Questão 9aa89ffd-80
Prova:UDESC 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Variação Linguística, Homonímia, Paronímia, Sinonímia e Antonímia, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Considerando o Texto 4, a obra O guarda-roupa alemão e as variações linguísticas, assinale a alternativa incorreta.
Considerando o Texto 4, a obra O guarda-roupa alemão e as variações linguísticas, assinale a alternativa incorreta.
O mulato Praxedes se encheu daquela safadeza toda e resolveu se levantar e, de mão
na cintura, soltou seu verbo:
– Sabe o que mais seu dotô? Eu vou mais é m’imbora. Deixa esse diabo morrê de
uma vez. Então eu, um trabalhadô às direita, pai de família, cambriuzano de nascimento e
de coração, fico dês das 6 damanhã im jejum pra sarvá uma merda dessas e ela ainda me
chama de sifilítico? Sifilítico [...]. Me descurpe da má palavra, eu que não entendo nada de
alemão, sou capaz de jurar que foi isso aí que o senhor disse dejahoje pra ela. Eu lhe peço,
seu dotô, deixa esse diabo morrê de uma veiz. Ela não tá xingando só a mim não. Ela tá
xingando é a minha raça inteira. É o brasileiro. E xingou a minha raça, xinga a minha mãe!
Quinta coluna dos infernos! Ela que vá pros quinto.
O Dr. Büchmann, vermelho como um pimentão, os dentes cerrados, a boca aberta,
agarrou o mulato, deu um safanão, jogou-o na cama e disse com todas as suas forças e
todos os seus erres: “Fai a merrrdaaa!” E isso com os dentes serrilhando. O Praxedes, de
mulato que era, passou a meio desbotado e eu cheguei a pensar que o camarada fosse
desmaiar.
LAUS, Lausimar. O guarda-roupa alemão. Rio de Janeiro, Pallas S.A., 1975, p. 153.
O mulato Praxedes se encheu daquela safadeza toda e resolveu se levantar e, de mão
na cintura, soltou seu verbo:
– Sabe o que mais seu dotô? Eu vou mais é m’imbora. Deixa esse diabo morrê de
uma vez. Então eu, um trabalhadô às direita, pai de família, cambriuzano de nascimento e
de coração, fico dês das 6 damanhã im jejum pra sarvá uma merda dessas e ela ainda me
chama de sifilítico? Sifilítico [...]. Me descurpe da má palavra, eu que não entendo nada de
alemão, sou capaz de jurar que foi isso aí que o senhor disse dejahoje pra ela. Eu lhe peço,
seu dotô, deixa esse diabo morrê de uma veiz. Ela não tá xingando só a mim não. Ela tá
xingando é a minha raça inteira. É o brasileiro. E xingou a minha raça, xinga a minha mãe!
Quinta coluna dos infernos! Ela que vá pros quinto.
O Dr. Büchmann, vermelho como um pimentão, os dentes cerrados, a boca aberta,
agarrou o mulato, deu um safanão, jogou-o na cama e disse com todas as suas forças e
todos os seus erres: “Fai a merrrdaaa!” E isso com os dentes serrilhando. O Praxedes, de
mulato que era, passou a meio desbotado e eu cheguei a pensar que o camarada fosse
desmaiar.
LAUS, Lausimar. O guarda-roupa alemão. Rio de Janeiro, Pallas S.A., 1975, p. 153.
A
O padrão coloquial de linguagem, no excerto, é utilizado para registrar a fala do personagem, pois a fala é um elemento de caracterização e verossimilhança na narrativa.
B
Os elementos que marcam a linguagem coloquial, no excerto, constituem um recurso utilizado pelo autor para caracterizar o personagem e confirmar o processo comunicativo. Os níveis de linguagem decorrentes das diferenças sociais ocorrem apenas na ficção.
C
Pela fala do personagem Praxedes, pode-se inferir que, embora seja ele uma pessoa simples, sabe defender sua opinião.
D
Embora a obra tenha como temática central a colonização alemã em SC, ela ainda faz uma abordagem à miscigenação entre os personagens.
E
A língua falada em “seu dotô" (linha 3), “dês das" (linha 5) e “Me descurpe da má palavra" (linha 6) pode ser considerada “errada" se comparada à norma culta; no entanto a linguística a considera “correta", uma vez que representa a fala espontânea de alguns grupos sociais.
Gabarito comentado
F
Flavio Rocha Monitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a variação linguística representada no texto literário: o excerto traz marcas de oralidade e de variação social em “seu dotô”, “m’imbora”, “trabalhadô”, “dês das 6 damanhã im jejum pra sarvá”, “Me descurpe da má palavra”, que caracterizam Praxedes e dão verossimilhança à narrativa. A alternativa B erra ao afirmar que esses níveis de linguagem decorrentes das diferenças sociais ocorrem “apenas na ficção”.
Tema central: variação linguística
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa se sustenta no funcionamento do excerto. As formas de fala do personagem registram oralidade e coloquialidade e cumprem função de caracterização narrativa. No trecho, a fala socialmente marcada de Praxedes contribui para individualizá-lo e produzir verossimilhança. Portanto, não há erro linguístico ou interpretativo que a elimine.
B
Certa
A alternativa B é a incorreta da questão porque contém uma generalização falsa. Sua primeira parte está de acordo com o excerto: as marcas coloquiais realmente caracterizam o personagem e integram o processo comunicativo da cena. O erro está na afirmação final de que os níveis de linguagem decorrentes das diferenças sociais ocorrem apenas na ficção. Isso contraria o próprio conceito de variação linguística mobilizado no comando da questão: essas variedades existem nos usos reais da língua e o texto literário apenas as incorpora como recurso de representação.
C
Errada
A inferência é autorizada pelo texto. Praxedes não apenas fala de modo simples; ele protesta, justifica sua posição e sustenta seu ponto de vista com firmeza, como em “Ela não tá xingando só a mim não. Ela tá xingando é a minha raça inteira. É o brasileiro.”. Logo, a alternativa não pode ser considerada incorreta.
D
Errada
A afirmação não entra em conflito com o excerto nem com o enquadramento da obra dado no comando. A expressão “O mulato Praxedes” ao menos sustenta a presença de marcação racial no universo narrativo, compatível com a ideia de abordagem da miscigenação entre personagens. Como a base ainda alerta que essa alternativa depende parcialmente de conhecimento da obra, não há fundamento para eliminá-la. Base insuficiente para justificar esta alternativa sem extrapolação.
E
Errada
A alternativa se apoia corretamente na diferença entre julgamento pela norma culta escrita e reconhecimento sociolinguístico da fala espontânea. Expressões como “seu dotô”, “dês das” e “Me descurpe” afastam-se da norma-padrão, mas isso não lhes retira valor linguístico no plano da variação social. No contexto da questão, a formulação é aceitável e não configura erro.
Pegadinha da questão
A banca colocou na alternativa B uma primeira metade correta sobre caracterização do personagem e escondeu o erro na expressão absoluta “apenas na ficção”. A confusão explorada é tomar um recurso de representação literária como se fosse um fenômeno exclusivo da literatura.
Dica para questões semelhantes
- Em itens sobre variação linguística, verifique se a alternativa confunde representação no texto com existência real do fenômeno na língua.
- Quando a fala aparece marcada por oralidade, avalie sua função na construção do personagem antes de julgá-la pela norma-padrão.
- Desconfie de palavras absolutas como “apenas”, “sempre” e “nunca”, sobretudo em alternativas que começam corretas.
- Não associe fala não padrão a incapacidade de argumentar; confirme no texto se o personagem sustenta ou não uma opinião.






