Questão 9c3dfe1a-80
Prova:UDESC 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Variação Linguística, Análise sintática, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia, Sintaxe, Redação - Reescritura de texto, Orações subordinadas substantivas: Subjetivas, Objetivas diretas, Objetivas indiretas..., Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Em relação ao Texto 4, leia e analise as proposições que seguem.
I. Se a expressão “E isso com os dentes serrilhando" (linha 13) for substituída por E isso entre dentes, mantém-se o sentido original da oração.
II. As expressões “m'imbora" (linha 3), “cambriuzano" (linha 4), “damanhã" (linha 5), “im jejum" (linha 5) e “descurpe" (linha 6) são vocábulos que caracterizam somente o linguajar africano – a fala dos escravos.
III. Da expressão “e disse com todas as suas forças e todos os seus erres" (linhas 12 e 13) infere- se que a autora quis ressaltar o sotaque alemão do Dr. Büchmann.
IV. A oração destacada no período “eu cheguei a pensar que o camarada fosse desmaiar" (linha 14) sintaticamente é classificada como uma oração subordinada substantiva subjetiva.
V. O sentido do verbo passar (linha 14) é equivalente a tornar-se, portanto pode ser classificado como verbo de ligação, na oração.

Assinale a alternativa correta.

O mulato Praxedes se encheu daquela safadeza toda e resolveu se levantar e, de mão na cintura, soltou seu verbo: – Sabe o que mais seu dotô? Eu vou mais é m’imbora. Deixa esse diabo morrê de uma vez. Então eu, um trabalhadô às direita, pai de família, cambriuzano de nascimento e de coração, fico dês das 6 damanhã im jejum pra sarvá uma merda dessas e ela ainda me chama de sifilítico? Sifilítico [...]. Me descurpe da má palavra, eu que não entendo nada de alemão, sou capaz de jurar que foi isso aí que o senhor disse dejahoje pra ela. Eu lhe peço, seu dotô, deixa esse diabo morrê de uma veiz. Ela não tá xingando só a mim não. Ela tá xingando é a minha raça inteira. É o brasileiro. E xingou a minha raça, xinga a minha mãe! Quinta coluna dos infernos! Ela que vá pros quinto. O Dr. Büchmann, vermelho como um pimentão, os dentes cerrados, a boca aberta, agarrou o mulato, deu um safanão, jogou-o na cama e disse com todas as suas forças e todos os seus erres: “Fai a merrrdaaa!” E isso com os dentes serrilhando. O Praxedes, de mulato que era, passou a meio desbotado e eu cheguei a pensar que o camarada fosse desmaiar. LAUS, Lausimar. O guarda-roupa alemão. Rio de Janeiro, Pallas S.A., 1975, p. 153.

A
 Somente as afirmativas II e V são verdadeiras.
B
 Somente as afirmativas II e IV são verdadeiras.
C
 Somente as afirmativas I, III e V são verdadeiras.
D
Somente as afirmativas I, III e IV são verdadeiras.
E
 Todas as afirmativas são verdadeiras.

Gabarito comentado

F
Felipe SantosMonitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: A decisão depende da leitura conjunta dos trechos “E isso com os dentes serrilhando.”, “e disse com todas as suas forças e todos os seus erres”, “O Praxedes, de mulato que era, passou a meio desbotado” e “eu cheguei a pensar que o camarada fosse desmaiar”: eles sustentam I por equivalência contextual de sentido, III pela marcação do sotaque alemão e V pelo valor de mudança de estado de “passou”; ao mesmo tempo, afastam II por generalização indevida sobre variação linguística e IV porque a oração com “que” completa o verbo “pensar”, sendo objetiva direta.

Tema central: Interpretação e sintaxe
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque toma II como verdadeira, mas a base afirma que “m’imbora”, “cambriuzano”, “damanhã”, “im jejum” e “descurpe” são marcas de oralidade e variação popular, não formas que caracterizem “somente” o “linguajar africano – a fala dos escravos”. Além disso, a alternativa omite I e III, que são aceitáveis pela leitura contextual do texto.
B
Errada
Está errada porque depende de duas assertivas falsas. II é falsa por generalização sociolinguística indevida. IV também é falsa: em “eu cheguei a pensar que o camarada fosse desmaiar”, a oração “que o camarada fosse desmaiar” completa o verbo “pensar”, portanto é subordinada substantiva objetiva direta, e não subjetiva.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque reúne exatamente as assertivas sustentadas pela base. Em I, a banca aceita que “com os dentes serrilhando” e “entre dentes” preservam, no contexto, o núcleo semântico de fala tensa, comprimida, raivosa. Em III, “todos os seus erres”, associado ao personagem Dr. Büchmann, destaca um traço de pronúncia e autoriza inferir o sotaque alemão. Em V, “passou a meio desbotado” indica mudança de estado, com sentido equivalente a tornar-se/ficar, de modo que “passar” funciona como verbo de ligação. A alternativa também acerta ao não incluir II e IV: II reduz indevidamente marcas de oralidade popular a um grupo específico, e IV erra a classificação sintática da oração introduzida por “que”.
D
Errada
Está errada porque inclui IV como verdadeira. O erro decisivo está na sintaxe do período final: a oração “que o camarada fosse desmaiar” não exerce função de sujeito; ela funciona como complemento verbal de “pensar”. Por isso, a classificação correta é objetiva direta.
E
Errada
Está errada porque nem todas as assertivas são verdadeiras. II não se sustenta, já que o texto não autoriza restringir aquelas formas a um único grupo étnico-social. IV também não se sustenta, porque a oração introduzida por “que” é complemento de “pensar”, não uma subordinada substantiva subjetiva.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões: transformar marcas amplas de oralidade popular em traço exclusivo de um grupo social específico e classificar automaticamente qualquer oração iniciada por “que” como subjetiva, sem verificar sua relação sintática com o verbo anterior.
Dica para questões semelhantes
  • Em proposições de interpretação, teste primeiro se a afirmação se apoia no texto ou se generaliza além dele; palavras como “somente” costumam exigir prova textual forte.
  • Em substituição de expressões, verifique se o sentido principal da cena foi preservado; a banca pode aceitar equivalência contextual sem exigir identidade lexical absoluta.
  • Ao classificar oração com “que”, pergunte se ela completa o verbo anterior; se completa, não é subjetiva.
  • Observe quando um verbo indica mudança de estado do sujeito, como em “passou a meio desbotado”; nesse uso, ele pode funcionar como verbo de ligação.

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