“Será preciso ter saudade do tempo em que os filósofos eram ao mesmo tempo cientistas? Seria
ingenuidade. Se hoje os cientistas não têm mais necessidade dos filósofos nem, sobretudo, de se fazer
filósofos, é na medida em que seus métodos estão em ordem, seus conceitos são universalmente admitidos e
as querelas científicas rareiam. Que apareçam contradições (…), que nasçam controvérsias (…), e bem
depressa o cientista volta a tornar-se filósofo.” (Gérard Lebrun, O papel do espaço na elaboração do
pensamento kantiano)
Dentre as diversas formas de se caracterizar a relação entre o saber científico e o filosófico elencadas abaixo,
indique a que NÃO se coaduna com a apresentada no trecho acima.
“Será preciso ter saudade do tempo em que os filósofos eram ao mesmo tempo cientistas? Seria ingenuidade. Se hoje os cientistas não têm mais necessidade dos filósofos nem, sobretudo, de se fazer filósofos, é na medida em que seus métodos estão em ordem, seus conceitos são universalmente admitidos e as querelas científicas rareiam. Que apareçam contradições (…), que nasçam controvérsias (…), e bem depressa o cientista volta a tornar-se filósofo.” (Gérard Lebrun, O papel do espaço na elaboração do pensamento kantiano)
Dentre as diversas formas de se caracterizar a relação entre o saber científico e o filosófico elencadas abaixo, indique a que NÃO se coaduna com a apresentada no trecho acima.
Gabarito comentado
Alternativa correta: E
Tema central: a relação entre saber científico e reflexão filosófica — quando a filosofia participa da estabilização dos métodos e conceitos científicos e quando reaparece diante de contradições.
Resumo teórico: em ciência há momentos de "ciência normal" (estabilidade) e momentos de crise (anomalias) que exigem revisão conceitual — ideia associada a Thomas Kuhn (A Estrutura das Revoluções Científicas). Filósofos e cientistas historicamente se sobrepuseram (ex.: natural philosophers). Quando métodos e conceitos estão consolidados, a intervenção filosófica costuma ser menos necessária; quando surgem controvérsias, volta a haver reflexão filosófica sobre pressupostos e conceitos.
Por que E está correta como gabarito: a questão pede a opção que NÃO se coaduna com o trecho. A alternativa E inverte a relação causal do texto: o trecho afirma que contradições e controvérsias fazem o cientista voltar a se ocupar de questões filosóficas; já E afirma que as contradições são resultado de reflexões tipicamente filosóficas. Ou seja, E atribui à filosofia a origem das controvérsias, quando o trecho sugere que as controvérsias surgem na prática científica e então demandam reflexão filosófica — logo, E é incompatível com o sentido do excerto.
Análise das demais alternativas (por que estão de acordo com o trecho):
A — correta em conteúdo: a filosofia contribuiu para as formulações iniciais que estabilizaram campos científicos (história da ciência: papel de pensadores como Descartes, Newton, Kant).
B — compatível: desde a Revolução Científica houve especialização, mas não ruptura total; relações e diálogos persistem.
C — compatível com o trecho: quando cientistas confiam em métodos e conceitos, perdem interesse em reflexão filosófica sobre esse domínio.
D — compatível: problemas filosóficos relacionados às ciências tornam-se mais relevantes quando aumenta a incerteza científica; nas crises, a filosofia ganha maior interesse.
Dica de interpretação: procure a direção da causalidade e quem é o agente (quem origina vs. quem reage). Pegadinhas comuns invertem causa e efeito ou usam termos absolutos ("sempre", "nunca"). Compare com conceitos de Kuhn e a história da ciência para validar coerência.
Fontes sugeridas: Thomas S. Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas; leituras introdutórias sobre filosofia da ciência (Popper, Lakatos) e história do pensamento científico.
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