentido de nossa malandragem, como marca da nossa identidade.
E
a abertura para todos os ufanismos e exageros nacionalistas que marcariam a nossa trajetória de desembaraço de contradições.

Gabarito comentado

A
André AlvesMonitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a chave interpretativa já dada pelo enunciado, que associa Macunaíma à afirmação da mestiçagem brasileira e à retomada da forma tradicional de contar histórias. Assim, a resposta deve preservar essa orientação semântica e recusar alternativas que desloquem o sentido para empobrecimento do passado, apego vazio à tradição, condenação isolada da malandragem ou exaltação nacionalista simplificadora.

Tema central: mestiçagem e identidade
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque introduz a ideia de “pobre cenário de nossa relação com o passado”, que não é sustentada pelo enunciado. A retomada da tradição narrativa e do imaginário mítico-popular aparece como forma de elaborar simbolicamente as origens brasileiras, não como empobrecimento do passado.
B
Errada
Está errada porque fala em “irremediável apego” e em tradição “sem mais sentido para a época”, mas o comando indica justamente o contrário: a forma de contar histórias tem função interpretativa no projeto de pensar a formação brasileira. A tradição, aqui, não é estéril; ela é produtiva.
C
Certa
A alternativa C está correta porque traduz a articulação exigida pelo comando entre a metáfora da transformação e a forma de narrar. O trecho destaca Macunaíma como símbolo de afirmação da mestiçagem e, ao mesmo tempo, recupera elementos de mito, oralidade e tradição narrativa. A passagem não apaga as diferenças nem fecha a interpretação em uma leitura linear: ao mostrar o herói branco e os irmãos mantendo traços indígenas e negroides, o texto constrói uma imagem de identidade brasileira marcada por mistura e tensão. Por isso, “mergulho nas nossas raízes” e “desafio de compreendê-las na sua complexidade” é a formulação compatível com o trecho.
D
Errada
Está errada por reduzir a passagem a uma confirmação “apenas” da falta de sentido da malandragem. Esse recorte é incompatível com o foco dado pelo enunciado, que centraliza a metáfora da mestiçagem e sua articulação com a tradição narrativa. Há reducionismo interpretativo e deslocamento do eixo da questão.
E
Errada
Está errada porque projeta no texto “ufanismos e exageros nacionalistas” e ainda afirma “desembaraço de contradições”. A base aponta exatamente o oposto: a metáfora trabalha tensões e complexidade da identidade nacional, não uma exaltação simplificadora nem uma superação sem conflito das contradições.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre valorização das raízes culturais e idealização simplificadora: quem lê a afirmação da identidade brasileira como apego inútil à tradição, condenação isolada da malandragem ou ufanismo nacionalista erra o eixo interpretativo dado pelo próprio enunciado.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado já oferece a chave de leitura, elimine alternativas que contrariem diretamente esse eixo semântico.
  • Se a questão pedir leitura de metáfora junto com a forma de narrar, não analise o símbolo isoladamente; observe a articulação entre conteúdo e tradição narrativa.
  • Desconfie de opções com absolutizações como “apenas”, “sem mais sentido” ou “todos os ufanismos” quando o texto aponta para mistura, tensão e complexidade.

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