Questão c3ff034b-b5
Prova:UESPI 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

No Texto 2, o fragmento: “Quando nos chega por um ouvido, a palavra costuma sair por outro. Vazando-nos pelos olhos, o texto inunda de imagens a alma.”, o autor, implicitamente:

1) atribui uma função menos efêmera à atividade da escrita.
2) declara sua inteira preferência pelo uso da língua falada.
3) crê que a escrita pode ser mais favorável à produção da literatura.
4) reitera o saber popular, que diz: a palavra voa, a escrita permanece.

Estão corretas

TEXTO 2 

A revolução digital

Texto e papel. Parceiros de uma história de êxitos. Pareciam feitos um para o outro.

Disse “pareciam”, assim, com o verbo no passado, e já me explico: estão em processo de separação.

Secular, a união não ruirá do dia para a noite. Mas o divórcio virá, certo como o pôr-do-sol a cada fim de tarde.

O texto mantinha com o papel uma relação de dependência. A perpetuação da escrita parecia condicionada à produção de celulose.

Súbito, a palavra descobriu um novo meio de propagação: o cristal líquido. Saem as árvores. Entram as nuvens de elétrons.

A mudança conduz a veredas ainda não exploradas. De concreto há apenas a impressão de que, longe de enfraquecer, a ebulição digital tonifica a escrita.

Isso é bom. Quando nos chega por um ouvido, a palavra costuma sair por outro. Vazando-nos pelos olhos, o texto inunda de imagens a alma.

Em outras palavras: falada, a palavra perde-se nos desvãos da memória; impressa, desperta o cérebro, produzindo uma circulação de ideias que gera novos textos. A Internet é, por assim dizer, um livro interativo. Plugados à rede, somos, autores e leitores. Podemos visitar as páginas de um clássico da literatura. Ou simplesmente, arriscar textos próprios.

Otto Lara Resende costumava dizer que as pessoas haviam perdido o gosto pela troca de correspondências. Antes de morrer, brindou-me com dois telefonemas. Em um deles prometeu: “Mando-te uma carta qualquer dia destes”.

Não sei se teve tempo de render-se ao computador. Creio que não. Mas, vivo, Otto estaria surpreso com a popularização crescente do correio eletrônico.

O papel começa a experimentar o mesmo martírio imposto à pedra quando da descoberta do papiro. A era digital está revolucionando o uso do texto. Estamos virando uma página. Ou, por outra, estamos pressionando a tecla “enter”.

Josias de Souza. A revolução digital. Folha de São Paulo. 6/05/96.

Caderno Brasil, p. 2). 

A
1, 2 e 3 apenas
B
1, 2, 3 e 4
C
1, 3 e 4 apenas
D
1 e 2 apenas
E
2 e 3 apenas

Gabarito comentado

G
Gustavo Teles Monitor com apoio de IA

Gabarito: C

Fundamento decisivo: A resolução depende da inferência textual autorizada pela reformulação do próprio autor: “Quando nos chega por um ouvido, a palavra costuma sair por outro. Vazando-nos pelos olhos, o texto inunda de imagens a alma.” / “Em outras palavras: falada, a palavra perde-se nos desvãos da memória; impressa, desperta o cérebro, produzindo uma circulação de ideias que gera novos textos.” Esse contraste fixa a oposição entre a fugacidade da fala e a permanência/produtividade da escrita, o que sustenta 1, 3 e 4 e exclui 2.

Tema central: fala e escrita
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inclui a afirmativa 2. O texto não declara “inteira preferência pelo uso da língua falada”; ao contrário, o fragmento e a paráfrase com “Em outras palavras” valorizam a escrita como mais duradoura e cognitivamente fecunda.
B
Errada
Está errada porque aceita as quatro afirmativas, inclusive a 2, que contraria o eixo valorativo do texto. A oposição construída é entre fala mais passageira e escrita mais produtiva, não entre escrita inferior e fala preferida.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reúne exatamente as afirmações compatíveis com o fragmento e com sua explicitação imediata. A afirmativa 1 se sustenta porque a fala é apresentada como algo que “perde-se nos desvãos da memória”, enquanto a escrita ativa retenção e circulação de ideias, recebendo, portanto, função menos efêmera. A afirmativa 3 se sustenta porque o texto atribui à escrita a capacidade de “produzir uma circulação de ideias que gera novos textos”, o que autoriza inferir maior favorecimento à produção escrita, inclusive literária. A afirmativa 4 também se sustenta, pois o contraste entre palavra falada que se perde e escrita que permanece reitera implicitamente o sentido do saber popular citado. A 2 fica de fora porque o autor não prefere a língua falada; ele valoriza a escrita no contexto apresentado.
D
Errada
Está errada por dois motivos específicos: inclui a afirmativa 2, incompatível com o texto, e exclui as afirmativas 3 e 4, que decorrem da formulação “impressa, desperta o cérebro, produzindo uma circulação de ideias que gera novos textos” e da reiteração implícita da ideia de permanência da escrita.
E
Errada
Está errada porque também inclui a afirmativa 2, que não encontra apoio no fragmento. Além disso, omite 1 e 4, embora o texto mostre claramente a menor efemeridade da escrita e retome implicitamente a noção de que a fala passa e a escrita permanece.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: tomar a palavra “palavra” como elogio da oralidade e ignorar que “Em outras palavras” explica o trecho metafórico anterior; essa reformulação elimina a afirmativa 2 e confirma 1, 3 e 4.
Dica para questões semelhantes
  • Quando houver trecho metafórico, procure a frase em que o próprio autor o reformula; aqui, “Em outras palavras” entrega o sentido decisivo.
  • Em itens de inferência, valide cada afirmação pelo contraste de sentido construído no texto, não por impressão geral.
  • Se uma alternativa inverte a valoração do fragmento, confronte-a com os verbos e efeitos semânticos centrais, como “perde-se” versus “desperta” e “gera novos textos”.

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