Questão c3db57af-b5
Prova:UESPI 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

No texto está dito que: “hoje a escrita não é mais domínio exclusivo dos escrivães e dos eruditos”. Essa afirmação traz implícita uma outra; a de que:

TEXTO 1 

O que é escrita?

Se houve um tempo em que era comum a existência de comunidades ágrafas, se houve um tempo em que a escrita era de difícil acesso ou uma atividade destinada a poucos privilegiados, na atualidade, a escrita faz parte da nossa vida cotidiana, seja porque somos constantemente solicitados a produzir textos escritos (bilhete, e-mail, listas de compras etc.), seja porque somos solicitados a ler textos escritos em diversas situações do dia a dia (placas, letreiros, anúncios, embalagens, e-mail, etc., etc.).


Alguém afirmou que “hoje a escrita não é mais domínio exclusivo dos escrivães e dos eruditos. [...] A prática da escrita, de fato, se generalizou: além dos trabalhos escolares ou eruditos, é utilizada para o trabalho, a comunicação, a gestão da vida pessoal e doméstica”.


Que a escrita é onipresente em nossa vida já o sabemos. Mas, afinal, “o que é escrita?” Responder a essa questão é uma tarefa difícil porque a atividade de escrita envolve aspectos de natureza variada (linguística, cognitiva, pragmática, sócio-histórica e cultural).


Como é de nosso conhecimento, há muitos estudos sobre a escrita, sob diversas perspectivas, que nos propiciam diferentes modos de responder a questão em foco. Basta pensarmos, por exemplo, nas investigações existentes, segundo as quais a escrita ao longo do tempo foi e vem-se constituindo como um produto sócio-histórico-cultural, em diferentes suportes (livros, jornais, revistas) e demandando diferentes modos de leitura. Basta pensarmos no modo pelo qual ocorre o processo de aquisição da escrita. Basta pensarmos no modo pelo qual a escrita é concebida como uma atividade cuja realização demanda a ativação de conhecimento e o uso de várias estratégias no curso mesmo da produção do texto.


Apesar da complexidade que envolve a questão não é raro, quer em sala de aula, quer em outras situações do dia a dia, nos depararmos com definições de escrita, tais como: “escrita é inspiração”; “escrita é uma atividade para alguns poucos privilegiados (aqueles que nascem com esse dom e se transformam em escritores renomados)”; “escrita é expressão do pensamento” no papel ou em outro suporte; “escrita é domínio de regras da língua”; “escrita é trabalho” que requer a utilização de diversas estratégias da parte do produtor.


Essa pluralidade de resposta nos faz pensar que o modo pelo qual concebemos a escrita não se encontra dissociado do modo pelo qual entendemos a linguagem, o texto e o sujeito que escreve. Em outras palavras, subjaz uma concepção de linguagem, de texto e de sujeito escritor ao modo pelo qual entendemos, praticamos e ensinamos a escrita, ainda que não tenhamos consciência disso.


(Ingedore Villaça Koch. Vanda Maria Elias. Ler e escrever:estratégias de produção textual. São Paulo: Editora Contexto,2009. p. 31-32. Adaptado.)

A
eruditos e escrivães não conheciam suficientemente a escrita.
B
hoje, só escrivães e eruditos usam com sucesso a escrita.
C
escrivães e eruditos não dominavam exclusivamente a escrita.
D
a escrita já se restringiu ao uso de escrivães e eruditos.
E
atualmente, os escrivães são pessoas muito eruditas.

Gabarito comentado

U
Ursula Freitas Monitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: No trecho “hoje a escrita não é mais domínio exclusivo dos escrivães e dos eruditos”, a construção “não ... mais” indica cessação de um estado anterior e pressupõe que, antes, a escrita foi exclusiva desses grupos; por isso, a alternativa D recupera exatamente esse conteúdo pressuposto.

Tema central: pressuposição semântica
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque troca a ideia de exclusividade pela de conhecimento insuficiente. O trecho fala em “domínio exclusivo”, isto é, restrição a certos grupos, e não em desconhecimento ou domínio precário da escrita por parte deles.
B
Errada
Está errada porque contradiz diretamente o enunciado. O texto diz: “hoje a escrita não é mais domínio exclusivo dos escrivães e dos eruditos”; a alternativa afirma justamente o contrário ao restringir o uso bem-sucedido da escrita, no presente, apenas a esses grupos.
C
Errada
Está errada porque inverte o pressuposto acionado por “não é mais”. Se hoje deixou de ser exclusiva, a inferência correta é que antes era exclusiva. A alternativa nega essa exclusividade anterior, o que contraria o valor semântico da expressão.
D
Certa
A alternativa D recupera com fidelidade o conteúdo implícito do enunciado. O ponto decisivo está em “não é mais”, que não apenas nega o presente, mas indica mudança de estado entre passado e presente. Somado a “domínio exclusivo”, o trecho pressupõe uma fase anterior em que a escrita era restrita a escrivães e eruditos. A formulação de D traduz esse pressuposto sem acrescentar informação estranha ao texto.
E
Errada
Está errada porque cria uma relação entre “escrivães” e “eruditos” que o texto não estabelece. O enunciado apenas menciona dois grupos aos quais a escrita já esteve restrita; não afirma que os escrivães sejam atualmente pessoas muito eruditas.
Pegadinha da questão
A banca explora a leitura superficial de “não é mais” como simples negação do presente. O acerto depende de perceber que essa expressão também pressupõe uma situação anterior oposta: a exclusividade já existiu.
Dica para questões semelhantes
  • Em questões de implícito, observe expressões como “não ... mais”, porque elas costumam indicar mudança de estado e pressupor uma situação anterior.
  • Separe o que o texto afirma do que ele pressupõe: aqui, o presente é explícito, mas o passado é recuperado semanticamente.
  • Dê peso ao núcleo de sentido da frase; neste caso, “exclusivo” é decisivo, porque indica restrição a um grupo específico.

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