Questão e78a34f8-94
Prova:UNESP 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia, Tipologia Textual, Funções da Linguagem: emotiva, apelativa, referencial, metalinguística, fática e poética., Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Considerando que o último parágrafo do fragmento representa uma ironia do cronista, seu significado contextual é:
Considerando que o último parágrafo do fragmento representa uma ironia do cronista, seu significado contextual é:
Uma campanha alegre, IX
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este
singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente
possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder,
trocam o Poder... O Poder não sai duns certos grupos,
como uma pela* que quatro crianças, aos quatro cantos de
uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder,
esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os
outros que lá não estão — os corruptos, os esbanjadores da
Fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo a sua
própria opinião e os seus jornais — os verdadeiros liberais, os
salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses
do País.
Mas, coisa notável! — os cinco que estão no Poder fazem
tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da
Fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E
os que não estão no Poder movem-se, conspiram, cansam-se,
para deixar de ser o mais depressa que puderem — os verdadeiros
liberais, e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os
verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação
herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em tanto
que os que caíram do Poder se resignam, cheios de fel e de tédio
— a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de
doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha
sido por seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado
a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações
mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de
dirigir as coisas públicas — pela Imprensa, pela palavra dos
oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa
constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que
continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai,
feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto**
tão triunfante!
(*) Pela: bola.
(**) Chouto: trote miúdo.
(Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].)
Uma campanha alegre, IX
Há muitos anos que a política em Portugal apresenta este
singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente
possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder,
trocam o Poder... O Poder não sai duns certos grupos,
como uma pela* que quatro crianças, aos quatro cantos de
uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder,
esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os
outros que lá não estão — os corruptos, os esbanjadores da
Fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo a sua
própria opinião e os seus jornais — os verdadeiros liberais, os
salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses
do País.
Mas, coisa notável! — os cinco que estão no Poder fazem
tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da
Fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E
os que não estão no Poder movem-se, conspiram, cansam-se,
para deixar de ser o mais depressa que puderem — os verdadeiros
liberais, e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os
verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação
herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em tanto
que os que caíram do Poder se resignam, cheios de fel e de tédio
— a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de
doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha
sido por seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado
a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações
mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de
dirigir as coisas públicas — pela Imprensa, pela palavra dos
oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa
constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que
continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai,
feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto**
tão triunfante!
(*) Pela: bola.
(**) Chouto: trote miúdo.
(Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].)
singular estado:
Doze ou quinze homens, sempre os mesmos, alternadamente
possuem o Poder, perdem o Poder, reconquistam o Poder,
trocam o Poder... O Poder não sai duns certos grupos,
como uma pela* que quatro crianças, aos quatro cantos de
uma sala, atiram umas às outras, pelo ar, num rumor de risos.
Quando quatro ou cinco daqueles homens estão no Poder,
esses homens são, segundo a opinião, e os dizeres de todos os
outros que lá não estão — os corruptos, os esbanjadores da
Fazenda, a ruína do País!
Os outros, os que não estão no Poder, são, segundo a sua
própria opinião e os seus jornais — os verdadeiros liberais, os
salvadores da causa pública, os amigos do povo, e os interesses
do País.
Mas, coisa notável! — os cinco que estão no Poder fazem
tudo o que podem para continuar a ser os esbanjadores da
Fazenda e a ruína do País, durante o maior tempo possível! E
os que não estão no Poder movem-se, conspiram, cansam-se,
para deixar de ser o mais depressa que puderem — os verdadeiros
liberais, e os interesses do País!
Até que enfim caem os cinco do Poder, e os outros, os
verdadeiros liberais, entram triunfantemente na designação
herdada de esbanjadores da Fazenda e ruína do País; em tanto
que os que caíram do Poder se resignam, cheios de fel e de tédio
— a vir a ser os verdadeiros liberais e os interesses do País.
Ora como todos os ministros são tirados deste grupo de
doze ou quinze indivíduos, não há nenhum deles que não tenha
sido por seu turno esbanjador da Fazenda e ruína do País...
Não há nenhum que não tenha sido demitido, ou obrigado
a pedir a demissão, pelas acusações mais graves e pelas votações
mais hostis...
Não há nenhum que não tenha sido julgado incapaz de
dirigir as coisas públicas — pela Imprensa, pela palavra dos
oradores, pelas incriminações da opinião, pela afirmativa
constitucional do poder moderador...
E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que
continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai,
feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto**
tão triunfante!
(*) Pela: bola.
(**) Chouto: trote miúdo.
(Eça de Queirós. Obras. Porto: Lello & Irmão-Editores, [s.d.].)
A
Portugal vai muito bem, apesar de seus maus governantes.
B
A alternância dos grupos no poder faz bem ao país.
C
O país experimenta um progresso vertiginoso.
D
O país vai mal em todos os sentidos.
E
Portugal não se importa com seus políticos.
Gabarito comentado
L
Lucas MartinsMonitor com apoio de IA
Gabarito: D
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a ironia por contraste contextual: o enunciado já manda ler o último parágrafo ironicamente, e o trecho "E todavia serão estes doze ou quinze indivíduos os que continuarão dirigindo o País, neste caminho em que ele vai, feliz, abundante, rico, forte, coroado de rosas, e num chouto tão triunfante!" só pode significar o contrário do elogio literal, porque retoma governantes antes apresentados como "os corruptos, os esbanjadores da Fazenda, a ruína do País" e "incapaz[es] de dirigir as coisas públicas"; por isso, o sentido contextual é que o país vai mal.
Tema central: ironia contextual
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque toma como real a aparência elogiosa do último parágrafo. A questão já determina que esse trecho é irônico, e o contexto anterior impede a leitura de que "Portugal vai muito bem". Se os governantes são reiteradamente associados a corrupção, esbanjamento, ruína e incapacidade, o elogio final não confirma boa situação do país; ele a desmente sarcasticamente.
B
Errada
Está errada porque atribui valor positivo à alternância no poder, mas o texto mostra exatamente o contrário: não há renovação efetiva, pois o poder circula entre "doze ou quinze homens, sempre os mesmos". Essa alternância é apresentada como repetição viciada dos mesmos grupos, não como benefício ao país.
C
Errada
Está errada porque transforma os qualificativos finais em descrição objetiva de avanço nacional. Como o último parágrafo é irônico, "feliz, abundante, rico, forte" não indica progresso real, menos ainda "vertiginoso". O contexto impõe leitura inversa: o fecho aparentemente triunfante é uma crítica.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque traduz o sentido inverso produzido pelo fecho irônico. O texto acumula avaliações negativas sobre os mesmos homens que se revezam no poder: são chamados de corruptos, esbanjadores, ruína do país e incapazes de dirigir as coisas públicas. Quando o cronista encerra com um elogio aparentemente exaltado ao caminho do país, esse elogio não descreve a realidade; ele a nega sarcasticamente. Assim, o resultado de sentido é globalmente negativo, o que sustenta a ideia de que o país vai mal.
E
Errada
Está errada porque muda o foco do texto. O cronista não afirma que Portugal ou o povo sejam indiferentes aos políticos; ao contrário, menciona "opinião", "jornais", "Imprensa", "oradores" e "incriminações da opinião", o que evidencia julgamento público constante. O problema exposto é a permanência dos mesmos grupos no poder e seus efeitos nocivos.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler literalmente o último parágrafo e aceitar como elogio real as palavras "feliz, abundante, rico, forte", ignorando que o próprio comando manda reconhecer ali uma ironia construída contra todo o contexto anterior.
Dica para questões semelhantes
- Se o enunciado indicar ironia, não leia literalmente as palavras elogiosas ou depreciativas: confronte-as com o contexto anterior.
- Em ironia textual, o sentido decisivo costuma nascer do choque entre o que se diz na superfície e o que o texto vinha sustentando.
- Observe conectores de oposição, como "todavia", porque eles ajudam a marcar a virada de sentido.
- Elimine alternativas que acrescentam conclusão não sustentada pelo texto, mesmo que pareçam plausíveis fora dele.
Estatísticas
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