Questão c7583fd2-de
Prova:UFAC 2009, UFAC 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

*Endogamia: os casamentos e relações se dão no mesmo grupo.


Observe o parágrafo abaixo:


“Mas que sensibilidade! Agora não apenas por causa do quadro de uvas e peras e peixe morto brilhando nas escamas. Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada. E se quisesse podia permitir-se o luxo de se tornar ainda mais sensível, ainda podia ir mais adiante: porque era protegida por uma situação, protegida como toda a gente que atingiu uma posição na vida. Como uma pessoa a quem lhe impedem de ter a sua desgraça. Ai que infeliz que sou, minha mãe. Se quisesse podia deitar ainda mais vinho no copo e, protegida pela posição que alcançara na vida, emborrachar-se ainda mais, contanto que não perdesse o brio. E assim, mais emborrachada ainda, percorria os olhos pelo restaurante, e que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, nenhum homem que fosse homem a valer, que fosse triste. Que desprezo pelas pessoas secas do restaurante, enquanto ela estava grossa e pesada, generosa a mais não poder. E tudo no restaurante tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si, e lá Deus por toda a gente.” (LISPECTOR, C. Devaneio e embriaguez de uma rapariga. Laços de família. Rio de Janeiro: Rocco, 1998. p. 14-5)


Clarice Lispector se caracterizou por uma escrita bastante sensível e precisa, em busca de uma revelação maior do sujeito, na sua inglória afirmação de ser. Sua capacidade de percepção do mínimo dava a ela uma condição bastante elegante na hora de tecer elementos capazes de propor uma leitura da condição humana em luta consigo mesma. No conto, Clarice se esmerou na capacidade de atingir o alvo com mais brevidade e ambição econômica de espaço. No parágrafo do conto acima, o personagem é descrito tentando juntar duas pontas, a dele e a dos outros à sua volta, no restaurante, mas, enquanto se embriaga, não deixa de cavar um imenso abismo entre ele e o próprio mundo. Isso significa que:

A
por trás de sua aparência não há mais nada que valha a pena. 
B
a embriaguez se torna, apenas, uma maneira de a moça exibir, sobretudo, a sua condição social privilegiada. 
C
a relação com o mundo depende somente de um pequeno acerto de contas consigo mesma, depois de passada a embriaguez. 
D
para a moça, no momento da embriaguez, a sua sensibilidade era uma aposta no impossível de uma compreensão total. 
E
o próprio mundo poderia se adequar ao seu desejo de compreensão, porque a embriaguez não tinha importância nenhuma na sua revelação. 

Gabarito comentado

G
Gustavo Mello Monitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo está na progressão do trecho: a personagem “ainda podia ir mais adiante”, “percorria os olhos pelo restaurante” e, ao final, o texto afirma que as pessoas estão “tão distante um do outro como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si”. Esse encadeamento sustenta a alternativa que lê a embriaguez como impulso de compreensão que esbarra na impossibilidade de comunhão.

Tema central: sensibilidade e incomunicabilidade
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa é eliminada por extrapolação sem apoio textual. O texto não autoriza dizer que, por trás da aparência da personagem, “não há mais nada que valha a pena”. Ao contrário, insiste em sua interioridade conflitiva e em sua sensibilidade exacerbada. A crítica presente no trecho não apaga a densidade subjetiva da personagem.
B
Errada
O erro está na redução de sentido, reforçada por “apenas”. Embora o texto mencione que ela é “protegida por uma situação” e por sua “posição na vida”, a embriaguez não serve só para exibir privilégio social. Ela também intensifica a sensibilidade e estrutura sua percepção dos outros, como mostra “mais emborrachada ainda, percorria os olhos pelo restaurante”.
C
Errada
A alternativa introduz uma solução que o texto não oferece. Não há base para afirmar que a relação com o mundo dependa somente de “um pequeno acerto de contas consigo mesma” depois da embriaguez. O fechamento “como se jamais um pudesse falar com o outro. Cada um por si” aponta para impasse profundo e incomunicabilidade, não para ajuste simples e posterior.
D
Certa
A alternativa D está correta porque condensa o movimento central do parágrafo: a personagem, embriagada, amplia sua sensibilidade, quer “ir mais adiante” e volta seu olhar para os outros no restaurante, tentando apreendê-los. No entanto, essa tentativa não produz encontro real; o fecho do trecho afirma a distância radical entre as pessoas. Assim, a sensibilidade, no momento da embriaguez, funciona como impulso para uma compreensão mais ampla do humano, mas o texto a apresenta como algo que esbarra no impossível da comunhão total.
E
Errada
A alternativa contradiz dois pontos centrais do trecho. Primeiro, o mundo não se adequa ao desejo da personagem; o texto conclui justamente pela distância entre as pessoas. Segundo, a embriaguez não é irrelevante: ela tem função decisiva na intensificação da sensibilidade e na forma como a personagem observa o restaurante e formula seu juízo sobre os outros.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: a leitura que transforma a “posição na vida” no tema central exclusivo do parágrafo e a dificuldade de aceitar uma alternativa inferencial. Em D, “compreensão total” não aparece literalmente, mas é sustentada pela progressão entre o desejo de ir “mais adiante” e o fecho de incomunicabilidade; já B parece plausível por causa da referência social, mas cai por causa da redução imposta por “apenas”.
Dica para questões semelhantes
  • Em interpretação inferencial, acompanhe a progressão do parágrafo: aqui, sensibilidade intensificada, observação do outro e conclusão de distância humana.
  • Desconfie de alternativas com termos restritivos como “apenas” quando o texto mostra mais de uma função para o mesmo elemento.
  • Quando a alternativa não repete o texto literalmente, verifique se ela traduz o movimento de sentido do trecho sem contrariar o fechamento.
  • Use o encerramento do parágrafo como teste final: aqui, “Cada um por si” elimina leituras conciliatórias ou de resolução fácil.

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