Questão 93669dda-db
Prova:FAMEMA 2018
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Coesão e coerência, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Em “Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto.” (5o parágrafo), o termo sublinhado refere-se a

          Dizer o que seja a arte é coisa difícil. Um sem-número de tratados de estética debruçou-se sobre o problema, procurando situá-lo, procurando definir o conceito. Mas, se buscamos uma resposta clara e definitiva, decepcionamo-nos: elas são divergentes, contraditórias, além de frequentemente se pretenderem exclusivas, propondo-se como solução única.

         Entretanto, se pedirmos a qualquer pessoa que possua um mínimo contato com a cultura para nos citar alguns exemplos de obras de arte ou de artistas, ficaremos certamente satisfeitos. Todos sabemos que a Mona Lisa, que a Nona sinfonia de Beethoven, que a Divina comédia, que Guernica de Picasso ou o Davi de Michelangelo são, indiscutivelmente, obras de arte. Assim, mesmo sem possuirmos uma definição clara e lógica do conceito, somos capazes de identificar algumas produções da cultura em que vivemos como sendo “arte”. Além disso, a nossa atitude diante da ideia “arte” é de admiração: sabemos que Leonardo ou Dante são gênios e, de antemão, diante deles, predispomo-nos a tirar o chapéu.                      Podemos, então, ficar tranquilos: se não conseguimos saber o que a arte é, pelo menos sabemos quais coisas correspondem a essa ideia e como devemos nos comportar diante delas. Infelizmente, esta tranquilidade não dura se quisermos escapar ao superficial e escavar um pouco mais o problema. O Davi de Michelangelo é arte, e não se discute. Entretanto, eu abro um livro consagrado a um artista célebre do século XX, Marcel Duchamp, e vejo entre suas obras, conservado em museu, um aparelho sanitário de louça, absolutamente idêntico aos que existem em todos os mictórios masculinos do mundo inteiro. Ora, esse objeto não corresponde exatamente à ideia que eu faço da arte.

          Assim, a questão que há pouco propusemos – como saber o que é ou não é obra de arte – de novo se impõe. Já vimos que responder com uma definição que parte da “natureza” da arte é tarefa vã. Mas, se não podemos encontrar critérios a partir do interior mesmo da noção de obra de arte, talvez possamos descobri-los fora dela.

        Para decidir o que é ou não arte, nossa cultura possui instrumentos específicos. Um deles, essencial, é o discurso sobre o objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade. Esse discurso é o que proferem o crítico, o historiador da arte, o perito, o conservador de museu. São eles que conferem o estatuto de arte a um objeto. Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa galeria, sei de antemão que encontrarei obras de arte; num cinema “de arte”, filmes que escapam à “banalidade” dos circuitos normais; numa sala de concerto, música “erudita” etc. Esses locais garantem-me assim o rótulo “arte” às coisas que apresentam, enobrecendo-as.

           Desse modo, para gáudio1 meu, posso despreocupar- -me, pois nossa cultura prevê instrumentos que determinarão, por mim, o que é ou não arte. Para evitar ilusões, devo prevenir que a situação não é assim tão rósea. Mas, por ora, o importante é termos em mente que o estatuto da arte não parte de uma definição abstrata do conceito, mas de atribuições feitas por instrumentos de nossa cultura, dignificando os objetos sobre os quais ela recai.


                                                                                                                      (O que é arte, 2013.Adaptado.)

A
“arte”.
B
“locais”.
C
“objeto”.
D
“estatuto”.
E
“cultura”.

Gabarito comentado

R
Rafael AmaralMonitor do Qconcursos

Tema central da questão: O foco aqui é interpretação de texto, envolvendo referência pronominal e o uso do verbo pronominal “manifestar-se”, avaliando a capacidade do candidato de analisar corretamente o termo ao qual o pronome “se” está vinculado na frase.

Justificativa para a alternativa correta (Letra A – “arte”):

No trecho analisado – “Nossa cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se...” – o sujeito da oração subordinada é "a arte". O verbo manifestar-se é pronominal, ou seja, exige o pronome “se” para sua correta conjugação. Portanto, o pronome “se” retoma diretamente o sujeito “arte”, indicando que é a arte que se manifesta nesses locais.

Esse procedimento está de acordo com a norma-padrão (cf. Bechara; Cunha & Cintra), segundo a qual os pronomes oblíquos átonos que acompanham verbos pronominais se referem sempre ao sujeito da oração.

Análise das alternativas incorretas:

B) “locais”: O termo “locais” funciona como adjunto adverbial, indicando onde a arte pode se manifestar; não é sujeito da oração "a arte pode manifestar-se".

C) “objeto”: Apesar de aparecer no trecho, ele faz parte de uma outra relação da frase e não participa da oração em que o verbo “manifestar-se” está inserido.

D) “estatuto”: O termo “estatuto” refere-se ao status conferido ao objeto como arte, mas não é sujeito do verbo na oração analisada.

E) “cultura”: “Cultura” é o sujeito da oração principal, mas na subordinada o sujeito é “a arte”. Assim, o “se” não se refere a “cultura”.

Estratégia de interpretação e dica:

Em questões de referência pronominal, sempre identifique o sujeito do verbo na oração; o pronome se refere normalmente a esse termo. Leia lentamente a frase e isole a oração subordinada para evitar confusão, principalmente quando há muitos termos próximos.

Resumo da regra gramatical: Conforme Bechara e Celso Cunha, em verbos pronominais, o pronome oblíquo integra o verbo e referencia o sujeito que executa a ação. Por isso, “manifestar-se” traz o “se” referindo-se a “arte”.

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