Questão 91b33fd1-af
Prova:UNESP 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Com o conceito expresso pelo termo autotélico, o cronista considera que
Com o conceito expresso pelo termo autotélico, o cronista considera que
Instrução: A questão toma por base
um fragmento da crônica Letra de canção e poesia, de Antonio
Cicero.
Como escrevo poemas e letras de canções, frequentemente
perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A
expressão “letra de canção” já indica de que modo essa questão
deve ser entendida, pois a palavra “letra” remete à escrita. O
que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um
poema escrito.
“Letra de canção é poema?” Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas
na página e diz que é um poema, quem provará o contrário? Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é
um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda
não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas
coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente
um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um
bom poema. Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma
resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom
poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo,
nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o
que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um
bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de
canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois
considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento
musical? Não é difícil entender a razão disso.
Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim
em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a
considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um
poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando
é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural. Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o
seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário
e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de
que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja
ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar,
para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela depende da melodia, da harmonia,
do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada.
(Folha de S.Paulo, 16.06.2007.)
Instrução: A questão toma por base
um fragmento da crônica Letra de canção e poesia, de Antonio
Cicero.
Como escrevo poemas e letras de canções, frequentemente
perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A
expressão “letra de canção” já indica de que modo essa questão
deve ser entendida, pois a palavra “letra” remete à escrita. O
que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um
poema escrito.
“Letra de canção é poema?” Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas
na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?
Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é
um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda
não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas
coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente
um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um
bom poema.
Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma
resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom
poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo,
nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o
que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um
bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de
canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois
considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento
musical? Não é difícil entender a razão disso.
Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim
em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a
considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um
poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando
é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural.
Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o
seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário
e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de
que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja
ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar,
para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela depende da melodia, da harmonia,
do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada.
(Folha de S.Paulo, 16.06.2007.)
A
o poema, quando escrito, já tem implícita uma possível
canção.
B
uma canção é boa ou má segundo o gosto predominante na
época.
C
um poema é um objeto dotado de sua própria finalidade.
D
tanto letra quanto música são dotadas de sua própria finalidade.
E
a letra de uma canção pode funcionar sozinha ou com a música.
Gabarito comentado
S
Sofia Martins Monitor com apoio de IA
Gabarito: C
Fundamento decisivo: A questão se resolve pela definição explícita de "autotélico" no texto: "Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio." Esse é o critério textual que determina o gabarito C.
Tema central: sentido de autotélico
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa introduz uma ideia que o texto não traz: a de que o poema escrito já conteria implicitamente uma possível canção. O conceito de "autotélico" no texto se refere à finalidade própria do poema, não a uma virtual transformação em canção. É extrapolação sem apoio textual.
B
Errada
A alternativa desloca o foco para um critério de gosto histórico ou social que não aparece na definição de "autotélico" nem no desenvolvimento do trecho. O texto trata de finalidade própria do poema, não de avaliação segundo o gosto predominante na época.
C
Certa
A alternativa C está correta porque reexpressa com fidelidade a definição dada pelo cronista. No texto, "autotélico" é explicado por aposto: "ele tem o seu fim em si próprio". Dizer que o poema é "um objeto dotado de sua própria finalidade" mantém exatamente esse sentido, sem acrescentar ideia externa nem deslocar o conceito para outro elemento.
D
Errada
A alternativa contradiz diretamente a oposição central do texto. O cronista afirma: "Um poema é um objeto autotélico" e, em contraste, "Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria." Portanto, não se pode atribuir finalidade própria a ambos.
E
Errada
A alternativa atribui autonomia à letra de canção, mas o texto afirma o contrário. O cronista diz que a letra é heterotélica e pode depender "da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música", podendo até ser "ilegível" isoladamente. Logo, não funciona, no raciocínio do texto, com a mesma suficiência do poema.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre poema e letra de canção. O texto define "autotélico" de modo direto, mas depois contrapõe esse conceito à letra de canção, que é "heterotélica"; quem ignora esse contraste tende a aceitar alternativas que transferem ao campo da canção uma característica atribuída apenas ao poema.
Dica para questões semelhantes
- Quando o texto trouxer um termo técnico seguido de "isto é", use essa explicação como núcleo da resposta.
- Em questões de interpretação conceitual, escolha a alternativa que parafraseia o trecho definidor sem acrescentar informação externa.
- Se o texto construir uma oposição explícita, como "autotélico" versus "heterotélico", use esse contraste para eliminar alternativas que misturam os dois polos.






