Questão f4de0af5-46
Prova:UNIFESP 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

O texto permite afirmar que

Instrução: Leia o texto para responder às questões de números 08 a 10.

 Por causa do assassinato do caminhoneiro Pascoal de Oliveira, o Nego, pelo – também caminhoneiro – japonês Kababe Massame, após uma discussão, em 31 de julho de 1946, a população de Osvaldo Cruz (SP), que já estava com os nervos à flor da pele em virtude de dois atentados da Shindô-Renmei* na cidade, saiu às ruas e invadiu casas, disposta a maltratar “impiedosamente”, na palavra do historiador local José Alvarenga, qualquer japonês que encontrasse pela frente. O linchamento dos japoneses só foi totalmente controlado com a intervenção de um destacamento do Exército, vindo de Tupã, chamado pelo médico Oswaldo Nunes, um herói daquele dia totalmente atípico na história de Osvaldo Cruz e das cidades brasileiras.

   Com o final da Segunda Guerra Mundial, o eclipse do Estado Novo e o desmantelamento da Shindô-Renmei, inicia-se um ciclo de emudecimento, de ambos os lados, sobre as quatro décadas de intolerância vividas pelos japoneses. Do lado local, foi sedimentando-se no mundo das letras a ideia do país como um “paraíso racial”. Do lado dos imigrantes, as segundas e terceiras gerações de filhos de japoneses se concentraram, a partir da década de 1950, na construção da sua ascensão social. A história foi sendo esquecida, junto com o idioma e os hábitos culturais de seus pais e avós.
 (Matinas Suzuki Jr. Folha de S.Paulo, 20.04.2008. Adaptado.)

 * Shindô-Renmei foi uma organização nacionalista, que surgiu no Brasil após o término da Segunda Guerra Mundial, formada por japoneses que não acreditavam na derrota do Japão na guerra. Possuía alguns membros mais fanáticos que cometiam atentados, tendo matado e ferido diversos cidadãos nipo-brasileiros.

A
o antigo e pernicioso sentimento de intolerância entre brasileiros e japoneses, cultivado há quatro décadas, recrudesce no pós-guerra.
B
a ideia de um “paraíso racial”, cristalizada no mundo das letras, foi bastante benéfica para o desenvolvimento do país.
C
a ideologia, de um lado, e o pragmatismo, de outro, criaram condições para uma fase de silêncio sobre a intolerância antinipônica.
D
as motivações racistas do assassinato do caminhoneiro Pascoal pelo caminhoneiro Kababe, em 1946, desencadearam as hostilidades entre brasileiros e japoneses.
E
a violência dos atentados da Shindô-Renmei reprimiu a intolerância dos brasileiros contra os japoneses.

Gabarito comentado

E
Evandro MoreiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: O segundo parágrafo estabelece, como núcleo da resolução, que “inicia-se um ciclo de emudecimento” sobre a intolerância, resultante de dois movimentos paralelos: “Do lado local”, a sedimentação da ideia de “paraíso racial”; e, “Do lado dos imigrantes”, a concentração das gerações descendentes na construção de sua ascensão social. Como o gabarito deve reproduzir essa relação entre um vetor ideológico e outro pragmático, a alternativa C é a única compatível com o texto.

Tema central: silenciamento da intolerância
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa contraria a tese do segundo parágrafo. O texto não diz que a intolerância recrudesce no pós-guerra; diz que, com o fim da guerra e o desmantelamento da Shindô-Renmei, “inicia-se um ciclo de emudecimento”. Além disso, as “quatro décadas de intolerância” são apresentadas como intolerância vivida pelos japoneses, e não como sentimento simétrico “entre brasileiros e japoneses”.
B
Errada
Há extrapolação valorativa indevida. O texto informa que se sedimentou a ideia do país como “paraíso racial”, mas não afirma que isso foi benéfico para o desenvolvimento do país. No contexto, essa ideia funciona como formulação discursiva ligada ao apagamento da intolerância, não como elogio objetivo ao país.
C
Certa
A alternativa C reconstrói com fidelidade a lógica do segundo parágrafo. A referência à ideia de “paraíso racial” corresponde ao vetor ideológico-discursivo do lado local, enquanto a concentração das gerações descendentes na “ascensão social” autoriza a leitura de uma orientação prática, isto é, pragmática, do lado dos imigrantes. Esses dois movimentos aparecem no texto como base para o “ciclo de emudecimento” sobre a intolerância antinipônica. Portanto, a alternativa não inventa sentido: ela parafraseia corretamente a estrutura causal e contrastiva do texto.
D
Errada
A alternativa acrescenta uma causa que o texto não fornece. O assassinato é apresentado como ocorrido “após uma discussão”, sem atribuição explícita de motivação racista. Também erra ao dizer que esse fato desencadeou as hostilidades, porque o texto já informa que a população estava exaltada “em virtude de dois atentados da Shindô-Renmei na cidade”.
E
Errada
A alternativa inverte a relação causal. O texto mostra que os atentados da Shindô-Renmei contribuíram para deixar a população “com os nervos à flor da pele”, isto é, para agravar o clima hostil que antecedeu a violência contra japoneses. Portanto, não se pode dizer que essa violência “reprimiu” a intolerância dos brasileiros.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de o candidato se prender ao episódio violento do primeiro parágrafo, quando a resposta depende principalmente do segundo, que explica o silêncio posterior por dois movimentos paralelos: um ideológico e outro prático.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o texto organiza a informação em pares como “Do lado local” e “Do lado dos imigrantes”, a alternativa correta costuma ser a que preserva essa bipartição.
  • Em comando como “permite afirmar”, aceite paráfrase inferencial só quando ela reproduz fielmente a relação de sentido do texto, sem acrescentar avaliação externa.
  • Desconfie de alternativas que transformam expressão discursiva em elogio literal, como ocorre com “paraíso racial”.

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