Leia o texto a seguir.
É a suas duas divindades das artes, Apolo e Dionísio, que se liga nossa consciência do extraordinário
antagonismo, tanto de origem como dos fins, que subsiste no mundo grego entre a arte plástica, a
apolínea, e a arte não-plástica da música, aquela de Dionísio. Esses dois instintos tão diferentes caminham lado a lado, na maioria das vezes em guerra aberta, e incitando-se mutuamente para novas
criações, sempre mais robustas, para perpetuar nelas o conflito desse antagonismo que seu designativo
“arte”, comum a ambos, somente encobre; até que, finalmente, por um milagre metafísico da “vontade”
helênica, aparecem acoplados e, nesse acoplamento, geram então a obra ao mesmo tempo dionisíaca
e apolínea da tragédia ática.
(NIETZSCHE, F. O nascimento da tragédia. São Paulo: Escala, 2007. p.27.)
Com base no texto e nos conhecimentos sobre a importância da arte trágica da Grécia Arcaica, segundo
Nietzsche, assinale a alternativa correta.
Gabarito comentado
Alternativa correta: B
Tema central: A questão explora a teoria estética de Nietzsche sobre a arte trágica grega — a tensão e união entre o princípio apolíneo (forma, clara representação) e o princípio dionisíaco (êxtase coletivo, música, desagregação do eu).
Resumo teórico progressivo: Para Nietzsche (O nascimento da tragédia), Apolo representa sonho, medida, imagem plástica; Dionísio representa música, embriaguez metafísica, fusão comunal e sofrimento. A tragédia grega é valiosa porque consegue acoplar esses dois polos — não eliminando um pelo outro, mas permitindo que o confronto/cruzamento gere a obra trágica máxima.
Justificativa da alternativa B: A alternativa B afirma que, ao reunir apolíneo e dionisíaco, a arte trágica apresenta a luta dos contrários. Isso está em conformidade direta com o texto: Nietzsche fala do “antagonismo” entre os dois instintos e do milagre em que são acoplados na tragédia. Logo, B descreve corretamente a ideia de síntese conflitiva que gera a tragédia ática.
Análise das alternativas incorretas:
A — "reprimir a sabedoria instintiva pelo saber racional": incorreta. Nietzsche não preconiza repressão do dionisíaco; ele valorizava a coexistência criadora entre instinto e forma.
C — "é substancialmente irracional, portanto desprezada": incorreta. Embora associe elementos irracionais, Nietzsche eleva a arte trágica como forma superior de conhecimento estético e metafísico, não para desprezá‑la.
D — "submete seus valores à racionalidade filosófica e científica": incorreta. A tragédia surge justamente como resistência ao triunfo absoluto da racionalidade (crítica ao espírito socrático), não sua submissão.
E — "valoriza Apolo desqualificando Dionísio": incorreta. A tese nietzschiana é de complementaridade e conflito criador; não de hierarquização que anula Dionísio.
Dica de interpretação: Desconfie de alternativas absolutistas (palavras como “deve”, “sempre”, “desprezada”). Busque no texto termos-chave (ex.: “antagonismo”, “acoplados”) que indiquem síntese e conflito, e relacione com a posição de Nietzsche sobre tragédia.
Fonte principal citada: Nietzsche, F. O nascimento da tragédia (Ed. Escala, p.27).
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