Questão 3c5a05c6-ed
Prova:CÁSPER LÍBERO 2012
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Gêneros Textuais, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Quanto ao texto, trata-se de:

Leia o texto a seguir e responda à questão.


Jeitinho e jeitão: uma tentativa de interpretação do caráter brasileiro


Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade.
Recordo um caso pessoal, passado há muito tempo. Eu trabalhava com Celso Furtado (rigorosamente antijeitinho), que recebia um diretor do Banco Interamericano de Desenvolvimento, por sinal um conterrâneo seu. Este, vendo-me por perto, e julgando que eu não era parte da conversa, pediu-me água. Pediu a primeira, a segunda e a terceira vez. Fui obrigado a dizer-lhe que não confundisse gentileza com servilismo, e que da próxima vez ele mesmo se servisse. Não ocorria àquele senhor que alguém que não fosse da sua grei pudesse tomar parte de uma conversa com altos representantes da banca interamericana. A origem do jeitinho, assim como a da cordialidade teorizada por Sérgio Buarque, se explica pela incompletude das relações mercantis capitalistas. Parece sempre que as pessoas estão “sobrando”. Elas são como que resquícios de relações não mercantis, não cabem no universo da civilidade. E às pessoas que sobram pode ser pedida qualquer coisa, já que é obrigação do dominado servir ao dominante.
Qualquer reunião brasileira está cheia de batidinhas nas costas na hora do cumprimento, impondo logo de saída uma intimidade que é intimatória e intimidatória. Um dos cumprimentos mais característicos de Luiz Inácio Lula da Silva, por exemplo, é bater com as costas da mão na barriga dos interlocutores. Mesmo em encontros formais, o primeiro gesto de Lula ao se aproximar de qualquer pessoa é tocar-lhe a barriga.
A matriz desses gestos encontra-se evidentemente no longo período escravagista. Nele, o corpo dos negros era propriedade, podia ser tocado e usado. O surpreendente é que esses gestos e costumes tenham persistido ao longo de 100 anos de vigência de um capitalismo pleno. O escravismo e a escravidão não explicam inteiramente a “longa duração” da informalidade generalizada e dos hábitos que a acompanham. Os Estados Unidos tiveram um sistema escravista que chegou até a organizar fazendas de criação de negros. A ruptura com o escravismo custou à nação norte-americana uma guerra civil que deixou marcas até hoje. Mas o jeitinho não foi o expediente que usaram para superar os problemas colocados pelo capitalismo que avança.
Aqui, o jeitinho das classes dominantes se impôs na abolição da escravatura. Primeiro veio a Lei do Ventre Livre: garotos e garotas negros eram libertados em meio à escravidão. Mas como inexistia a perspectiva de terem terra, emprego ou salário, a libertação não lhes servia para quase nada. 
Depois veio a Lei dos Sexagenários. Aos 60 anos, os negros que ainda estivessem vivos eram libertados. Ora, já se sabia que a vida média de um escravo não alcançava os 40 anos. Como mostrou Luiz Felipe de Alencastro em O Tratado dos Viventes, depois de décadas de labuta no eito, o consumo do trabalho pelo capital não era uma metáfora: o negro era um molambo de gente, e não um homem livre, mesmo quando libertado pela Lei dos Sexagenários.
O que parecia cautela e previsão era, na verdade, o jeitinho (e o jeitão) em movimento. Gradualmente, até a chamada Lei Áurea, a escravidão persistiu. Isso criou uma superpopulação trabalhadora que o sistema produtivo não tinha como incorporar. Com a industrialização, tão sonhada pelos modernos, o problema se agravou. Tendo que copiar uma industrialização de matriz exógena, que tende sempre à economia do trabalho, os excedentes populacionais cresceram exponencialmente.
Assim, o chamado trabalho informal tornou-se estrutural no capitalismo brasileiro. É ele que regula a taxa de salários, e não as normas trabalhistas fundadas por Vargas. A partir daí todas as burlas são permitidas e estimuladas. A pergunta que um candidato a emprego mais ouve é: com carteira ou sem carteira? O funcionário com carteira resulta em descontos para a Previdência. Ou, se o salário for um pouquinho melhor, até para o Imposto de Renda. A resposta do candidato ao emprego é óbvia: sem carteira.
Quando o trabalhador ou trabalhadora que têm consciência dos seus direitos recusam o emprego sem carteira, às vezes, escutam “malandro, não quer trabalhar”.
Em qualquer setor, em qualquer atividade, o jeitinho se impõe. O executivo de terno italiano de grife, o apresentador da televisão e a atriz de um musical não são assalariados. São pessoas jurídicas, PJs, unicamente para que empresas paguem menos impostos. Advogados, dentistas e prestadores de serviços oferecem seus préstimos com ou sem recibo, e esse último é mais barato. Bancários, telefonistas, vendedores e outras tantas categorias viram sua profissão periclitar: eles são agora atendentes de call centers, terceirizados por grandes empresas. O jeitinho é a regra não escrita, sem exigência legal, mas seguida ao pé da letra nas relações micro e macrossociais. Está tão estabelecido, é tão natural que estranhá-lo (hoje menos do que ontem, reconheça-se) pode ser entendido como pedantismo, arrogância ou ignorância: “Nego metido a besta”, é a sentença. A não resolução da questão do trabalho, o seu estatuto social, é no fundo a matriz do jeitinho. Simpático, ele é uma das maiores marcas do moderno atraso brasileiro. (Francisco de Oliveira, revista piauí n. 73, outubro 2012, excerto). 

A
um artigo de viés sociológico que aborda um fenômeno reproduzido sistemicamente nas relações sociais e que repercute nas instituições, normas, leis e valores brasileiros.
B
uma crônica satírica por meio da qual o autor explica a natureza do fenômeno do jeitinho brasileiro, desde o período escravista até o governo do presidente Lula.
C
um texto memorialístico, construído em torno de uma singular ocorrência lembrada pelo autor, a partir da qual é apresentada uma visão crítica da sociedade brasileira.
D
uma crônica leve e bem-humorada que apresenta algumas razões de ser do jeitinho brasileiro, sem condenar ou reprovar a prática de antemão.
E
um artigo de cunho político que aborda o jeitinho como um problema a ser combatido não somente nas relações sociais no Brasil, mas, sobretudo, na economia do País.

Gabarito comentado

T
Thiago Oliveira Monitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o enquadramento discursivo: o texto apresenta tese explícita e análise histórico-social de alcance coletivo, marcas que o distinguem de crônica ou memorial. O trecho "Nascido inicialmente das contradições entre uma ordem liberal formal e uma realidade escravista, o jeitinho transformou-se em código geral de sociabilidade." evidencia esse recorte interpretativo.

Tema central: gênero textual sociológico
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque descreve com precisão a organização do texto: há uma tese geral sobre o jeitinho, desenvolvida por análise histórica e social, com articulação entre escravidão, trabalho informal, leis, instituições e valores. O texto não se limita a relatar fatos nem a comentar episódios; ele interpreta o jeitinho como fenômeno sistêmico das relações sociais brasileiras, exatamente como afirma a alternativa.
B
Errada
Está errada porque o texto não se organiza como crônica satírica. Seu eixo não é a observação breve do cotidiano com tratamento humorístico, mas a construção de uma interpretação analítica e generalizante. A referência a Lula é apenas exemplificativa dentro da tese maior e não define o gênero nem o recorte temporal do texto.
C
Errada
Está errada porque o episódio pessoal não constitui o núcleo composicional do texto. A lembrança introduzida por "Recordo um caso pessoal" funciona como exemplo subordinado à tese geral. O centro do texto é a interpretação histórico-social do jeitinho, e não a rememoração de uma ocorrência singular.
D
Errada
Está errada porque o tom do texto não é leve nem bem-humorado. O autor formula juízo crítico claro ao relacionar o jeitinho à dominação, à herança escravista, à informalidade estrutural e ao "moderno atraso brasileiro". Isso exclui a ideia de crônica leve e também a afirmação de que a prática é apresentada sem reprovação.
E
Errada
Está errada porque reduz indevidamente o alcance do texto. Embora haja referências a leis, trabalho, empresas e impostos, o enfoque não é predominantemente político nem sobretudo econômico. O texto trata o jeitinho como fenômeno de sociabilidade e formação histórica brasileira, com repercussão nas relações micro e macrossociais.
Pegadinha da questão
A banca explora a presença de um episódio autobiográfico e de exemplos concretos para induzir a leitura de crônica ou memorial, mas a tese inicial e o desenvolvimento mostram que esses elementos são apenas exemplificativos dentro de um artigo analítico de viés sociológico.
Dica para questões semelhantes
  • Identifique primeiro se o texto formula uma tese geral e a desenvolve por causas, consequências e sínteses; isso pesa mais na definição do gênero do que a presença de um exemplo pessoal.
  • Verifique se o caso narrado organiza todo o texto ou apenas ilustra uma interpretação mais ampla; quando ele é subordinado à análise, não define gênero memorialístico.
  • Não reduza o texto ao tema mais visível, como política ou economia, sem observar o escopo global da argumentação.
  • Observe o tom dominante: crítica estrutural e generalização social afastam a classificação como crônica leve ou satírica.

Estatísticas

Aulas sobre o assunto

Questões para exercitar

Artigos relacionados

Dicas de estudo