Questão 91af374f-af
Prova:UNESP 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Sobre a qualidade da canção, o cronista acredita que

Instrução: A questão toma por base um fragmento da crônica Letra de canção e poesia, de Antonio Cicero.

       Como escrevo poemas e letras de canções, frequentemente perguntam-me se acho que as letras de canções são poemas. A expressão “letra de canção” já indica de que modo essa questão deve ser entendida, pois a palavra “letra” remete à escrita. O que se quer saber é se a letra, separada da canção, constitui um poema escrito.
     “Letra de canção é poema?” Essa formulação é inadequada. Desde que as vanguardas mostraram que não se pode determinar a priori quais são as formas lícitas para a poesia, qualquer coisa pode ser um poema. Se um poeta escreve letras soltas na página e diz que é um poema, quem provará o contrário?
       Neste ponto, parece-me inevitável introduzir um juízo de valor. A verdadeira questão parece ser se uma letra de canção é um bom poema. Entretanto, mesmo esta última pergunta ainda não é suficientemente precisa, pois pode estar a indagar duas coisas distintas: 1) Se uma letra de canção é necessariamente um bom poema; e 2) Se uma letra de canção é possivelmente um bom poema.
        Quanto à primeira pergunta, é evidente que deve ter uma resposta negativa. Nenhum poema é necessariamente um bom poema; nenhum texto é necessariamente um bom poema; logo, nenhuma letra é necessariamente um bom poema. Mas talvez o que se deva perguntar é se uma boa letra é necessariamente um bom poema. Ora, também a essa pergunta a resposta é negativa. Quem já não teve a experiência, em relação a uma letra de canção, de se emocionar com ela ao escutá-la cantada e depois considerá-la insípida, ao lê-la no papel, sem acompanhamento musical? Não é difícil entender a razão disso.
       Um poema é um objeto autotélico, isto é, ele tem o seu fim em si próprio. Quando o julgamos bom ou ruim, estamos a considerá-lo independentemente do fato de que, além de ser um poema, ele tenha qualquer utilidade. O poema se realiza quando é lido: e ele pode ser lido em voz baixa, interna, aural.
        Já uma letra de canção é heterotélica, isto é, ela não tem o seu fim em si própria. Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível. E a letra pode ser ilegível porque, para se estruturar, para adquirir determinado colorido, para ter os sons ou as palavras certas enfatizadas, ela depende da melodia, da harmonia, do ritmo, do tom da música à qual se encontra associada.
(Folha de S.Paulo, 16.06.2007.)

A
qualquer poema que se escreva funcionará bem com a música.
B
combinar letra e música é pura questão de sorte.
C
uma letra em nada contribui para a qualidade da canção.
D
uma boa canção é resultado de boa música e de boa letra.
E
a música sem a letra se torna descolorida e insossa.

Gabarito comentado

J
João Martins Monitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a inferência textual sobre a função da letra na qualidade da canção. O trecho obrigatório — “Para que a julguemos boa, é necessário e suficiente que ela contribua para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Em outras palavras, se uma letra de canção servir para fazer uma boa canção, ela é boa, ainda que seja ilegível.” — explicita que a letra participa da qualidade da canção por contribuição funcional; por consequência, a boa canção depende da articulação entre letra e música, o que conduz à alternativa D.

Tema central: letra e qualidade da canção
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada por extrapolação indevida e troca de referente. O texto não diz que qualquer poema funciona bem com música; ao contrário, distingue poema de letra de canção e afirma que a letra, para se estruturar, depende de elementos musicais específicos. A questão pede a visão do cronista sobre a qualidade da canção, não sobre qualquer poema.
B
Errada
Está errada porque introduz a ideia de sorte, ausente do texto. O cronista não atribui a qualidade da canção ao acaso, mas a um critério objetivo: a letra é boa quando contribui para que a obra lítero-musical seja boa. Há relação funcional, não aleatória.
C
Errada
Está errada por negar frontalmente uma informação explícita do texto. O trecho decisivo afirma que a letra deve contribuir para que a obra lítero-musical de que faz parte seja boa. Logo, não é possível sustentar que a letra em nada contribui para a qualidade da canção.
D
Certa
A alternativa D traduz fielmente a tese final do texto: a letra não é avaliada isoladamente, mas pelo modo como contribui para a qualidade da obra lítero-musical. Como o cronista ainda afirma que a letra depende da melodia, da harmonia, do ritmo e do tom, a qualidade da canção decorre da integração entre os dois planos, verbal e musical. Por isso, a ideia de que uma boa canção resulta de boa música e de boa letra é a paráfrase autorizada pelo texto.
E
Errada
Está errada por inverter o sentido textual. O cronista afirma que a letra, lida no papel e sem acompanhamento musical, pode ser considerada insípida; ele não afirma que a música sem letra se torne descolorida e insossa. A alternativa desloca o juízo de um elemento para outro e altera a direção da avaliação.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: desviar o foco da qualidade da canção para a discussão sobre poema e inverter a direção do argumento, como se o texto falasse da música sem letra, quando fala da letra separada da canção.
Dica para questões semelhantes
  • Localize no texto o trecho em que o autor define explicitamente a relação entre os elementos comparados; aqui, a letra vale pela contribuição à obra lítero-musical.
  • Não troque o foco do comando da questão: a pergunta é sobre a qualidade da canção, não sobre a natureza do poema.
  • Elimine alternativas que neguem informação expressa do texto ou que introduzam ideia não mencionada, como acaso ou sorte.
  • Aceite a alternativa que faz paráfrase fiel do texto, mesmo que a formulação não esteja literal.

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