Questão e7c8f87b-94
Prova:UNESP 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Figuras de Linguagem, Substantivos, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia, Funções da Linguagem: emotiva, apelativa, referencial, metalinguística, fática e poética., Morfologia

Partiste um dia / Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.

O emprego da palavra brasil com inicial minúscula, no poema de Vinicius, tem a seguinte justificativa:

   Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes,
poeta e cidadão

A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai.
No escuro de minha casa em Los Angeles procurei recompor
    [tua lembrança
Depois de tanta ausência. Fragmentos da infância
Boiaram do mar de minhas lágrimas. Vi-me eu menino
Correndo ao teu encontro. Na ilha noturna
Tinham-se apenas acendido os lampiões a gás, e a clarineta
De Augusto geralmente procrastinava a tarde.
Era belo esperar-te, cidadão. O bondinho
Rangia nos trilhos a muitas praias de distância...
Dizíamos: “Ê-vem meu pai!”. Quando a curva
Se acendia de luzes semoventes*, ah, corríamos
Corríamos ao teu encontro. A grande coisa era chegar antes
Mas ser marraio** em teus braços, sentir por último
Os doces espinhos da tua barba.
Trazias de então uma expressão indizível de fidelidade e
   [paciência
Teu rosto tinha os sulcos fundamentais da doçura
De quem se deixou ser. Teus ombros possantes
Se curvavam como ao peso da enorme poesia
Que não realizaste. O barbante cortava teus dedos
Pesados de mil embrulhos: carne, pão, utensílios
Para o cotidiano (e frequentemente o binóculo
Que vivias comprando e com que te deixavas horas inteiras
Mirando o mar). Dize-me, meu pai
Que viste tantos anos através do teu óculo de alcance
Que nunca revelaste a ninguém?
Vencias o percurso entre a amendoeira e a casa como o atleta
    [exausto no último lance da maratona.

Te grimpávamos. Eras penca de filho. Jamais
Uma palavra dura, um rosnar paterno. Entravas a casa
humilde

A um gesto do mar. A noite se fechava
Sobre o grupo familial como uma grande porta espessa.
Muitas vezes te vi desejar. Desejavas. Deixavas-te olhando
   [o mar
Com mirada de argonauta. Teus pequenos olhos feios
Buscavam ilhas, outras ilhas... — as imaculadas, inacessíveis
Ilhas do Tesouro. Querias. Querias um dia aportar
E trazer — depositar aos pés da amada as joias fulgurantes
Do teu amor. Sim, foste descobridor, e entre eles
Dos mais provectos***. Muitas vezes te vi, comandante
Comandar, batido de ventos, perdido na fosforência
De vastos e noturnos oceanos
Sem jamais.
Deste-nos pobreza e amor. A mim me deste
A suprema pobreza: o dom da poesia, e a capacidade de amar
Em silêncio. Foste um pobre. Mendigavas nosso amor
Em silêncio. Foste um no lado esquerdo. Mas
Teu amor inventou. Financiaste uma lancha
Movida a água: foi reta para o fundo. Partiste um dia
Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.
Doze luas voltaste. Tua primogênita — diz-se —
Não te reconheceu. Trazias grandes barbas e pequenas
     [águas-marinhas.
    (Vinicius de Moraes. Antologia poética. 11 ed. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 1974, p. 180-181.)


(*) Semovente: “Que ou o que anda ou se move por si próprio.”
(**) Marraio: “No gude e noutros jogos, palavra que dá, a quem
primeiro a grita, o direito de ser o último a jogar.”
(***) Provecto: “Que conhece muito um assunto ou uma ciência,
experiente, versado, mestre.”
             (Dicionário Eletrônico Houaiss)

A
O eu-poemático se serve da inicial minúscula para menosprezar o país.
B
Empregar um nome próprio com inicial minúscula era comum entre os modernistas.
C
O eu-poemático emprega “brasil" como metáfora de “paraíso", onde crê estar a alma de seu pai.
D
O emprego da inicial maiúscula em nomes de países é facultativo.
E
Na acepção em que é empregada no texto, a palavra “brasil" é um substantivo comum.

Gabarito comentado

R
Rebeca LealMonitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: Em "Partiste um dia / Para um brasil além, garimpeiro sem medo e sem mácula.", o termo "brasil" não funciona como topônimo oficial, mas como substantivo comum em acepção contextual/metafórica; por isso, a inicial minúscula se justifica e a alternativa correta é E.

Tema central: valor semântico contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque o texto não apresenta marca discursiva de menosprezo ao país. A minúscula não expressa desvalorização ideológica; ela decorre do fato de "brasil" não estar empregado como nome próprio referencial, mas com sentido contextual recategorizado.
B
Errada
Incorreta porque a justificativa pedida é textual e semântica, não uma generalização histórico-literária. Mesmo que houvesse experimentação gráfica modernista, isso não explica especificamente este uso; o que explica aqui é o funcionamento de "brasil" no verso.
C
Errada
Incorreta porque identifica de modo excessivo o sentido metafórico como "paraíso", equivalência que o texto não impõe. O verso admite ideia de destino idealizado ou espaço simbólico de busca, mas não autoriza fixar necessariamente uma leitura religiosa ou escatológica.
D
Errada
Incorreta porque, quando uma palavra está em uso denominativo oficial como nome de país, a maiúscula não é facultativa. A minúscula só se sustenta aqui porque "brasil" não está funcionando como topônimo próprio.
E
Certa
A alternativa E está correta porque a palavra "brasil", nesse verso, não funciona como nome próprio do país. O poema ressemantiza o termo em "um brasil além", dando a ele valor de realidade genérica, simbólica ou idealizada, reforçada ainda pelo campo lexical do garimpo em "garimpeiro" e "águas-marinhas". Nessa acepção, a palavra atua como substantivo comum, e é isso que explica a inicial minúscula.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler "Brasil" automaticamente como nome próprio do país ou de trocar a análise do verso por explicações extratextuais, como desprezo ideológico ou licença modernista. O ponto real está no valor semântico que a palavra assume no contexto.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique primeiro se a palavra mantém valor de nome próprio ou se o contexto a recategoriza como nome comum.
  • Observe marcas como artigo indefinido e modificadores do termo, porque elas podem afastar a leitura literal e denominativa.
  • Não substitua a leitura do trecho por informação genérica sobre escola literária, autor ou estilo de época.
  • Em questões de grafia com efeito de sentido, decida pelo funcionamento contextual da palavra, não pela forma isolada no dicionário.

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