Questão c0e696e9-6e
Prova:UEPB 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

O vôo da guará vermelha traz à tona momentos em que a sinestesia e recursos gráficos e fônicos, mais recorrentes na poesia, têm liberdade de se fazerem presentes na narrativa. Pode-se dizer que,

I - em “cores desmaiadas, manchadas, nas cores, todas as cores, em trapos de vestir, em colchas e cortinas, almofadas desbotadas e bonecas estropiadas,nos restos de tintas e papéis nas paredes [...] cores de vida, fanada mas vida, ainda pulsante, cores redobradas” (p. 15), é possível entender o chamar a atenção para o vermelho que é presente em toda a obra, seja com o significado de vida (paixão, desejo de viver), seja com o significado de morte (ave/mulher ferida, condenada = guará (vermelha), mulher (de vestido vermelho = prostituta).

II - em “Esta mulher saber ler!, leia mais, lia tudinho, me diga onde está ‘guará’ e onde está ‘vermelha’ e ‘sangue’ e ‘espinhos’ e ‘penas’. Aqui, ali, acolá, Rosálio corre as linhas buscando a guará vermelha nos espinheiros das letras até vê-la com clareza distinguir luminosos, espinhos, penas e sangue” (p. 24), os termos em destaque (guará, vermelho,sangue, espinhos, pena) compõem um conciso inventário terminológico que induz o leitor a entender que, articulados como se encontram, aludem à vida, paixão e morte de Irene.

III - em “Rosálio olha intrigado tentando compreender que, quando lê ‘avó’, por quê, quando lê ‘avô’, parece que alguma coisa lembra-lhe a ave guará? A mulher ri da pergunta e lhe explica o ‘a’, o ‘v’, o ‘ó’, o ‘ô’, e o ‘e’ e ele fica deslumbrado com as letras do abc” (p. 42), constrói-se uma harmonia fônica em que os grafemas e os sons de ‘ave’, ‘avó’ e ‘avô’ são, poeticamente, imaginados na seqüência “ave, avó, avô, guará”, jogo lingüístico-poético que atualiza, na história contada, o título da obra, disseminado ao longo da narrativa (ave – guará; avó/avô – vôo, guará – ave de coloração vermelha);

Está(ão) correta(s) a(s) proposição(ões)

A
II, apenas
B
I e III, apenas
C
I, apenas
D
I, II e III
E
III, apenas

Gabarito comentado

S
Samanta de AbreuTime de mentores Qconcursos

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O comando já orienta a leitura ao afirmar que a obra traz à narrativa “a sinestesia e recursos gráficos e fônicos, mais recorrentes na poesia”; assim, o critério decisivo é verificar se I, II e III reproduzem efeitos de sentido autorizados pelos trechos citados. Como as três proposições se ajustam aos campos cromático, lexical e fônico-grafêmico presentes no texto, o gabarito é D.

Tema central: efeitos poéticos na narrativa
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque restringe a correção a II e exclui I e III sem base textual. I se sustenta pelo campo cromático do excerto e pela expressão “cores de vida, fanada mas vida, ainda pulsante”, que autoriza a leitura simbólica de vida e degradação. III também se sustenta porque o próprio trecho explora letras e sons em “avó”, “avô” e “ave”, exatamente no sentido de recurso gráfico e fônico indicado no enunciado.
B
Errada
Está errada porque exclui II, embora o excerto reúna deliberadamente os termos “guará”, “vermelha”, “sangue”, “espinhos” e “penas” em uma cadeia imagética. O erro é tratar essa sequência como mera enumeração vocabular, quando a base afirma que ela forma um campo lexical articulado que remete simbolicamente à trajetória de Irene.
C
Errada
Está errada porque considera correta apenas I e desconsidera marcas textuais claras de II e III. Em II, há uma rede lexical condensada com valor simbólico; em III, há exploração expressa de semelhanças gráficas e fônicas entre vocábulos. O enunciado não pede só simbolismo cromático, mas também recursos gráficos e fônicos, o que impede a exclusão de II e III.
D
Certa
A alternativa D está correta porque é a única que aceita conjuntamente as três proposições, e essa aceitação é sustentada pelo próprio eixo interpretativo dado no comando. Em I, o trecho “cores de vida, fanada mas vida, ainda pulsante, cores redobradas” autoriza a leitura simbólica do campo cromático como concentração simultânea de vitalidade e desgaste, compatível com a tensão vida/morte indicada na proposição. Em II, a sequência “guará”, “vermelha”, “sangue”, “espinhos” e “penas” funciona como inventário lexical articulado, e não como lista neutra, produzindo alusão simbólica coerente com paixão, sofrimento e morte de Irene. Em III, o excerto explicita a aproximação entre palavras e letras — “avó”, “avô”, “ave”, “a”, “v”, “ó”, “ô”, “e” —, o que sustenta o reconhecimento de um jogo fônico-grafêmico de feição poética disseminado na narrativa.
E
Errada
Está errada porque, embora III esteja correta, não há exclusividade possível. I encontra apoio no campo cromático simbólico do fragmento, e II se apoia no inventário lexical imagético ligado a “guará”, “vermelha”, “sangue”, “espinhos” e “penas”. O erro da alternativa é reduzir a questão apenas ao jogo sonoro e ignorar os efeitos semânticos e simbólicos igualmente autorizados pelo texto.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de exigir literalidade excessiva em uma questão cujo enunciado já autoriza leitura simbólica, imagética, gráfica e fônica; por isso, muitos candidatos rejeitam I e II como interpretações amplas ou leem III apenas como alfabetização, sem perceber o procedimento poético.
Dica para questões semelhantes
  • Use o enunciado como chave de leitura: se ele anuncia recursos poéticos, não teste as proposições por literalismo estreito.
  • Em interpretação literária, diferencie palavra isolada de rede lexical: a sequência de termos pode construir um sentido simbólico conjunto.
  • Quando o trecho destaca letras, sons ou aproximações entre vocábulos, verifique efeito fônico-grafêmico antes de reduzir a passagem ao sentido informativo.
  • Elimine alternativas exclusivas só depois de conferir se outras proposições também encontram apoio direto nos trechos citados.

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