Questão c744351a-de
Prova:UFAC 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Observe o parágrafo abaixo:

“Começo arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” (ASSIS, J.M.M. Memórias póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro, Tecnoprint, s.d. p. 126)

Ao final do parágrafo, o narrador trabalha com elementos polares (pressa de envelhecer versus o livro que anda devagar; estilo regular versus estilo ébrio) e termina com uma gradação às avessas, pois o seu estilo e o livro “caem”, por fim. Essa qualidade crítica que ele dá à sua obra corresponde:

A
à implacável necessidade de se manter dentro dos códigos habituais da literatura do século 19.
B
à busca de um leitor idealizado que negue definitivamente a sua herança romântica.
C
à falta de novidades de um país, a se autocontemplar na sua esterilidade.
D
à necessidade de submissão aos padrões importados, sem nenhum compromisso estético maior.
E
à alta percepção da transição dos valores que a obra machadiana começava a desafiar.

Gabarito comentado

M
Mariana OliveiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a autocrítica metalinguística do narrador, que opõe explicitamente “narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente” ao fato de que “este livro e o meu estilo são como ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...”; essa oposição mostra a recusa do modelo narrativo regular esperado pelo leitor e, por consequência, sustenta a alternativa E, ligada à percepção de transição de valores literários.

Tema central: ruptura estética consciente
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não mostra permanência nos códigos habituais da literatura do século 19. O movimento é o contrário: o narrador nomeia o padrão convencional — “narração direta e nutrida”, “estilo regular e fluente” — para contrapô-lo ao seu livro, descrito como “ébrio”, irregular e descontínuo. A menção ao código tradicional serve para rejeitá-lo, não para obedecê-lo.
B
Errada
Está errada porque a interlocução com o leitor é crítica e irônica, não uma busca de “leitor idealizado”. O trecho “o maior defeito deste livro és tu, leitor” desloca a crítica para a expectativa do público acostumado à forma convencional. Além disso, o fragmento não autoriza afirmar “negue definitivamente a sua herança romântica”; essa formulação extrapola o que está no texto.
C
Errada
Está errada porque introduz um tema ausente no fragmento: “a falta de novidades de um país” e sua “esterilidade”. O excerto é metalinguístico e estético: trata do livro, do estilo e do leitor. Não há base textual para convertê-lo em diagnóstico sobre o país.
D
Errada
Está errada porque o trecho não indica submissão a padrões importados; indica recusa de um padrão de regularidade e fluência. Também erra ao dizer “sem nenhum compromisso estético maior”, pois a autodefinição do estilo revela justamente consciência formal: o narrador caracteriza deliberadamente sua escrita como digressiva, instável e provocativa.
E
Certa
A alternativa E está correta porque o trecho mostra que o narrador sabe que sua obra desafia expectativas tradicionais de leitura. Isso aparece na oposição entre o gosto do leitor por “narração direta e nutrida” e “estilo regular e fluente” e a definição do próprio livro como errático, oscilante e anti-regular. Essa autocrítica não é confissão de fracasso, mas formulação irônica de um projeto de escrita que se afasta de padrões anteriores; daí a ideia de percepção elevada de uma transição de valores que a obra passa a desafiar.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura literal da autocrítica: se o aluno toma a fala do narrador como confissão real de defeito, erra. No trecho, a autocrítica é irônica e metalinguística, usada para opor o estilo do livro ao modelo convencional valorizado pelo leitor.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o narrador comenta o próprio livro ou o próprio estilo, identifique primeiro a função metalinguística desse comentário.
  • Se o texto menciona um modelo tradicional e logo o contrasta com outro, verifique se há adesão ou recusa desse modelo; aqui há recusa explícita.
  • Elimine alternativas que introduzam país, escola literária ou contexto histórico sem apoio direto no fragmento.
  • Em autocrítica irônica, não leia “defeito” como rebaixamento literal antes de observar o efeito discursivo produzido no confronto com o leitor.

Estatísticas

Aulas sobre o assunto

Questões para exercitar

Artigos relacionados

Dicas de estudo