Questão d2da5b50-ab
Prova:UFG 2014, UFG 2014, UFG 2014
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Figuras de Linguagem

No enunciado “Espantalhos de uma ordem que previu o assassinato do desejo, do pensamento e da liberdade”, faz-se uso do recurso:

O culto às marcas

A hipervalorização de bens ditos “de marca” é uma característica das sociedades contemporâneas. Delas advém a distinção como forma de poder que fascina tanto ricos quanto pobres no cenário da dessubjetivação partilhada por todos, da loja de luxo ao came- lódromo das falsificações.

A questão da distinção guarda em seu fundo um aspecto mais tenebroso, concernente ao presente da condição subjetiva da vida dos usuários devorados pelas antipolíticas autodestrutivas do consumismo transformado em regra.

Zerada a intersubjetividade que se definia na interação afetiva e comunicativa entre pessoas, o que resta são as coisas - e as pessoas como coisas - que podem ser compradas. Diga-se de passagem que as pessoas não compram coisas, mas sinais que informam sobre um capital simbólico. Coisificação da consciência é o nome velho para o fenômeno em que a concretude das coisas é substituída pela abstração da insígnia.

A fascinação de tantas pessoas por roupas, carros e até eletrodomésticos ditos “de marca” em nossa época é a declaração auto-exposta da morte do sujeito. Espantalhos de uma ordem que previu o assassinato do desejo, do pensamento e da liberdade - conjunto do que aqui chamamos de subjetividade - são incapazes de compreender seu descarado simulacro.

A morte por assassinato da subjetividade é percebida na redução do indivíduo a uma espécie de morto-vivo em três tempos. 1 - A destituição do direito ao próprio desejo: a publicidade colonizou a capacidade de sentir e projetar a autobiografia de cada um que é apagada na encenação da “vida fashion”. 2 - A desaparição da possibilidade de pensar: a publicidade oferece os jargões e slogans a serem repetidos sob a ilusão de ideias próprias. 3 - O direito à ideia-prática da liberdade é extirpado: resta o simulacro da escolha entre uma marca e outra. A ação torna-se acomodação ao mesmo de sempre.

A escolha entre o nada e a coisa nenhuma é bem disfarçada no poder de ostentar que promete redimir do buraco subjetivo. Não tendo mais o que expressar, alguém simplesmente “ostenta” um relógio caro, um computador moderninho, um carrão oneroso. Ou um piercing, um músculo forte. Tudo e cada coisa é reduzida à marca, emblema do capital e seu poder na era do Espetáculo.

Disponível em: < http://revistacult.uol.com.br/home/2012/06/o-culto-as-marcas/>. Acesso em: 30 out. 2014.

A
oxímoro.
B
metáfora
C
antítese.
D
eufemismo.
E
paradoxo

Gabarito comentado

L
Larissa SantosMonitor do Qconcursos

Tema central: Figuras de linguagem — foco na metáfora. A questão avalia sua habilidade de identificar recursos expressivos usados para criar sentido figurado no texto, algo muito exigido nas provas de Vestibular e concursos.

Justificativa da alternativa correta (B – metáfora):

No trecho “Espantalhos de uma ordem que previu o assassinato do desejo, do pensamento e da liberdade”, a palavra “espantalhos” não é empregada em seu sentido literal (boneco colocado em plantações para assustar pássaros), mas sim para representar pessoas vazias, sem vida interior, submetidas ao sistema.
Esse uso caracteriza uma metáfora: transferência de sentido entre dois termos com base em uma relação de semelhança implícita, sem conectivo comparativo, conforme explica Bechara (Moderna Gramática Portuguesa): “A metáfora consiste em uma inclusão de um termo em outro por analogia, resultando em sentido novo.”

Análise das alternativas incorretas:

A) Oxímoro: O oxímoro consiste na justaposição de termos opostos em uma mesma estrutura, como “claro-escuro” ou “silêncio ensurdecedor”. No trecho, não há essa oposição interna.
C) Antítese: Antítese é a aproximação de ideias contrárias (“amor e ódio”, por exemplo). No enunciado, não se justapõem ideias opostas, mas se cria um sentido novo pelo uso figurado.
D) Eufemismo: Utiliza-se para suavizar uma ideia desagradável (“ele partiu” em vez de “ele morreu”), o que não ocorre na frase analisada.
E) Paradoxo: É a reunião de ideias aparentemente contraditórias (“estar só é estar acompanhado”). No caso, “espantalhos” apenas substitui as pessoas sem conflitos lógicos.

Dica de prova: Identifique metáforas ao perceber palavras usadas fora do sentido literal para reforçar imagens ou sensações novas. Fique atento: antítese e paradoxo envolvem oposição; metáfora, analogia.

Referência: Celso Cunha & Lindley Cintra reforçam: “A metáfora origina-se de uma comparação mental cujos termos não aparecem explicitados”.

Resumo: O termo central não é literal, mas analógico. Por isso, a alternativa correta é: B) metáfora.

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