Questão c739288f-de
Prova:UFAC 2009
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Observe o parágrafo abaixo:


“Em 2006, foi condenado pelo crime em júri popular. No mesmo ano, teve a sentença confirmada pelo Tribunal de Justiça (TJ) de São Paulo e, dois anos mais tarde, pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Como explicar o fato de que continua livre? A resposta está, sobretudo, numa mudança ideológica que começou a tomar corpo no Supremo Tribunal Federal (STF) no início dos anos 2000. Até a década de 90, o STF era composto de uma maioria de ministros ditos conservadores – termo que – em direito penal, indica aqueles que têm uma interpretação rigorosa da lei, em oposição, por exemplo, aos ‘garantistas’, mais preocupados em assegurar os direitos fundamentais do réu. Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. A partir de 2003, o colegiado de onze magistrados do STF sofreu sete substituições. O fato de quase todos os novos ministros serem liberais levou a que uma tese passasse a prevalecer nas decisões do tribunal: o princípio da presunção da inocência, segundo o qual ninguém será considerado culpado antes que todos os recursos da defesa sejam julgados. No tempo da supremacia conservadora no STF, entendia-se que uma condenação em segunda instância era suficiente para que o réu pudesse ser preso. Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década – como no caso de Pimenta Neves.” (DINIS, L. Quase uma década de impunidade. Veja, São Paulo, 23 set. 2009. Brasil, p. 74)


No trecho da reportagem acima, a jornalista procura mostrar os mecanismos de funcionamento da justiça brasileira, a partir de um crime bárbaro e que, quase uma década depois, continua impune. A maneira como ela desenvolve a sua argumentação leva em conta algumas minúcias, por meio de termos, que procuram driblar um pouco o peso da linguagem técnica para entender a nossa atual cultura jurídica da impunidade. Isso acontece porque:

A
diante do fato inaceitável de um assassino continuar livre, ficaria mais fácil para o leitor compreender fatos que, no fundo, só aumentam a nossa indignação, já que favorecem os criminosos endinheirados.
B
no entendimento da repórter, os criminosos, de alguma maneira, serão seriamente punidos.
C
o leitor presumível é ingênuo, a ponto de aceitar a impunidade como algo normal. investe-se, no final das contas, numa maneira de descrição inteiramente voltada para a própria supremacia da linguagem técnico-jurídica.
D
investe-se, no final das contas, numa maneira de descrição inteiramente voltada para a própria supremacia da linguagem técnico-jurídica.
E
indiferente ao que acontecer, as tendências conservadoras ou garantistas serão legitimadas, simplesmente, na total capacidade de auto-ajuste do nosso sistema jurídico.

Gabarito comentado

C
Carlos PereiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: O critério decisivo é reconhecer que o texto traduz o jargão jurídico em linguagem acessível para orientar a leitura para a crítica da impunidade: “Como explicar o fato de que continua livre? [...] Grossíssimo modo, conservadores seriam aqueles que mandam prender e garantistas, ou liberais, aqueles que mandam soltar. [...] Agora, com a hegemonia garantista, desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década”. Essa combinação de simplificação explicativa e viés avaliativo sustenta a alternativa A.

Tema central: crítica à impunidade
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque reproduz o movimento do texto: a repórter torna compreensível um tema jurídico complexo por meio de formulações acessíveis, como “mandam prender” e “mandam soltar”, e, ao mesmo tempo, direciona a explicação para uma avaliação crítica da situação, ao destacar que o condenado “continua livre” e que, “desde que ele tenha dinheiro para pagar bons advogados e entrar com sucessivos recursos na Justiça, poderá ficar solto”. Assim, a compreensão solicitada ao leitor vem acompanhada de indignação diante de um mecanismo que favorece réus com recursos financeiros.
B
Errada
Está errada porque afirma uma punição séria que o texto não sustenta. O trecho enfatiza o contrário: mesmo após condenação e confirmação da sentença, o réu “continua livre” e “poderá ficar solto até a palavra final do STF, ainda que isso leve quase uma década”. A presença de condenação formal não é apresentada como punição efetiva.
C
Errada
Está errada porque atribui ao leitor presumível ingenuidade e aceitação normalizada da impunidade, algo que o texto não sustenta. A estratégia da reportagem é explicativa e crítica: ela simplifica o debate jurídico para um leitor leigo, não para um leitor ingênuo ou conformado. Conforme o alerta da base, a alternativa aparece truncada no enunciado reproduzido, mas, pelo conteúdo legível, permanece incompatível com o texto-base.
D
Errada
Está errada por contradição direta com o comando e com o próprio trecho. A questão afirma que a jornalista usa termos que procuram “driblar um pouco o peso da linguagem técnica”, e o texto confirma isso ao reformular posições jurídicas complexas em expressões correntes como “mandam prender” e “mandam soltar”. Portanto, não há supremacia da linguagem técnico-jurídica; há tradução didática desse jargão.
E
Errada
Está errada porque projeta uma legitimação indistinta das correntes conservadora e garantista e uma confiança no autoajuste do sistema que o texto não autoriza. A reportagem não conclui pela harmonia do sistema; ao contrário, destaca criticamente o efeito prático da “hegemonia garantista” no caso citado: o réu pode permanecer solto por muitos anos se tiver dinheiro para recorrer.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre explicar um tema técnico em linguagem acessível e defender ou legitimar a técnica jurídica. No texto, a simplificação não serve para exaltar o sistema, mas para tornar visível e criticável a impunidade.
Dica para questões semelhantes
  • Verifique se a explicação de um conteúdo técnico vem acompanhada de marcas avaliativas; se vier, a resposta não pode tratar o texto como neutro.
  • Não confunda condenação formal com punição efetiva quando o próprio texto destaca permanência em liberdade, demora e sucessivos recursos.
  • Quando o comando menciona simplificação da linguagem, procure no trecho reformulações acessíveis do jargão; elas indicam a função discursiva central.
  • Elimine alternativas que acrescentem aceitação da impunidade, autoajuste do sistema ou ingenuidade do leitor sem apoio textual expresso.

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