“A concepção da infinitude do universo é, naturalmente, uma doutrina puramente metafísica; pode,
certamente, como fez de fato, servir de base à ciência empírica; não pode jamais basear-se no empirismo.
Isto foi bem compreendido por Kepler que, portanto, rejeitou a doutrina – o que é particularmente
interessante e instrutivo – não só por motivos metafísicos como ainda por motivos puramente científicos.
Antecipando certas epistemologias de hoje, ele chega a declará-la despida de significação científica”.
(Koyré, A. Do Mundo Fechado ao Universo Infinito. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária, São Paulo:
Edusp, 1979, p.63)
No trecho acima, Alexandre Koyré identifica continuidade entre certos aspectos do pensamento de Johannes
Kepler e
Gabarito comentado
Gabarito: Alternativa B
Tema central: distinção entre conhecimento metafísico e conhecimento empírico/epistemologias do século XX. A questão exige reconhecer que Koyré aponta continuidade entre Kepler e correntes epistemológicas modernas que consideram afirmações sobre a infinitude do universo como não-científicas, por serem metafísicas e não verificáveis empiricamente.
Resumo teórico (claro e progressivo): - Metafísica: declarações que ultrapassam a experiência possível e não são suscetíveis de verificação empírica. - Empirismo/positivismo do século XX (ex.: Círculo de Viena, A. J. Ayer, Carnap): tendência a exigir critério de verificabilidade/confirmabilidade para que uma proposição seja considerada científica. - Koyré interpreta Kepler como percebendo que a ideia de infinitude é metafísica e, portanto, desprovida de significado científico — posição que antecipa preocupações do positivismo lógico.
Justificativa da alternativa correta (B): Koyré afirma que Kepler rejeitou a doutrina da infinitude por motivos tanto metafísicos quanto científicos, entendendo-a como destituída de significado científico. Essa atitude aproxima-se das epistemologias do século XX (empirismo lógico/positivismo) que negavam status científico a proposições não verificáveis. Logo, a continuidade apontada por Koyré liga Kepler a essas correntes, o que torna a alternativa B correta.
Análise das alternativas incorretas:
A: Giordano Bruno defendia ativamente a infinitude do mundo; afirmar continuidade com Bruno seria o oposto do que Koyré diz sobre Kepler, que rejeitou a doutrina. Portanto A está errada.
C: Filósofos pré-socráticos têm atitudes muito diversas; a relação textual de Koyré refere-se a uma afinidade epistemológica específica (rejeição da infinitude como enunciado científico), não a uma continuidade direta com a filosofia natural pré-socrática. Logo, C é inadequada.
D: As convicções religiosas de Kepler não são o foco do trecho: Koyré enfatiza motivos metafísicos e científicos, não explicitamente a onipotência divina; portanto D não responde ao que o autor indica.
E: A alternativa sugere que as hipóteses eram “as únicas defensáveis” diante de Galileu — isso confunde contexto histórico-científico. O ponto de Koyré é epistemológico (significado científico), não uma avaliação de hipóteses empíricas derivadas de observação galileana. Assim, E é incorreta.
Estratégia de resolução: Ao enfrentar questões assim, identifique termos-chave do enunciado (ex.: “metafísica”, “significação científica”, “antecipando epistemologias de hoje”) e relacione-os com correntes epistemológicas conhecidas (positivismo lógico, empirismo). Elimine alternativas que invertam a relação ou troquem o plano metafísico pelo religioso/histórico.
Fontes sugeridas: Alexandre Koyré, Do Mundo Fechado ao Universo Infinito (1979); introduções ao Positivismo Lógico (Círculo de Viena, A. J. Ayer).
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