O efeito cômico produzido pela leitura do requerimento decorre, principalmente, do seguinte fenômeno ou procedimento linguístico:
A questão focaliza uma passagem da comédia
O juiz de paz da roça do escritor Martins Pena (1815-1848).
JUIZ (assentando-se): Sr. Escrivão, leia o outro requerimento.
ESCRIVÃO (lendo): Diz Francisco Antônio, natural de Portugal, porém brasileiro, que tendo ele casado com Rosa de
Jesus, trouxe esta por dote uma égua. “Ora, acontecendo
ter a égua de minha mulher um filho, o meu vizinho José
da Silva diz que é dele, só porque o dito filho da égua
de minha mulher saiu malhado como o seu cavalo. Ora,
como os filhos pertencem às mães, e a prova disto é que
a minha escrava Maria tem um filho que é meu, peço a
V. Sa. mande o dito meu vizinho entregar-me o filho da
égua que é de minha mulher”.
JUIZ: É verdade que o senhor tem o filho da égua preso?
JOSÉ DA SILVA: É verdade; porém o filho me pertence, pois
é meu, que é do cavalo.
JUIZ: Terá a bondade de entregar o filho a seu dono, pois é
aqui da mulher do senhor.
JOSÉ DA SILVA: Mas, Sr. Juiz...
JUIZ: Nem mais nem meios mais; entregue o filho, senão,
cadeia.
(Martins Pena. Comédias (1833-1844), 2007.)
Gabarito comentado
Tema central: A questão aborda a interpretação de texto com foco no fenômeno da ambiguidade, importante conceito em questões de semântica e coesão textual na Língua Portuguesa.
Justificativa da Alternativa Correta (C – Ambiguidade):
A ambiguidade ocorre quando uma expressão apresenta duplo sentido: pode ser interpretada de mais de uma forma. No trecho da comédia, a expressão “filho da égua” é central. Literalmente, refere-se ao filhote do animal (potro). No entanto, na linguagem coloquial, pode funcionar como insulto, o que provoca efeito cômico pelo contraste entre o literal e o figurado.
Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa): “Ambiguidade é o vício ou efeito de linguagem decorrente da estrutura, do léxico ou da pontuação, que permite interpretações diferentes.” No texto, o juiz e os personagens discutem “filho da égua”, e o humor se dá exatamente porque a linguagem simples permite a duplicidade de sentidos.
Análise das Alternativas Incorretas:
A) Paródia: Não há imitação satírica de outro texto ou gênero.
B) Intertextualidade: Não se observa referência explícita ou implícita a outros textos.
D) Paráfrase: Não há reescrita do texto original com outras palavras, mas sim a reprodução literal do requerimento.
E) Sinonímia: Sinônimos não estão relacionados ao humor do trecho.
Estratégias para Prova:
Atenção a expressões polissêmicas e termos que, em menosprezo ao literal, possam esconder segundo sentido. Verifique se há duplo sentido nas falas dos personagens; isso é recorrente em questões de interpretação e humor de textos dramáticos.
Autoras como Cunha & Cintra reforçam a importância de se identificar o contexto e a estrutura da frase para decidir se há possibilidade de leitura dupla – fundamental para diferenciar ambiguidade de outros fenômenos.
Resumo: A ambiguidade é o fenômeno responsável pelo efeito cômico do trecho, pois permite interpretações múltiplas e exploradas para humor, conforme a tradição de Martins Pena.
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