Questão c260f59a-6e
Prova:UEPB 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

m “Os olhos da mulher, súplica e esperança, o meio sorriso, ferida aberta no meio da cara [...] Mas ela nada diz de sua boca, impõe com as mãos febris, com as pernas magras, com o corpo esquálido de bicho fêmea que ele lhe entregue seu corpo duro de bicho macho [...] Ela vê volume nos bolsos dele, mete as mãos e as traz cheias de brita que atira pela janela, o dinheiro, cadê o dinheiro?” (p.16-17) e em “Irene [...] provado devagarinho, por primeira vez, quem sabe?, o sabor que pode ter tocar-se o corpo de um homem por nada, só por carinho” (p. 57), é possível afirmar

I - que o fio de esperança por dias melhores, alimentado por Irene, depois de conhecer Rosálio, opera uma mudança na sua forma de ver e de sentir o outro.

II - que, embora lutando por sobreviver e alimentar um “guri e uma velha”, Irene encontra momentos para pensar em si, cuidar de si, ao mesmo tempo em que cuida do outro (Rosálio);

III - que não há alusão a uma possível mudança na forma de Irene sentir a si e ao outro: ela apenas quis agradá-lo (como mostra o fragmento), depois retoma a dura vida de prostituta, uma vez que a sobrevivência é um imperativo maior que “o prazer de ler”;

Está(ão) correta(s) apenas a(s) proposição(ões)

A
II
B
I e III
C
I
D
I e II
E
III

Gabarito comentado

M
Michele GomesMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o contraste semântico-discursivo entre os dois excertos: "o dinheiro, cadê o dinheiro?" / "provado devagarinho, por primeira vez, quem sabe?, o sabor que pode ter tocar-se o corpo de um homem por nada, só por carinho". O primeiro marca a centralidade da sobrevivência material; o segundo explicita uma experiência nova, não mercantilizada, fundada em afeto. Esse confronto autoriza validar I e II e exclui III.

Tema central: mudança afetiva de Irene
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque considera apenas II, mas I também é autorizada pelo texto. As expressões "por primeira vez" e "só por carinho" não apenas mostram um gesto afetivo; elas indicam mudança na forma de Irene ver e sentir o outro.
B
Errada
Está errada porque combina uma proposição correta com outra textual e semanticamente incompatível com o segundo fragmento. III nega a mudança afetiva, mas o trecho "por primeira vez" e "só por carinho" explicita justamente essa novidade subjetiva e afasta a redução da cena a mero agrado utilitário.
C
Errada
Está errada porque restringe indevidamente a leitura à proposição I. Embora II seja menos literal, ela decorre do segundo excerto: o contato "por nada, só por carinho" sustenta a inferência de um momento em que Irene pensa em si e age também em chave de cuidado do outro.
D
Certa
A alternativa D está correta porque reúne exatamente as duas proposições sustentadas pela comparação dos fragmentos. A proposição I se apoia em "por primeira vez", que sinaliza transformação na forma de Irene sentir o outro. A proposição II se sustenta no valor semântico de "só por carinho", pois o trecho mostra, mesmo em contexto de sobrevivência, um gesto que não se reduz à necessidade econômica e abre espaço para cuidado de si e do outro. Já III é incompatível com esse segundo excerto.
E
Errada
Está errada porque III contraria diretamente o material citado. A afirmação de que não há mudança na forma de Irene sentir a si e ao outro é incompatível com "por primeira vez"; e a redução do gesto a simples agrado é desmentida por "só por carinho", que exclui, no contexto, a motivação econômica.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de projetar a condição social de Irene sobre toda a leitura e, com isso, ignorar que o segundo fragmento marca uma ruptura afetiva real. O erro é ler "só por carinho" como estratégia para agradar, quando o texto o apresenta como descoberta subjetiva.
Dica para questões semelhantes
  • Compare os fragmentos pelo valor de sentido dominante em cada um antes de julgar as proposições.
  • Trate marcadores como "por primeira vez" como sinais objetivos de mudança de estado ou percepção.
  • Quando a questão cobrar inferência, não exija que a proposição repita literalmente o texto; verifique se ela decorre dele.
  • Não anule o sentido específico do excerto por informações gerais sobre a condição da personagem.

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