Questão 9235ced9-02
Prova:UNIFOA 2018
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

REPISANDO A CANDELÁRIA
Armando Freitas Filho

Ao pé das portas
fechadas da igreja
na calçada dormente
corpos se estendem.

Na manhã de corpos
alguns acordam
dia sim, dia não
na vida da calçada.

Corpos, alguns
na calçada, acordam
mais dia, menos dia
na vida da manhã.

Na manhã, de dias iguais
alguns, não acordam
na vida de corpos
largados na calçada.

Dormem de dia
com a mesma aparência
dos mortos, os corpos
deitados na calçada.

Ou como, quando
ainda não nascidos -
fetais - na fatalidade
dos dias na calçada.

Delineados em diagrama
nos espaços que ocuparam
para sempre na calçada
brutos e delicados.

Chapados, colados
brotam na calçada:
jardim de carne
que cresceu de noite.

Rajada que não é
de vento, calçada
de corpos já derrubados
pelo sono, amortecidos.

Vida de um dia
de corpos, uns, nus
alguns, nenhuns, não
acordam cedo, na calçada.

Dormem, doentes
ou adolescentes
voltam à primeira idade
geminados na calçada.

Na ilha do asfalto
cercada pelo tráfego
marcada pela cruz
a isca dos corpos.

FREITAS FILHO, Armando. Poema inédito, 2 de fevereiro de 2010.

Sobre o TEXTO, não se pode afirmar que:

A
trata-se de um poema memento em memória de meninos executados na chamada Chacina da Candelária.
B
o poema apresenta movimento cíclico, desperiodizado, possuindo algumas séries fônicas que são reiteradas e funcionam como unidades rítmicas.
C
o poema é composto de doze estrofes com quatro versos cada uma.
D
a frase "corpos na calçada" resume o conteúdo do poema, sendo encontrada por múltiplas vezes espalhadas, ao mesmo tempo dispersas e concentradas, ao longo das doze estrofes.
E
a intenção do eu-lírico é a de apresentar, a partir da linguagem da poesia, uma descrição dos atos de violência que levaram à morte diversos meninos de rua na Chacina da Candelária.

Gabarito comentado

I
Igor CastroMonitor do Qconcursos

Assunto central: Interpretação de texto poético — habilidade fundamental em concursos, pois exige mais do que compreensão literal: demanda captar intenções, subentendidos e escolhas estilísticas do autor. Segundo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), interpretar é “mergulhar nos sentidos explícitos e implícitos que a linguagem sugere”.

Alternativa correta: E — JUSTIFICATIVA
A alternativa E não se pode afirmar porque o poema não se propõe a descrever, de modo informativo ou factual, a violência da Chacina da Candelária. O eu-lírico recorre à linguagem simbólica e emotiva. Não há uma descrição objetiva dos atos de violência, e sim evocação poética do sofrimento e da recorrência trágica (“corpos na calçada”, “sonos”, “dias iguais”). O poema sensibiliza, não relata.

Por que as demais estão corretas?

A) O texto é, sim, uma espécie de memento/homenagem aos meninos mortos (observa-se o foco nos “corpos na calçada” ligados historicamente ao episódio).

B) Apresenta estrutura cíclica e desperiodizada, com repetições fônicas e versais, funcionando como marcas rítmicas — veja “alguns acordam... na calçada”, “delineados em diagrama… para sempre na calçada”.

C) Estruturalmente, compõem-se doze estrofes de quatro versos cada. A leitura atenta mostra essa regularidade — dados que também são observados objetivamente, importante para não errar questões de análise formal.

D) A expressão “corpos na calçada” realmente perpassa e sintetiza o poema, simbolizando as vítimas e sua situação.

Estratégia e dicas para concursos: Questões com “não se pode afirmar” exigem atenção redobrada para evitar marcas de distração ou leitura superficial. Busque palavras que expressem certeza (“descreve”, “informa”, “relata”) versus termos de evocação poética. Não confunda abordagem lírica (indireta, sugestiva) com reportagens (objetivas e informativas).

Referência técnica: De acordo com Celso Cunha & Lindley Cintra, textos líricos “organizam sinestesia, sensação e reiteração, não informação direta”. Leia preferencialmente poetas na perspectiva do subentendido.

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