Questão c3bf1f96-b5
Prova:UESPI 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

No início do texto, e para situar a questão da escrita, as autoras começam por:

TEXTO 1 

O que é escrita?

Se houve um tempo em que era comum a existência de comunidades ágrafas, se houve um tempo em que a escrita era de difícil acesso ou uma atividade destinada a poucos privilegiados, na atualidade, a escrita faz parte da nossa vida cotidiana, seja porque somos constantemente solicitados a produzir textos escritos (bilhete, e-mail, listas de compras etc.), seja porque somos solicitados a ler textos escritos em diversas situações do dia a dia (placas, letreiros, anúncios, embalagens, e-mail, etc., etc.).


Alguém afirmou que “hoje a escrita não é mais domínio exclusivo dos escrivães e dos eruditos. [...] A prática da escrita, de fato, se generalizou: além dos trabalhos escolares ou eruditos, é utilizada para o trabalho, a comunicação, a gestão da vida pessoal e doméstica”.


Que a escrita é onipresente em nossa vida já o sabemos. Mas, afinal, “o que é escrita?” Responder a essa questão é uma tarefa difícil porque a atividade de escrita envolve aspectos de natureza variada (linguística, cognitiva, pragmática, sócio-histórica e cultural).


Como é de nosso conhecimento, há muitos estudos sobre a escrita, sob diversas perspectivas, que nos propiciam diferentes modos de responder a questão em foco. Basta pensarmos, por exemplo, nas investigações existentes, segundo as quais a escrita ao longo do tempo foi e vem-se constituindo como um produto sócio-histórico-cultural, em diferentes suportes (livros, jornais, revistas) e demandando diferentes modos de leitura. Basta pensarmos no modo pelo qual ocorre o processo de aquisição da escrita. Basta pensarmos no modo pelo qual a escrita é concebida como uma atividade cuja realização demanda a ativação de conhecimento e o uso de várias estratégias no curso mesmo da produção do texto.


Apesar da complexidade que envolve a questão não é raro, quer em sala de aula, quer em outras situações do dia a dia, nos depararmos com definições de escrita, tais como: “escrita é inspiração”; “escrita é uma atividade para alguns poucos privilegiados (aqueles que nascem com esse dom e se transformam em escritores renomados)”; “escrita é expressão do pensamento” no papel ou em outro suporte; “escrita é domínio de regras da língua”; “escrita é trabalho” que requer a utilização de diversas estratégias da parte do produtor.


Essa pluralidade de resposta nos faz pensar que o modo pelo qual concebemos a escrita não se encontra dissociado do modo pelo qual entendemos a linguagem, o texto e o sujeito que escreve. Em outras palavras, subjaz uma concepção de linguagem, de texto e de sujeito escritor ao modo pelo qual entendemos, praticamos e ensinamos a escrita, ainda que não tenhamos consciência disso.


(Ingedore Villaça Koch. Vanda Maria Elias. Ler e escrever:estratégias de produção textual. São Paulo: Editora Contexto,2009. p. 31-32. Adaptado.)

A
refutar a concepção de escrita que tinham as comunidades ágrafas.
B
estabelecer um paralelo entre épocas passadas e os tempos atuais.
C
tomar partido contra o fato de a escrita estar destinada a uns poucos privilegiados.
D
questionar o uso de textos escritos em diversas situações do dia a dia.
E
admitir que são muitas as solicitações para que interpretemos textos escritos.

Gabarito comentado

R
Rebeca LealMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a abertura por contraste temporal no primeiro parágrafo: “Se houve um tempo em que era comum a existência de comunidades ágrafas, se houve um tempo em que a escrita era de difícil acesso ou uma atividade destinada a poucos privilegiados, na atualidade, a escrita faz parte da nossa vida cotidiana”. O trecho opõe passado e presente para situar a escrita, o que conduz ao gabarito B.

Tema central: contraste temporal inicial
Análise das alternativas
A
Errada
Incorreta porque o texto não refuta nenhuma concepção de escrita atribuída às comunidades ágrafas. A menção a “comunidades ágrafas” serve apenas para evocar um momento passado em que a escrita não estava presente em certas comunidades. Há contextualização histórica, não refutação argumentativa.
B
Certa
A alternativa B está correta porque descreve exatamente o procedimento usado no primeiro parágrafo: as autoras contextualizam a discussão comparando épocas distintas. Primeiro, apresentam um passado em que a escrita era ausente em certas comunidades ou restrita a poucos; depois, marcam o presente com “na atualidade”, afirmando que a escrita integra a vida cotidiana. Essa organização temporal-contrastiva é a forma pela qual o texto começa a situar a questão.
C
Errada
Incorreta porque o primeiro parágrafo não traz tomada de posição explícita contra o fato de a escrita ter sido “destinada a poucos privilegiados”. Esse dado aparece como caracterização de um tempo passado. Faltam marcas de reprovação ou de argumentação avaliativa nesse trecho inicial.
D
Errada
Incorreta porque o texto não questiona o uso de textos escritos no cotidiano; ao contrário, afirma esse uso como traço da atualidade e o exemplifica com “placas, letreiros, anúncios, embalagens, e-mail”. Trata-se de constatação expositiva, não de questionamento.
E
Errada
Incorreta porque o trecho fala em “ler textos escritos” e em “produzir textos escritos”, não em “interpretá-los”. Além disso, essa informação é apenas exemplificativa da presença cotidiana da escrita e não traduz a estratégia global de abertura do texto, que é o contraste entre passado e presente.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o conteúdo citado no início e a função desse início no texto: o primeiro parágrafo não critica, não questiona e não toma partido; ele organiza a discussão por contraste entre um passado de ausência/restrição da escrita e um presente de ampla presença social.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando perguntar como o texto começa, identifique a estratégia introdutória global, não um detalhe secundário do parágrafo.
  • Observe marcadores temporais e contrastivos como “Se houve um tempo” e “na atualidade”; eles costumam indicar o eixo decisivo da interpretação.
  • Diferencie menção de fato histórico de refutação, crítica ou tomada de partido: sem marcas avaliativas, não se pode atribuir reprovação ao autor.

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