Questão e97d22c0-29
Prova:UNIFESP 2005
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

No texto de Sabino, o narrador questiona a traição de Capitu. Lendo o texto de Machado, pode-se entender que esse questionamento decorre de

Ultimamente ando de novo intrigado com o enigma de Capitu. Teria ela traído mesmo o marido, ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador? Reli mais uma vez o romance e não cheguei a nenhuma conclusão. Um mistério que o autor deixou para a posteridade.

(Fernando Sabino, O bom ladrão.)

A
os fatos serem narrados pela visão de uma personagem, no caso, o narrador em primeira pessoa, que fornece ao leitor o perfil psicológico de Capitu.
B
a personagem ser vista por José Dias como oblíqua e dissimulada, o que gerou mal- estar no apaixonado de Capitu, deixando de vê- la como uma mulher de encantos.
C
a apresentação da personagem Capitu ser feita no romance de maneira muito objetiva, sem expressão dos sentimentos que a vinculavam ao homem que a amava.
D
os aspectos psicológicos de Capitu serem apresentados apenas pelos comentários de José Dias, o que lhe torna a caracterização muito subjetiva.
E
o amado de Capitu não conseguir enxergar nela características mais precisas e menos misteriosas, o que o faz descrevê- la de forma bastante idealizada.

Gabarito comentado

R
Ricardo CostaMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o foco narrativo em primeira pessoa, porque o próprio texto ativa essa chave ao dizer: "Teria ela traído mesmo o marido, ou tudo não passou de imaginação dele, como narrador?". A consequência é direta: a dúvida sobre Capitu nasce do fato de o leitor receber os acontecimentos pela versão subjetiva do marido-narrador, não por um relato neutro, o que conduz à alternativa A.

Tema central: foco narrativo subjetivo
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A acerta porque aponta a causa textual do questionamento: os fatos são narrados pela visão de uma personagem, em primeira pessoa. É exatamente isso que sustenta a incerteza destacada por Sabino, já que a possível traição não aparece como fato objetivo comprovado, mas como versão filtrada pelo narrador-marido. O trecho final da alternativa sobre o perfil psicológico de Capitu não é o ponto decisivo; o núcleo correto está na narração pela ótica de uma personagem.
B
Errada
A alternativa erra porque desloca a origem da dúvida para o julgamento de José Dias, quando o texto de Sabino a atribui à possibilidade de ser "imaginação dele, como narrador". Isso confunde um comentário de personagem secundária com a causa estrutural da ambiguidade narrativa. Além disso, acrescenta a ideia de que o apaixonado passa a não ver Capitu como mulher de encantos, o que não é o fundamento pedido.
C
Errada
A alternativa é incompatível com o critério decisivo da questão. Se o enigma decorre da mediação subjetiva do narrador, não se pode dizer que Capitu seja apresentada de maneira "muito objetiva". Também é incorreto afirmar ausência de expressão dos sentimentos que a ligavam ao homem que a amava, porque a base afirma que sua imagem é fortemente mediada pelo olhar de Bentinho, não construída sem carga afetiva.
D
Errada
O erro está no advérbio "apenas". A base é expressa ao afirmar que a construção de Capitu passa principalmente pelo olhar de Bentinho e, secundariamente, por falas de outras personagens. Portanto, não é correto dizer que seus aspectos psicológicos são apresentados só pelos comentários de José Dias.
E
Errada
A alternativa troca a causa da dúvida. O texto de Sabino não atribui o questionamento a uma descrição idealizada de Capitu pelo amado, mas à possibilidade de os fatos serem imaginação do narrador. O ponto decisivo é a subjetividade da narração, não uma idealização amorosa formulada de modo genérico.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de tomar a frase célebre de José Dias sobre Capitu ou o mistério da personagem como centro da resposta, quando o comando cobra a causa da dúvida: a mediação dos fatos pela voz do narrador-marido em primeira pessoa.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando perguntar de que decorre uma dúvida interpretativa, procure a causa textual estrutural, não um detalhe marcante de personagem secundária.
  • Se o texto mencionar narrador, verifique imediatamente o foco narrativo e o grau de subjetividade da versão apresentada.
  • Desconfie de alternativas com restrições como "apenas" quando a própria base indicar mediação por mais de uma voz, com primazia do narrador.
  • Não confunda descrição detalhada da personagem com objetividade: minúcia narrativa não elimina o viés de quem conta.

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