Questão c63dcebc-96
Prova:CEDERJ 2014
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Tipologia Textual, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

A ideia central do texto está resumida no seguinte fragmento:

Texto 1

                  As gravatas de Mário Quintana (não basta saber uma língua para entendê-la)

      Como é que uma pessoa se comunica com a outra? Como fazemos para transmitir ideias?

      A resposta parece bastante óbvia: transmitimos ideias usando a língua. Assim, se vou passando na rua e vejo um avestruz (digamos que seja uma rua muito peculiar, onde o tráfego de avestruzes é intenso), digo ao meu amigo: Olha, lá vai um avestruz. Com isso, transmito determinada informação ao meu amigo; em outras palavras, passo para a mente de outra pessoa uma ideia que estava originalmente em minha mente.

      Para isso, evidentemente, é preciso que as duas pessoas em questão conheçam a mesma língua, que ambas chamem aquele animal desajeitado de avestruz; que ambas saibam utilizar os verbos olhar e ir, e assim por diante. Uma vez isso arranjado, as duas pessoas se entenderão. Para que as pessoas se entendam, é necessário – e suficiente – que falem a mesma língua.

      É isso mesmo? Veremos que não. Na verdade, para que se dê a compreensão, mesmo em nível bastante elementar, é necessário que as pessoas tenham muito mais em comum que simplesmente uma língua. Precisam ter em comum um grande número de informações, precisam pertencer a meios culturais semelhantes, precisam mesmo ter, até certo ponto, crenças comuns. Sem isso, a língua simplesmente deixa de funcionar enquanto instrumento de comunicação. Na verdade, a comunicação linguística é um processo bastante precário; depende de tantos fatores que falham com muita frequência, para desânimo de muitos que ficam gemendo Por que é que ele não me entendeu?

      O problema é que o que a língua exprime é apenas uma parte do que se quer transmitir. Geralmente, se pensa no processo de comunicação como uma rua de mão única: a informação passa do falante para o ouvinte (ou do autor para o leitor). Se fosse assim, a estrutura linguística teria de ser suficiente para veicular a mensagem, porque, afinal de contas, a única coisa que o emissor realmente produz é um conjunto de sons (ou de riscos no papel), organizados de acordo com as regras da língua. Mesmo isso, como vimos, depende de alguma coisa por parte do receptor, a saber, o conhecimento das palavras e das regras da língua; mas poderia ser só isso, e as coisas seriam muito mais simples – e, também, talvez os seres humanos se entendessem melhor. (...)

     O significado de uma frase não é simples função de seus elementos constitutivos, mas depende ainda da informação extralinguística. Ou ainda (e aqui me oponho às crenças de boa parte de meus colegas linguistas), uma frase fora de contexto não tem, a rigor, significado.

     Vamos ver o exemplo: seja o sintagma as gravatas de Mário Quintana. Que significa isso? E, em especial, que tipo de relação exprime a preposição de? Evidentemente, de exprime “posse", e o sintagma equivale a as gravatas pertencem a Mário Quintana. Pode parecer, então, que computamos o significado do sintagma simplesmente juntando o significado das palavras: as gravatas + de + Mário Quintana.

      Mas ainda aqui isso é só a primeira impressão. Digamos que o sintagma fosse as gravatas de Pierre Cardin; agora, para alguém que sabe quem é Pierre Cardin, a relação expressa pela preposição de já não precisa ser de posse. Na verdade, é mais provável que se entenda como “autoria", isto é, as gravatas criadas por Pierre Cardin.

      Ora, a preposição é a mesma nos dois casos. De onde vem essa diferença de significado? Simplesmente do que sabemos sobre Mário Quintana (um poeta) e sobre Pierre Cardin (um estilista de moda). Se dissermos os poemas de Mário Quintana, a preposição já não exprimirá posse, mas autoria – porque, já que Mário Quintana é um poeta, é plausível que se fale dos poemas de sua autoria; além do mais, em geral, não se pensa em poemas como tendo possuidor.

      Se a situação é essa, não faz sentido perguntar se o significado da preposição de é de posse ou autoria. Será posse ou autoria segundo o que soubermos dos diversos objetos ou pessoas mencionadas: se se trata de um objeto possuível, como uma gravata, ou não possuível, como um poema; e se se trata de um poeta ou de um costureiro.

                             (PERINI, Mário A. Sofrendo a gramática. São Paulo: Ática, 2000, páginas 57-60.)

A
“...é preciso que as duas pessoas em questão conheçam a mesma língua."
B
“...uma frase fora de contexto não tem, a rigor, significado."
C
“...a informação passa do falante para o ouvinte (ou do autor para o leitor)."
D
“...a preposição é a mesma nos dois casos."

Gabarito comentado

R
Rebeca LealMonitor do Qconcursos

Comentário da Questão – Interpretação de Texto (Semântica e Pragmática)

Tema central: A questão aborda interpretação de texto, tendo como foco principal a relação entre significado linguístico e a necessidade do contexto para a compreensão correta de frases e expressões. Entram aqui conceitos de semântica (significado das palavras/frases) e pragmática (como o contexto altera o sentido do que é dito).

Justificativa da Alternativa Correta (B):

A alternativa B) “...uma frase fora de contexto não tem, a rigor, significado.” resume precisamente a ideia central defendida no texto de Mário Perini. Durante todo o texto, o autor mostra que conhecer apenas os elementos linguísticos (palavras, regras) não garante o entendimento pleno, pois o verdadeiro sentido depende do contexto e do conhecimento compartilhado.

Segundo Evanildo Bechara (Modernas Gramáticas Portuguesa), “o contexto é fundamental para a interpretação semântica”; a frase só ganha sentido com base nos referentes extralinguísticos (quem são os falantes, qual é a situação, quais conhecimentos têm em comum etc.). Isso é explicitado quando Perini afirma que não faz sentido perguntar se 'de' é posse ou autoria sem considerar o contexto.

Análise das Alternativas Incorretas:

A) “...é preciso que as duas pessoas em questão conheçam a mesma língua.”
Erro: O texto mostra que isso é necessário, mas não suficiente; apenas conhecer a língua não resolve os problemas de compreensão, pois o contexto cultural e extralinguístico é fundamental.

C) “...a informação passa do falante para o ouvinte (ou do autor para o leitor).”
Erro: O próprio texto problematiza essa visão simplista: a comunicação não é linear nem automática; depende do contexto e de múltiplos fatores além da simples codificação da mensagem.

D) “...a preposição é a mesma nos dois casos.”
Erro: Não representa a ideia principal, mas serve de exemplo para reforçar o argumento sobre a interferência do contexto no sentido da linguagem.

Dicas de Interpretação:
Fique atento a frases que sintetizam argumentos ou trazem conclusões do autor. Muitos textos apresentam exemplos e ilustrações, mas a tese principal está nas generalizações, geralmente destacadas por expressões como “na verdade”, “é preciso notar”, “veremos que não” etc. Sempre relacione os exemplos à ideia defendida, evitando confundir ilustrações com a tese.

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