Questão 91882a1e-af
Prova:UNESP 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Com o termo unidade humana, empregado no penúltimo período
do terceiro parágrafo, Drummond sugere que
Com o termo unidade humana, empregado no penúltimo período
do terceiro parágrafo, Drummond sugere que
Instrução: A questão a seguir toma por base
uma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987).
A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um
projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem
pais.
A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda
a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação
artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos
(resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial
(resultado moral).
O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar-se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em
ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão,
amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou
ódio – o ligará a qualquer pessoa responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional
e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao
gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente
do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade
humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo
perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado.
Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia
realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela
– o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à
vida isenta de compromissos com valores do passado. Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de
eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de
padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de
relações.
(De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.)
Instrução: A questão a seguir toma por base
uma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987).
A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um
projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem
pais.
A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda
a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação
artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos
(resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial
(resultado moral).
O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar-se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em
ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão,
amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou
ódio – o ligará a qualquer pessoa responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional
e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao
gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente
do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade
humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo
perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado.
Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia
realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela
– o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à
vida isenta de compromissos com valores do passado.
Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de
eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de
padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de
relações.
(De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.)
A
cada ser humano será como um produto industrial qualquer.
B
cada indivíduo já nascerá como um democrata por natureza.
C
não haverá diferença de sexo entre as pessoas.
D
os homens se tornarão solidários e dotados de livre arbítrio.
E
a população mundial agirá como se fosse um só ser.
Gabarito comentado
V
Vitor CarvalhoMonitor com apoio de IA
Gabarito: A
Fundamento decisivo: O critério decisivo é o sentido contextual de “unidade humana” no trecho: “Estará abolida, assim, qualquer participação consciente do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos”. A expressão, articulada a “será produzida” e ao vocabulário de fabricação, indica o ser humano como resultado de produção técnica e impessoal, o que sustenta a alternativa A.
Tema central: sentido contextual de “unidade humana”
Análise das alternativas
A
Certa
A alternativa A está correta porque, no contexto de “fabricação do ser humano sem pais” e de produção “sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos”, “unidade humana” designa cada ser humano como exemplar produzido, com efeito de objetificação.
B
Errada
A alternativa introduz um sentido político inexistente no trecho. A expressão “critérios políticos e econômicos” não se refere à formação de um “democrata por natureza”, mas ao controle técnico e impessoal da produção humana. Há extrapolação sem base textual.
C
Errada
O texto menciona a exclusão da participação consciente do “homem e da mulher” no processo reprodutivo, mas não afirma desaparecimento das diferenças sexuais. “Unidade humana” não trata de sexo biológico; trata da produção artificial de cada ser humano.
D
Errada
A alternativa contraria o sentido do trecho. O texto não associa a produção artificial a solidariedade nem a livre-arbítrio; ao contrário, fala em produção sob “critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos”, o que indica controle e despersonalização, não autonomia humana.
E
Errada
A leitura de “unidade” como união da humanidade é incompatível com o contexto imediato. No trecho, “unidade humana” designa cada exemplar humano produzido, em lógica de item contável e padronizado, não a população mundial agindo como um só ser.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler “unidade” como união, coletividade ou harmonia. Mas o contexto do parágrafo é de “fabricação”, “produzida” e “critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos”, o que impõe o sentido de item humano padronizado e impessoal.
Dica para questões semelhantes
- Leia a expressão pedida dentro do campo lexical do parágrafo, não pelo sentido isolado da palavra.
- Quando o comando disser “sugere”, faça apenas inferência sustentada pelo trecho imediato.
- Se o texto usa verbos como “fabricar” e “produzir”, verifique se o termo analisado participa dessa lógica de objetificação.
- Desconfie de alternativas que projetam valores positivos, ideológicos ou biológicos sem apoio textual direto.






