Questão 91cf3ac5-e7
Prova:UNB 2012
Disciplina:Filosofia
Assunto:

Aplicada ao discurso cartesiano, a dúvida acerca da dúvida o invalidaria.

       A dúvida pode significar o fim de uma fé, ou pode significar o começo de outra. Em dose moderada, estimula o pensamento. Em excesso, paralisa-o. A dúvida, como exercício intelectual, proporciona um dos poucos prazeres puros, mas, como experiência moral, ela é uma tortura. Aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa e assim de todo conhecimento sistemático. Em estado destilado, mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento.
       O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé, uma certeza.A fé é, pois, o estado primordial do espírito. O espírito “ingênuo” e “inocente” crê. Essa ingenuidade e inocência se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida, e o clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. As tentativas dos espíritos corroídos pela dúvida de reconquistar a autenticidade, a fé original, não passam de nostalgias frustradas em busca da reconquista do paraíso perdido. As certezas originais postas em dúvida nunca mais serão certezas autênticas. Tal dúvida, metodicamente aplicada, produzirá novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, mas essas certezas novas não serão autênticas. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira.
       A dúvida, portanto, é absurda, pois substitui a certeza autêntica pela certeza inautêntica. Surge, portanto, a pergunta: “por que duvido?” Essa pergunta é mais fundamental do que a outra: “de que duvido?” Trata-se, portanto, do último passo do método cartesiano: duvidar da dúvida — duvidar da autenticidade da dúvida. A pergunta “por que duvido?” engendra outra: “duvido mesmo?”
       Descartes, e com ele todo o pensamento moderno, parece não dar esse último passo. Aceita a dúvida como indubitável
Vilém Flusser. A dúvida. São Paulo: Editora Annablume, 2011, p. 21-2 (com adaptações).

Tendo o texto acima como referência inicial, julgue os itens de 110 a 118, assinale a opção correta no item 119, que é do tipo C, e faça o que se pede no item 120, que é do tipo D.

C
Certo
E
Errado

Gabarito comentado

M
Manuela Cardoso Monitor do Qconcursos

Resposta: C — certo

Tema central: o papel da dúvida na fundamentação do sujeito moderno — a questão explora a crítica de Vilém Flusser ao método cartesiano: se se duvida da própria dúvida, o procedimento cartesiano perde sua base.

Resumo teórico progressivo: René Descartes emprega a dúvida metódica (Meditações, 1641) para eliminar crenças inseguras e descobrir uma certeza indubitável — o cogito ("penso, logo existo"). Para Descartes, a experiência de duvidar confirma a existência do sujeito pensante, e a dúvida funciona como instrumento construtivo.

Flusser problematiza esse ponto: a dúvida pressupõe uma fé/certeza originária (um "espírito ingênuo") e, ao tornar a dúvida absoluta, perde-se a autenticidade original. Se se passa a dudar da própria dúvida, questiona‑se o fundamento do método; a dúvida deixa de ser um instrumento neutro e torna‑se algo que pode ser desconstruído — o que, aplicando‑se ao discurso cartesiano, o comprometeria.

Justificativa concisa do gabarito (por que C é correto): A crítica afirma que a recusa em dar o “último passo” — duvidar da autenticidade da própria dúvida — torna a dúvida aceitável como indubitável. Se alguém leva adiante a suspeita sobre a própria dúvida ("duvido mesmo?"), a condição necessária para o método cartesiano (uma dúvida estável e confiável que funda a investigação) é removida. Assim, a dúvida acerca da dúvida, aplicada ao discurso cartesiano, o tornaria inválido ou, no mínimo, autoconsistente apenas até onde se admite a dúvida como fundamento. Em termos práticos: duvidar da dúvida é trazer ao questionamento o próprio instrumento do método, o que o neutraliza.

Fontes relevantes: René Descartes — Meditações Metafísicas (1641); Vilém Flusser — A dúvida (2011). Para contextualização acadêmica, ver entradas sobre "Cartesian doubt" na Stanford Encyclopedia of Philosophy.

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