Questão 9b7c8e4b-b0
Prova:PUC-MINAS 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

“Sentia-se cansada. A barriga, as pernas, a cabeça, o corpo todo era um enorme peso que lhe caía irremediavelmente em cima. Esperava que a qualquer momento o coração lhe perfurasse o peito, lhe rasgasse a blusa.

Como seria o coração?
Teria mesmo aquela forma bonita dos postais coloridos?
Seriam todos os corações do mesmo formato?
Será que as dores deformam os corações?
[...] 
Aos vinte e três anos disseram-lhe que tinha o útero descaído. Bom seria que caísse de vez! Estava farta daquele bocado de si que ano após ano, enchia, inchava, desenchia e lhe atirava para os braços e para os cuidados mais um pedacinho de gente.
Não. Não voltaria para casa.”  
(SALÚSTIO, Dina. “Liberdade adiada”. Mornas eram as noites. Praia: ICDL, 1994. p. 5).

O trecho acima foi escrito pela escritora cabo-verdiana Dina Salústio. Em relação ao universo feminino representado na narrativa, destaca-se:  

A
a falta de perspectiva com o futuro.  
B
a feminilidade da mulher africana.  
C
o conflito racial e ideológico. 
D
o sentimentalismo da desilusão amorosa. 

Gabarito comentado

B
Bruno MendesMonitor com apoio de IA

Gabarito: A

Fundamento decisivo: A base textual decisiva é a articulação entre “Sentia-se cansada.”, “Estava farta daquele bocado de si...” e “Não. Não voltaria para casa.”. Essas marcas sustentam, por inferência, a leitura de esgotamento, saturação com a maternidade reiterada e ruptura com a continuidade da vida retratada, o que autoriza a alternativa A.

Tema central: esgotamento e desesperança
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A corresponde ao sentido global do fragmento, em que a personagem aparece sob forte desgaste físico e existencial, com rejeição da repetição ligada ao próprio corpo e à maternidade. A recusa final de voltar para casa confirma a ruptura com o espaço associado a esse ciclo.
B
Errada
A alternativa erra porque o fragmento não exalta uma suposta “feminilidade da mulher africana”. O que o texto mostra é sofrimento corporal, opressão e saturação com a maternidade compulsória. Além disso, o excerto não autoriza generalizar a experiência apresentada como traço essencial da “mulher africana”.
C
Errada
A alternativa é excluída pela ausência de marcas textuais de raça, embate ideológico ou oposição entre grupos. O eixo do fragmento está no desgaste da personagem diante do próprio corpo, da repetição reprodutiva e da recusa de voltar para casa, não em conflito racial e ideológico.
D
Errada
A alternativa desloca o sentido do texto para um campo que não aparece no excerto. Não há qualquer elemento de relação amorosa frustrada ou de desilusão amorosa. O sofrimento da personagem está ligado ao corpo, ao útero, à repetição dos filhos e ao destino doméstico, não ao sentimentalismo amoroso.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre “universo feminino” e idealização da feminilidade, além da tendência de projetar no texto temas externos, como africanidade estereotipada, conflito sociopolítico ou desilusão amorosa, sem apoio no fragmento.
Dica para questões semelhantes
  • Em interpretação temática, escolha a alternativa que sintetiza o campo semântico dominante do trecho, não um tema genérico associado ao assunto.
  • Quando o texto traz dor, cansaço, repetição e recusa, verifique se a inferência aponta para impasse e desesperança, mesmo que isso não esteja dito literalmente.
  • Elimine alternativas que introduzem temas sem marca textual clara, como raça, ideologia ou romance, quando o fragmento não os verbaliza.
  • Em comandos sobre “universo feminino”, observe se o texto representa opressão vivida ou exaltação identitária; as duas leituras não são equivalentes.

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