Questão d44ab3ff-96
Prova:CEDERJ 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Tipologia Textual, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
A afirmativa em que se associa adequadamente o
estilo do escritor Graciliano Ramos à temática
desenvolvida no trecho lido é:
A afirmativa em que se associa adequadamente o
estilo do escritor Graciliano Ramos à temática
desenvolvida no trecho lido é:
Infância
Uma noite, depois do café, meu pai me mandou
buscar um livro que deixara na cabeceira da cama.
Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido
o café, beijava-lhe a mão, porque isto era praxe,
mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no
quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei
à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o
volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de
que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou
naquela noite extraordinária.
Meu pai determinou que eu principiasse a leitura.
Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo
uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando
linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem
ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a
arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada
cheia de buracos.
Com certeza o negociante recebera alguma dívida
perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo,
perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia.
Explicou-me que se tratava de uma história, um romance,
exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com
filhos andava numa floresta, em noite de inverno,
perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de
muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um
lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de
cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a
parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas
era difícil conhecer tudo.
Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar
o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a
inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe,
apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu
espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o
lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei
com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos
brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques,
vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e
misteriosas.
À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a
cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada,
mal-entendidos, explicações.
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente,
mas o velho estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte,
quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me
com um gesto, carrancudo.
Nunca experimentei decepção tão grande. Era como
se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de
repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a
reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi
desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma
longa covardia, a certeza de que as horas de encanto
eram boas demais para mim e não podiam durar.
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 1995.
p.187-191.
Infância
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 1995. p.187-191.
Uma noite, depois do café, meu pai me mandou
buscar um livro que deixara na cabeceira da cama.
Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido
o café, beijava-lhe a mão, porque isto era praxe,
mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no
quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei
à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o
volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de
que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou
naquela noite extraordinária.
Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.
Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.
Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.
À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.
Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.
Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.
Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.
Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.
Recolhi-me preocupado: os fugitivos, os lobos e o lenhador agitaram-me o sono. Dormi com eles, acordei com eles. As horas voaram. Alheio à escola, aos brinquedos de minhas irmãs, à tagarelice dos moleques, vivi com essas criaturas de sonho, incompletas e misteriosas.
À noite meu pai me pediu novamente o volume, e a cena da véspera se reproduziu: leitura emperrada, mal-entendidos, explicações.
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso. E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo.
Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.
RAMOS, Graciliano. Infância. São Paulo: Record, 1995. p.187-191.
A
O narrador adota uma linguagem floreada, repleta
de eufemismos que atenuam o sofrimento do
menino diante da difícil relação com o pai e com a
leitura.
B
O estilo circular da narrativa reitera, ao longo de
todo o texto, o desespero do menino diante do ato
de ler e a repugnância que sente em relação aos
livros.
C
O narrador, por meio de linguagem seca e cortante,
revela a decepção do menino com a atitude do pai,
ilustrando as dificuldades de uma infância carente
de afetos e oportunidades.
D
O estilo direto adotado pelo narrador se deve ao
emprego da linguagem jornalística, que aproxima
a narrativa da realidade, de modo seco e objetivo,
ao retratar dificuldades próprias da relação entre
pais e filhos.
Gabarito comentado
G
Gustavo Silva Monitor com apoio de IA
Gabarito: C
Fundamento decisivo: O critério decisivo é a associação entre modo de dizer e conteúdo narrado: o trecho "Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça." mostra dicção contida, dura e sem ornamento excessivo para narrar frustração afetiva e ruptura do encanto da leitura, o que confirma a alternativa C.
Tema central: frustração afetiva e leitura
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra na caracterização do estilo. O texto não adota linguagem floreada nem usa eufemismos para atenuar o sofrimento. Ao contrário, emprega formulações diretas e ásperas, como "meu velho nunca se dirigia a mim", "repugnância", "antipático objeto", "desgraça" e "reduziu a cacos". Há imagens literárias pontuais, mas elas não suavizam a experiência; reforçam sua dureza.
B
Errada
A alternativa erra em dois pontos. Primeiro, a repetição de noites de leitura não autoriza afirmar que o traço decisivo seja um "estilo circular". Segundo, o texto não mantém do início ao fim apenas desespero e repugnância diante do livro. A aversão inicial se transforma em interesse e encantamento, como prova o trecho "Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente". O núcleo final é a decepção causada pela atitude do pai, não uma repulsa contínua pela leitura.
C
Certa
A alternativa C é a correta porque relaciona dois elementos que o texto efetivamente articula: a linguagem sóbria, seca e áspera do narrador e a experiência infantil marcada por dureza afetiva, dificuldade de ingresso no universo da leitura e decepção com o pai. Isso se sustenta em passagens como "Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim.", que evidencia distanciamento afetivo, e "Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente", seguida da recusa paterna, que culmina em "Nunca experimentei decepção tão grande". O texto não apresenta embelezamento ornamental; constrói, com economia verbal e imagens duras, o encanto interrompido do menino.
D
Errada
A alternativa erra o enquadramento discursivo. Mesmo havendo passagens de formulação direta, o texto não emprega linguagem jornalística. Trata-se de narrativa literária memorialística, subjetiva e imagética, com introspecção e metáforas, como em "E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.". Isso afasta a classificação de linguagem jornalística e impede sustentar a alternativa.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre secura estilística e linguagem jornalística, além da tendência de ler a repugnância inicial pelo livro como sentimento permanente, ignorando que o menino passa ao interesse e que a frustração final decorre da atitude do pai.
Dica para questões semelhantes
- Compare sempre o traço de estilo indicado na alternativa com a dicção real do texto: aqui, ela é sóbria e dura, não floreada nem jornalística.
- Observe a progressão afetiva do narrador; não transforme o sentimento inicial em chave de leitura do texto inteiro.
- Quando a questão pedir associação entre estilo e tema, localize trechos em que forma e conteúdo aparecem juntos, como a linguagem contida narrando a decepção.
- Desconfie de rótulos genéricos de gênero ou estilo se o texto apresentar subjetividade, memória e imagens metafóricas.






