Questão c740f912-de
Prova:UFAC 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Observe o parágrafo abaixo:
“Começo arrepender-me deste livro. Não que ele me
canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir
alguns magros capítulos para esse mundo sempre é
tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o
livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo,
porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu
amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios,
guinam à direita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu,
escorregam e caem...” (ASSIS, J.M.M. Memórias
póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro,
Tecnoprint, s.d. p. 126)
Na passagem acima, o narrador de Machado de
Assis se apresenta, de maneira desiludida, quanto
aos caminhos da sua narração, e dá ao seu livro um
caráter demeritório e responsabiliza o leitor por isso.
Nesse caso, esta obra, que é um verdadeiro divisor
de águas na ficção brasileira, no século 19,
pretende-se por meio do domínio irônico:
Observe o parágrafo abaixo:
“Começo arrepender-me deste livro. Não que ele me
canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir
alguns magros capítulos para esse mundo sempre é
tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o
livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa
contração cadavérica; vício grave, e aliás íntimo,
porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu
tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu
amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como ébrios,
guinam à direita e à esquerda, andam e param,
resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu,
escorregam e caem...” (ASSIS, J.M.M. Memórias
póstumas de Brás Cubas. Rio de Janeiro,
Tecnoprint, s.d. p. 126)
Na passagem acima, o narrador de Machado de
Assis se apresenta, de maneira desiludida, quanto
aos caminhos da sua narração, e dá ao seu livro um
caráter demeritório e responsabiliza o leitor por isso.
Nesse caso, esta obra, que é um verdadeiro divisor
de águas na ficção brasileira, no século 19,
pretende-se por meio do domínio irônico:
A
um reforço dos estigmas que marcaram a relação
entre leitor e literatura em nosso país.
B
estabelecer novos códigos de percepção na relação leitor e ficção.
C
ser otimista em relação à herança romântica e ao leitor que advém daí.
D
confirmar as metas estabelecidas por uma literatura que não precisa mais de renovação.
E
desrespeitar qualquer outra intenção em relação à obra que não seja a do autor.
Gabarito comentado
M
Marina TeixeiraMonitor com apoio de IA
Gabarito: B
Fundamento decisivo: A resolução está na oposição textual entre “tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente” e “este livro e o meu estilo são como ébrios”, somada à interpelação “o maior defeito deste livro és tu, leitor”. Esses elementos, no comando do enunciado, indicam ironia metanarrativa e ruptura com o modelo narrativo esperado, o que sustenta a alternativa B.
Tema central: ironia metanarrativa
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o trecho não reforça uma relação já cristalizada entre leitor e literatura; ele a problematiza e a reconfigura. A acusação ao leitor e a recusa da “narração direta e nutrida” mostram ruptura com expectativas anteriores, não reforço de estigmas.
B
Certa
A alternativa B está correta porque o trecho não se limita a uma autodepreciação literal do livro: ele usa essa formulação para marcar, no próprio texto, a recusa da “narração direta e nutrida” e do “estilo regular e fluente” que o leitor espera. Ao contrastar essa expectativa com um estilo que “anda e para”, “guina” e “escorrega”, o narrador transforma a forma da narrativa em tema e reposiciona o leitor diante da ficção, instaurando outra relação de leitura.
C
Errada
Está errada porque o texto não manifesta otimismo nem adesão à herança romântica. Ao contrário, contrapõe o projeto do livro ao gosto do leitor por “o estilo regular e fluente”, sinalizando superação crítica desse padrão, e não valorização dele.
D
Errada
Está errada porque a passagem não confirma metas já estabelecidas por uma literatura estável. O próprio comando da questão apresenta a obra como “divisor de águas”, e o trecho reforça isso ao construir um estilo descontínuo, digressivo e anti-linear, isto é, renovador.
E
Errada
Está errada porque o texto não afirma exclusividade absoluta da intenção autoral nem elimina outras instâncias da obra. Pelo contrário, o leitor é diretamente interpelado e incorporado ao funcionamento do romance; a recepção passa a integrar o jogo de sentido.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura literal da autodepreciação do narrador e da crítica ao leitor. Se o candidato não percebe a ironia e o valor metanarrativo do trecho, tende a marcar alternativas de conservação de modelos ou de simples hostilidade ao leitor.
Dica para questões semelhantes
- Quando o narrador comenta o próprio livro ou o próprio estilo, examine o efeito metanarrativo antes de interpretar as afirmações literalmente.
- Se o texto opõe o que o leitor espera ao que a obra faz, o critério decisivo costuma ser ruptura de convenções, não confirmação delas.
- Expressões do comando como “domínio irônico” e “divisor de águas” funcionam como chave de leitura e afastam alternativas de continuidade ou adesão ao modelo anterior.






