Questão 94b9f5bb-6d
Prova:UEG 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Leia o trecho abaixo.
– Essa cova em que estás,
com palmos medida,
é a conta menor
que tiraste em vida.
 – É de bom tamanho,
nem largo, nem fundo,
é a parte que te cabe
deste latifúndio.
MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1995. p. 183. 

A expressão “é a parte que te cabe deste latifúndio”, relacionada ao contexto histórico-social do Nordeste da década de 1950, retratado em Morte e vida severina, comporta uma

A
metonímia, que alude à excessiva preocupação dos nordestinos com a religião e com a vida pós-morte.
B
ironia em relação à miséria da população nordestina afligida pela seca e pela concentração fundiária.
C
metáfora, por meio da qual se atribui à sepultura a noção de único paraíso possível ao sertanejo.
D
sinédoque, que reforça a visão de mundo conservadora das classes latifundiárias nordestinas.

Gabarito comentado

M
Michele GomesMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o efeito de ironia produzido pela expressão “é a parte que te cabe / deste latifúndio.”: no contexto de miséria e concentração fundiária em Morte e vida severina, a grande extensão sugerida por “latifúndio” contrasta com a única porção que cabe ao pobre, a cova. Esse contraste sustenta a leitura crítica da desigualdade e conduz ao gabarito B.

Tema central: ironia social
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque desloca o sentido do trecho para a religião e a vida pós-morte, tema que não é sustentado pelo excerto. A presença da cova não produz reflexão religiosa; ela funciona como instrumento de denúncia social. Além disso, a base indica que o efeito central da expressão não é metonímico, mas irônico.
B
Certa
A alternativa B está correta porque identifica o efeito de sentido que organiza o trecho: a cova aparece como a única terra destinada ao sertanejo miserável. A ironia nasce do choque entre a grande propriedade, indicada por “latifúndio”, e a parcela mínima recebida pelo indivíduo, a sepultura. Com isso, o verso não fala de consolo nem de religiosidade; ele critica a miséria e a concentração fundiária no Nordeste.
C
Errada
Está errada porque atribui à sepultura o sentido de “único paraíso possível”, o que altera o valor semântico do trecho. O poema não apresenta a morte como recompensa ou consolação; apresenta a cova como sinal extremo da exclusão vivida em vida. Essa leitura enfraquece indevidamente a crítica social que o verso constrói.
D
Errada
Está errada porque desloca o foco para uma suposta “visão de mundo conservadora das classes latifundiárias”, quando o excerto enfatiza a condição do pobre que não teve acesso à terra. Também erra ao fazer da sinédoque o núcleo da interpretação, já que a base afirma que o decisivo não é a classificação formal da figura, mas a ironia crítica produzida pelo contraste entre “latifúndio” e “cova”.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de reduzir o verso a um nome de figura de linguagem ou de associar a morte a religiosidade; porém o que decide a questão é perceber a ironia social de “parte que te cabe” diante de “latifúndio”.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o enunciado trouxer contexto histórico-social, use-o para definir o sentido da expressão, não apenas para classificar figura de linguagem.
  • Compare palavras em tensão no próprio trecho: aqui, “latifúndio” e “cova” criam o contraste que revela a crítica.
  • Não transforme menção à morte em tema religioso sem apoio textual explícito.
  • Se houver dúvida entre rótulo formal e efeito de sentido, priorize o efeito discursivo que o texto produz no contexto dado.

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