Questão 04804956-8d
Prova:UNESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Tipologia Textual, Redação - Reescritura de texto, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas.
Nesta passagem, Luís da Câmara Cascudo, mencionado pelo autor, explica que, em apresentações do bumba-meu-boi da época da escravidão,
Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas.
Nesta passagem, Luís da Câmara Cascudo, mencionado pelo autor, explica que, em apresentações do bumba-meu-boi da época da escravidão,
Instrução: A questão toma por base um fragmento do livro Comunicação e folclore, de Luiz Beltrão (1918-1986).
O Bumba-Meu-Boi
Entre os autos populares conhecidos e praticados no Brasil – pastoril, fandango, chegança, reisado, congada, etc. – aquele em que melhor o povo exprime a sua crítica, aquele que tem maior conteúdo jornalístico, é, realmente, o bumba-meu-boi, ou simplesmente boi.
Para Renato Almeida, é o “bailado mais notável do Brasil, o folguedo brasileiro de maior significação estética e social”. Luís da Câmara Cascudo, por seu turno, observou a sua superioridade porque “enquanto os outros autos cristalizaram, imóveis, no elenco de outrora, o bumba-meu-boi é sempre atual, incluindo soluções modernas, figuras de agora, vocabulário, sensação, percepção contemporânea. Na época da escravidão mostrava os vaqueiros escravos vencendo pela inteligência, astúcia e cinismo. Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas. O capitão-do-mato, preador de escravos, assombro dos moleques, faz-sono dos negrinhos, vai ‘caçar’ os negros que fugiram, depois da morte do Boi, e em vez de trazê-los é trazido amarrado, humilhado, tremendo de medo. O valentão mestiço, capoeira, apanha pancada e é mais mofino que todos os mofinos. Imaginem a alegria negra, vendo e ouvindo essa sublimação aberta, franca, na porta da casa-grande de engenho ou no terreiro da fazenda, nos pátios das vilas, diante do adro da igreja! A figura dos padres, os padres do interior, vinha arrastada com a violência de um ajuste de contas. O doutor, o curioso, metido a entender de tudo, o delegado autoritário, valente com a patrulha e covarde sem ela, toda a galeria perpassa, expondo suas mazelas, vícios, manias, cacoetes, olhada por uma assistência onde estavam muitas vítimas dos personagens reais, ali subalternizados pela virulência do desabafo”.
Como algumas outras manifestações folclóricas, o bumbameu-boi utiliza uma forma antiga, tradicional; entretanto, fá-la revestir-se de novos aspectos, atualiza o entrecho, recompõe a trama. Daí “o interesse do tipo solidário que desperta nas camadas populares”, como o assinala Édison Carneiro. Interesse que só pode manter-se porque o que no auto se apresenta não reflete apenas situações do passado, “mas porque têm importância para o futuro”. Com efeito, tendo por tema central a morte e a ressurreição do boi, “cerca-se de episódios acessórios, não essenciais, muito desligados da ação principal, que variam de região para região... em cada lugar, novos personagens são enxertados, aparentemente sem outro objetivo senão o de prolongar e variar a brincadeira”. Contudo, dentre esses personagens, os que representam as classes superiores são caricaturados, cobrindo-se de ridículo, o que torna “o folguedo, em si mesmo, uma reivindicação”.
Sílvio Romero recolheu os versos de um bumba-meu-boi, através dos quais se constata a intenção caricaturesca nos personagens do folguedo. Como o Padre, que recita:
Não sou padre, não sou nada “Quem me ver estar dançando Não julgue que estou louco; Secular sou como os outros”.
Ou como o Capitão-do-Mato que, dando com o negro Fidélis, vai prendê-lo: “CAPITÃO – Eu te atiro, negro Eu te amarro, ladrão, Eu te acabo, cão.”
Mas, ao contrário, quem vai sobre o Capitão e o amarra é o Fidélis:
“CORO – Capitão de campo Veja que o mundo virou Foi ao mato pegar negro Mas o negro lhe amarrou.
CAPITÃO – Sou valente afamado Como eu não pode haver; Qualquer susto que me fazem Logo me ponho a correr”.
(Luiz Beltrão. Comunicação e folclore. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1971.)
Instrução: A questão toma por base um fragmento do livro Comunicação e folclore, de Luiz Beltrão (1918-1986).
O Bumba-Meu-Boi
Entre os autos populares conhecidos e praticados no Brasil – pastoril, fandango, chegança, reisado, congada, etc. – aquele em que melhor o povo exprime a sua crítica, aquele que tem maior conteúdo jornalístico, é, realmente, o bumba-meu-boi, ou simplesmente boi.
Para Renato Almeida, é o “bailado mais notável do Brasil, o folguedo brasileiro de maior significação estética e social”. Luís da Câmara Cascudo, por seu turno, observou a sua superioridade porque “enquanto os outros autos cristalizaram, imóveis, no elenco de outrora, o bumba-meu-boi é sempre atual, incluindo soluções modernas, figuras de agora, vocabulário, sensação, percepção contemporânea. Na época da escravidão mostrava os vaqueiros escravos vencendo pela inteligência, astúcia e cinismo. Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas. O capitão-do-mato, preador de escravos, assombro dos moleques, faz-sono dos negrinhos, vai ‘caçar’ os negros que fugiram, depois da morte do Boi, e em vez de trazê-los é trazido amarrado, humilhado, tremendo de medo. O valentão mestiço, capoeira, apanha pancada e é mais mofino que todos os mofinos. Imaginem a alegria negra, vendo e ouvindo essa sublimação aberta, franca, na porta da casa-grande de engenho ou no terreiro da fazenda, nos pátios das vilas, diante do adro da igreja! A figura dos padres, os padres do interior, vinha arrastada com a violência de um ajuste de contas. O doutor, o curioso, metido a entender de tudo, o delegado autoritário, valente com a patrulha e covarde sem ela, toda a galeria perpassa, expondo suas mazelas, vícios, manias, cacoetes, olhada por uma assistência onde estavam muitas vítimas dos personagens reais, ali subalternizados pela virulência do desabafo”.
Como algumas outras manifestações folclóricas, o bumbameu-boi utiliza uma forma antiga, tradicional; entretanto, fá-la revestir-se de novos aspectos, atualiza o entrecho, recompõe a trama. Daí “o interesse do tipo solidário que desperta nas camadas populares”, como o assinala Édison Carneiro. Interesse que só pode manter-se porque o que no auto se apresenta não reflete apenas situações do passado, “mas porque têm importância para o futuro”. Com efeito, tendo por tema central a morte e a ressurreição do boi, “cerca-se de episódios acessórios, não essenciais, muito desligados da ação principal, que variam de região para região... em cada lugar, novos personagens são enxertados, aparentemente sem outro objetivo senão o de prolongar e variar a brincadeira”. Contudo, dentre esses personagens, os que representam as classes superiores são caricaturados, cobrindo-se de ridículo, o que torna “o folguedo, em si mesmo, uma reivindicação”.
Sílvio Romero recolheu os versos de um bumba-meu-boi, através dos quais se constata a intenção caricaturesca nos personagens do folguedo. Como o Padre, que recita:
Não sou padre, não sou nada
“Quem me ver estar dançando
Não julgue que estou louco;
Secular sou como os outros”.
Ou como o Capitão-do-Mato que, dando com o negro Fidélis, vai prendê-lo:
“CAPITÃO – Eu te atiro, negro
Eu te amarro, ladrão,
Eu te acabo, cão.”
Mas, ao contrário, quem vai sobre o Capitão e o amarra é o Fidélis:
“CORO – Capitão de campo
Veja que o mundo virou
Foi ao mato pegar negro
Mas o negro lhe amarrou.
CAPITÃO – Sou valente afamado
Como eu não pode haver;
Qualquer susto que me fazem
Logo me ponho a correr”.
(Luiz Beltrão. Comunicação e folclore. São Paulo: Edições Melhoramentos, 1971.)
A
as pessoas da plateia eram convidadas a participar do bumba-meu-boi para declamar versinhos ridículos.
B
o auto era uma forma de fazer as pessoas presentes confessarem estertoricamente os seus pecados.
C
havia uma personagem que usava uma chibata para agredir pessoas da plateia, enquanto apontava seus defeitos.
D
todos os presentes participavam do auto, improvisando falas e declamações.
E
o bumba-meu-boi satirizava em seu enredo personagens que apresentavam os mesmos defeitos de pessoas reais.
Gabarito comentado
F
Fernanda CastroMonitor com apoio de IA
Gabarito: E
Fundamento decisivo: O ponto decisivo é a leitura contextual e figurada da passagem “Chibateava a cupidez, a materialidade, o sensualismo de doutores, padres, delegados, fazendo-os cantar versinhos que eram confissões estertóricas.”: ela descreve sátira social por meio de personagens caricaturais do bumba-meu-boi, não participação da plateia nem confissão literal; por isso, a alternativa correta é a que reconhece a ridicularização de tipos sociais reais e seus defeitos.
Tema central: sátira social caricatural
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não diz que pessoas da plateia eram convidadas a participar nem a declamar versos. Ao contrário, há distinção entre quem assiste e quem é encenado: “olhada por uma assistência onde estavam muitas vítimas dos personagens reais”. Os “versinhos” são recurso dramatúrgico das personagens caricaturadas, não falas da plateia.
B
Errada
Está errada porque transforma em confissão literal o que, no contexto, é exposição caricatural de vícios. A expressão “confissões estertóricas” não indica pessoas presentes confessando pecados; indica que as personagens satirizadas são postas a cantar versos que revelam, de forma ridicularizada, seus defeitos.
C
Errada
Está errada porque lê literalmente “chibateava” e ainda desloca o alvo para a plateia. Na passagem, o verbo tem valor figurado: designa ataque satírico aos vícios de “doutores, padres, delegados”. Não há no texto qualquer indicação de agressão física a espectadores.
D
Errada
Está errada porque generaliza sem apoio textual. O texto afirma que o folguedo atualiza o entrecho e incorpora personagens, mas não afirma que “todos os presentes” participavam nem que improvisavam falas e declamações. A assistência aparece como público observador, não como participante integral da encenação.
E
Certa
A alternativa E está correta porque recompõe com fidelidade o sentido do trecho: o bumba-meu-boi expõe ao ridículo figuras sociais como doutores, padres e delegados por meio de personagens do enredo. Isso é confirmado também por passagens de apoio como “o doutor, o curioso, metido a entender de tudo, o delegado autoritário, valente com a patrulha e covarde sem ela, toda a galeria perpassa, expondo suas mazelas, vícios, manias, cacoetes” e “dentre esses personagens, os que representam as classes superiores são caricaturados, cobrindo-se de ridículo”. Portanto, a alternativa acerta ao identificar a sátira de personagens que condensam defeitos reconhecíveis em pessoas reais.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de literalizar expressões como “chibateava” e “confissões estertóricas” e de confundir personagens do auto com pessoas da plateia; o texto, porém, trata de caricatura social encenada.
Dica para questões semelhantes
- Verifique se verbos e expressões estão em sentido literal ou figurado antes de aceitar a alternativa.
- Separe com precisão quem o texto apresenta como personagem e quem aparece apenas como assistência.
- Quando a questão tratar de interpretação, prefira a alternativa que parafraseia o mecanismo discursivo do trecho sem acrescentar fatos não ditos.
- Desconfie de alternativas que trocam crítica satírica a tipos sociais por ações concretas não mencionadas no texto.






