Questão a66f3155-f4
Prova:CESMAC 2019
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Em relação aos possíveis leitores do Texto, o propósito comunicativo pretendido foi:


Se você parar para pensar...


1. Na correria do dia a dia, o urgente não vem deixando tempo para o importante. Essa constatação, carregada de estranha obviedade, obriga-nos quase a tratar como uma circunstância paralela e eventual aquela que deve ser considerada a marca humana por excelência: a capacidade de reflexão e consciência. Aliás, em alguns momentos, as pessoas usam até uma advertência (quando querem afirmar que algo não vai bem): “Se você parar para pensar...”

2. Por que parar para pensar? Será tão difícil pensar enquanto continua fazendo outras coisas ou, melhor ainda, seria possível fazer sem pensar e, num determinado momento, ter de parar? Ora, pensar é uma atitude contínua, e não um evento episódico! Não é preciso parar – nem se deve fazê-lo – sob pena de romper com nossa liberdade consciente.

3. O escritor francês Anatole França, um mestre da ironia e do ceticismo, dizia: “O pensamento é uma doença peculiar de certos indivíduos, que, ao propagar-se, em breve acabaria com a espécie”.

4. Talvez “pensar mais” não levasse necessariamente ao “término da espécie”, mas, com muita probabilidade, dificultaria a presença daqueles, no mundo dos negócios e da comunicação, que só entendem e tratam as pessoas como consumidores vorazes e insanos. Talvez, um “pensar mais” nos levasse a gritar que basta de tantos imperativos. Compre! Olhe! Veja! Faça! Leia! Sinta! E a vontade própria e o desejo sem contornos? E a liberdade de decidir, escolher, optar, aderir? Será um basta do corpo e da mente que já não mais aguentam tantas medicinas, tantas dietas compulsórias, tantas ordens da moda e admoestações da mídia; corpo e mente que carecem, cada dia mais, de horas de sono complementares, horas de lazer suplementares e horas de sossego regulamentares, quase esgotados na capacidade de persistir, combater e evitar o amortecimento dos sentidos e dos sonhos pessoais e sinceros. Essa demora em “pensar mais”, esse retardamento da reflexão como uma atitude continuada e deliberada, vem produzindo um fenômeno quase coletivo: mais e mais pessoas querendo desistir, com vontade imensa de mudar de vida, transformar-se, livrando-se das pequenas situações que as torturam, que as amarguram, que as esvaem. Vêm à tona impulsos de romper as amarras da civilização e partir, céleres, em direção ao incerto, ao sedutor repouso oferecido pela irracionalidade e pela inconsequência. Cansaço imenso de um grande sertão com diminutas veredas? (...)

5. Pouco importa, dado que ser humano é ser capaz de dizer “não” ao que parece não ter alternativa. Apesar dos constrangimentos e da tentativa de sequestro da nossa subjetividade, pensar não é, de fato, crime e, por isso, não se deve parar.

(CORTELLA, Mário Sérgio. Folha de S. Paulo, maio de 2001. Adaptado)

A
aludir a certas estratégias da mídia publicitária que, aleatoriamente, preferem adotar verbos no modo imperativo.
B
advertir que a carência dos momentos de reflexão representa uma ameaça à subjetividade e à livre decisão do ser humano.
C
explicar as razões pelas quais têm sido comuns os desejos e as atitudes que implicam desistência e afastamento da cultura atual.
D
sugerir outras formas de enfrentar as obrigações laborais do cotidiano, pela acertada opção da serenidade e do sossego.
E
propor outras estratégias de apelo publicitário, capazes de respeitar as escolhas de cada um e salvaguardar sua subjetividade.

Gabarito comentado

M
Marcelo Alves Monitor do Qconcursos

Tema central: Interpretação de Texto/Propósito Comunicativo

Nesta questão, é fundamental identificar qual a intenção do autor ao se comunicar com o leitor — conceito chamado de propósito comunicativo. Conforme Bechara e Cunha & Cintra, reconhecer esse objetivo exige que o leitor relacione as ideias defendidas no texto às possíveis consequências práticas desejadas pelo autor em seu público.

O texto analisa criticamente a correria do cotidiano e a imposição de comandos que minam a reflexão pessoal. Argumenta que a falta de reflexão ameaça a subjetividade e liberdade de escolha humanas, culminando em um alerta para que não se abandone o hábito de pensar.

Alternativa correta: B
Advertir que a carência de momentos de reflexão representa ameaça à subjetividade e à livre decisão do ser humano.
O raciocínio é: o texto expressa preocupação explícita com a perda da autonomia individual diante das imposições sociais e midiáticas, defendendo o pensar como ação contínua e fundamental para manter o protagonismo sobre as próprias escolhas. A palavra-chave é advertir — ou seja, fazer um alerta sobre um risco real à liberdade e subjetividade humanas.

Por que as outras alternativas estão incorretas?

A) Limita-se à relação com as estratégias publicitárias e o uso do imperativo; o texto vai além, tratando dos impactos dessas estratégias sobre o pensar autônomo.
C) Só menciona desejos de desistência e afastamento; embora citados, não são foco principal e são consequência, não objetivo central.
D) Fala em sugerir formas de enfrentar obrigações com serenidade; não há sugestão de métodos, mas sim crítica à ausência de reflexão.
E) Propõe novas estratégias publicitárias; o texto não faz tal proposta.

Estratégia para provas: Foque nos verbos principais das alternativas ("advertir", "sugerir", "explicar", "aludir", "propor"). Relacione-os sempre ao tom e objetivo geral do texto.
Cuidado também com alternativas que se atêm apenas a exemplos citados, sem abranger a ideia global do autor.

Como afirma Cunha & Cintra, "o sentido pleno do texto deve ser construído por meio de suas ideias essenciais, não de suas particularidades".

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