Questão 92207c29-02
Prova:UNIFOA 2018
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Pode-se afirmar que o principal objetivo do TEXTO é:

A indiferença com a violência nas favelas do Rio de Janeiro

O silêncio de autoridades e instituições revela o fatalismo de uma política de segurança pública falida

Marcelo Baumann Burgo

 

A rotina de tiroteios em diversas favelas do Rio de Janeiro tem por cenário um labirinto de casas recheadas de seres humanos, acuados e humilhados. O quadro ultrapassa as raias do absurdo, e nem os escritores do realismo mágico seriam capazes de imaginá-lo.

O que mais surpreende, contudo, é o silêncio condescendente das autoridades e instituições cujo papel deveria ser o de, antes de qualquer outra coisa, zelar pelas garantias mínimas do direito à vida e integridade física dos cidadãos.

            Mas ao que tudo indica, para os moradores das favelas cariocas, nem mesmo esse aspecto elementar do pacto hobbesiano tem sido preservado, o que sugere que, para eles, a lei é a da barbárie. Na favela da Rocinha, por exemplo, desde setembro de 2017, a cada três dias pelo menos uma pessoa – incluindo policiais - morreu nesses confrontos.

O primeiro e mais ensurdecedor silêncio é o do governador e das autoridades da segurança pública estaduais e federais. No máximo, se manifestam quando algum policial é morto no “campo de batalha”, para lamentar sua perda e reafirmar o “espírito de combate da tropa”.

Diante desse silêncio deliberado, ficam no ar várias perguntas: como explicar o sentido de uma política de segurança que tem como efeito real a tortura diária da população das favelas, que se vê obrigada a conviver com um fogo cruzado intenso e aleatório? Quem realmente responde por ela, e pelas mortes e sofrimento que ela provoca? Onde se pretende chegar com isso? Quais as suas razões “técnicas”, se é que não é uma ofensa às vítimas formular essa pergunta? SILÊNCIO...

Sob esse primeiro vácuo de respostas, há um segundo nível de silêncio, o das instituições que deveriam questionar as autoridades estaduais e federais. Cadê os poderes legislativos, que não criam um grupo suprapartidário de parlamentares para interpelar o governo? Neste caso, não vale alegar que estamos aguardando as próximas eleições para “fazer o debate”, pois o sofrimento é hoje, e a morte espreita diariamente a vida dessa população.

E o Ministério Público, que não organiza uma força-tarefa para, tempestivamente, proteger a ordem jurídica escandalosamente violada, com a agressão de todo tipo aos direitos fundamentais dos cidadãos? SILÊNCIO...

Sob essa segunda e espessa camada de silêncios, subsiste uma terceira igualmente decisiva, a da grande imprensa. Não que ela não faça a crônica diária dos tiroteios, mas em geral as faz descrevendo os fatos com aparente neutralidade, como se eles simplesmente fizessem parte da rotina, não dando sinais, portanto, de que reflete sobre o que significa informar, em uma mesma matéria, que três ou quatro pessoas morreram ou se feriram, e que a operação teve como saldo a apreensão de “um fuzil”, “dez trouxinhas de maconha”, e “alguns papelotes de cocaína”...

Cadê os editoriais cobrando respostas das autoridades? Cadê o trabalho que, em outras áreas da vida pública, por exemplo na questão da corrupção, a grande imprensa faz com tanto zelo para mobilizar a opinião pública? No caso da rotina de tiroteios nas favelas o que parece resultar do trabalho da grande imprensa é o oposto da mobilização, ou seja, um efeito de resignação diante da violência ordinária.

Restaria, ainda, a sociedade civil organizada. Cadê a OAB, CNBB, ABI, as universidades, associações de bairro, e tantas outras que se irmanaram na luta contra a ditadura? Para ser justo com elas, até esboçaram alguma reação, mas sem força para fazer diferença. Com isso, tudo se passa como se esse bangue-bangue diário e estúpido dissesse respeito apenas aos moradores das favelas. Será que devemos esperar que somente eles se mobilizem?

Como se vê, para além de quaisquer outras razões de ordem econômica e social, o que se passa com a (in)segurança nos territórios populares do Rio de Janeiro deve ser creditado, antes de mais nada, aos silêncios e omissões de diferentes autoridades e instituições. Tal postura não deixa de revelar o quadro de fatalismo e perplexidade a que chegamos e não por acaso! Pois não há mesmo muito a se fazer com o modelo atual de segurança pública.

Em face de uma trama social que se torna cada vez mais complexa, a verdade é que não há como insistir com respostas casuísticas, provisórias e crescentemente brutais, que sintomaticamente já não podem prescindir do apoio recorrente das Forças Armadas.

Mas se é assim, que ao menos se reconheça, com honestidade, a necessidade de enfrentarmos um amplo debate sobre a reforma estrutural das instituições de segurança pública, a começar pelas polícias civil e militar. A cada dia, sua incompatibilidade com o projeto de democracia se mostra mais explícita.

O sofrimento de quem convive diariamente sob a tortura da loteria dos tiroteios nos territórios populares não terá como ser reparado, mas ainda não é tarde demais para mobilizarmos energia para esse debate.

No caso do Rio de Janeiro, o mínimo aceitável seria exigir que as autoridades, de um lado, contribuíssem para precipitar esta discussão e, de outro, interrompessem imediatamente a escalada do descalabro que elas vêm chancelando, movidas sabe-se lá por que tipo de cálculo.

 

Adaptado a partir de: https://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-indiferenca-com-a-violencia-nasfavelas-do-rio-de-janeiro /. Acesso em 10 de maio de 2018.

A
analisar atos de violência urbana específicos praticados contra as classes populares do Rio de Janeiro.
B
descrever a imprensa como principal agente de violência contra classes populares no Rio de Janeiro.
C
questionar a política pública de segurança e o silêncio de instituições públicas e privadas sobre o assunto.
D
questionar a postura do governo do Rio de Janeiro em relação à intervenção militar na Zona Sul da cidade.
E
propor políticas públicas para segurança no Rio de Janeiro, evitando o silêncio do governo sobre o tema.

Gabarito comentado

R
Rosalina Duarte Monitor do Qconcursos

Tema central: Interpretação de Texto Argumentativo

A questão explora interpretação de texto, exigindo do candidato a identificação do objetivo comunicativo do autor, prática fundamental em provas de Vestibular. Segundo Celso Cunha e Lindley Cintra, a compreensão de textos requer a análise da tipologia textual e a distinção entre ideias centrais e secundárias, competências indispensáveis para o bom desempenho em questões de compreensão global.

Justificativa da alternativa correta (C):

A alternativa C — “questionar a política pública de segurança e o silêncio de instituições públicas e privadas sobre o assunto” — é a única que abarca integralmente a tese central do texto. O autor emprega uma abordagem crítica, evidenciando a inação institucional (autoridades, imprensa, sociedade civil), enquanto denuncia a falha na política de segurança. O texto é marcadamente argumentativo: há cobrança, denúncia e necessidade de debate — características típicas da função apelativa.

Estratégia de resolução: Assinale a alternativa que sintetize todas as esferas argumentativas presentes, verificando se ela responde à pergunta: “Para quê o texto foi escrito?”. Aqui, a resposta exata é: provocar reflexão e incitar questionamento sobre a ausência de respostas e ações sólidas.

Análise das alternativas incorretas:

A) “analisar atos de violência urbana específicos”: Errado, pois o foco não está em episódios ou denúncias pontuais, mas sim na crítica ao silêncio generalizado.
B) “descrever a imprensa como principal agente de violência”: Errado, já que a imprensa é apenas um dos muitos atores omissos apontados; não é culpabilizada diretamente.
D) “questionar apenas a intervenção militar na Zona Sul”: Incorreta, pois restringe indevidamente a abrangência temática do texto.
E) “propor políticas públicas específicas”: Equívoco, porque o texto cobra debate, não apresenta soluções ou propostas elaboradas.

Dicas para próximas questões: Atente-se a alternativas muito restritivas ou genéricas; elas raramente abrangem o objetivo maior do texto argumentativo. Busque palavras-chave como silêncio, omissão, questionamento ou crítica e observe se a alternativa abrange todas as críticas levantadas, não apenas uma delas.

Resumo: O texto é um chamado ao questionamento frente à omissão institucional diante da violência, sendo a alternativa C a correta.

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