Questão 91803d17-af
Prova:UNESP 2013
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Com ironia e fingida concordância, o cronista afirma que o resultado final do projeto encomendado à ciência aplicada será
Com ironia e fingida concordância, o cronista afirma que o resultado final do projeto encomendado à ciência aplicada será
Instrução: A questão a seguir toma por base
uma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987).
A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um
projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem
pais.
A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda
a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação
artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos
(resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial
(resultado moral).
O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar-se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em
ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão,
amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou
ódio – o ligará a qualquer pessoa responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional
e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao
gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente
do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade
humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo
perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado.
Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia
realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela
– o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à
vida isenta de compromissos com valores do passado. Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de
eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de
padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de
relações.
(De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.)
Instrução: A questão a seguir toma por base
uma passagem da crônica O pai, hoje e amanhã, de Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987).
A civilização industrial, entidade abstrata, nem por isso menos poderosa, encomendou à ciência aplicada a execução de um
projeto extremamente concreto: a fabricação do ser humano sem
pais.
A ciência aplicada faz o possível para aviar a encomenda
a médio prazo. Já venceu a primeira etapa, com a inseminação
artificial, que, de um lado, acelera a produtividade dos rebanhos
(resultado econômico) e, de outro, anestesia o sentimento filial
(resultado moral).
O ser humano concebido por esse processo tanto pode considerar-se filho de dois pais como de nenhum. Em fase mais evoluída, o chamado bebê de proveta dispensará a incubação em
ventre materno, desenvolvendo-se sob condições artificiais plenamente satisfatórias. Nenhum vínculo de memória, gratidão,
amor, interesse, costume – direi mesmo: de ressentimento ou
ódio – o ligará a qualquer pessoa responsável por seu aparecimento. O sêmen, anônimo, obtido por masturbação profissional
e recolhido ao banco especializado, por sua vez cederá lugar ao
gerador sintético, extraído de recursos da natureza vegetal e mineral. Estará abolida, assim, qualquer participação consciente
do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade
humana. Esta será produzida sob critérios políticos e econômicos tecnicamente estabelecidos, que excluem a inútil e mesmo
perturbadora intromissão do casal. Pai? Mito do passado.
Aparentemente, tal projeto parece coincidir com a tendência, acentuada nos últimos anos, de se contestar a figura tradicional do pai. Eliminando-se a presença incômoda, ter-se-ia
realizado o ideal de inúmeros jovens que se revoltam contra ela
– o pai de família e o pai social, o governo, a lei – e aspiram à
vida isenta de compromissos com valores do passado.
Julgo ilusória esta interpretação. O projeto tecnológico de
eliminação do pai vai longe demais no caminho da quebra de
padrões. A meu ver, a insubmissão dos filhos aos pais é fenômeno que envolve novo conceito de relações, e não ruptura de
relações.
(De notícias e não notícias faz-se a crônica, 1975.)
A
a prova de que a ciência é mais poderosa que qualquer divindade.
B
o monopólio genético, com um só país produzindo a população.
C
a eliminação das diferenças culturais no planeta.
D
a exclusão dos pais na geração de bebês.
E
a criação de androides, que substituirão os seres humanos.
Gabarito comentado
V
Vinicius LimaMonitor com apoio de IA
Gabarito: D
Fundamento decisivo: O comando pede o resultado final do projeto encomendado à ciência aplicada, e o texto o nomeia de modo literal: "a fabricação do ser humano sem pais. [...] Estará abolida, assim, qualquer participação consciente do homem e da mulher no preparo e formação de uma unidade humana." Esse enunciado textual é o critério que conduz à alternativa correta.
Tema central: geração sem pais
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa introduz uma comparação inexistente no texto: não há afirmação de que a ciência seja mais poderosa que qualquer divindade. O trecho critica um projeto tecnológico e seu alcance, mas não formula tese metafísica nem hierarquia entre ciência e divindade. Trata-se de extrapolação interpretativa sem apoio textual.
B
Errada
A alternativa erra por trocar o eixo temático do texto. O texto fala em "pais" como figuras parentais, não em "país". Além disso, a ideia de "monopólio genético" por um único país não aparece em nenhum momento. É uma leitura indevida por semelhança gráfica e por inserção de conteúdo alheio ao trecho.
C
Errada
O texto não trata de eliminação de diferenças culturais nem de homogeneização do planeta. O foco está nas relações de filiação e na supressão da participação do homem e da mulher na geração humana. A alternativa generaliza o tema para um campo que o texto não aborda.
D
Certa
A alternativa D é a única que parafraseia com fidelidade o núcleo do texto. O cronista afirma expressamente que o projeto visa à "fabricação do ser humano sem pais" e, em sua fase final, prevê que fique abolida "qualquer participação consciente do homem e da mulher" na formação de uma unidade humana. Portanto, o resultado final apontado no trecho é a retirada dos pais do processo de geração, e não outra consequência indireta ou inventada.
E
Errada
A alternativa substitui indevidamente o referente textual. O trecho continua falando de "ser humano" e de "unidade humana", embora produzidos artificialmente. Não há menção à criação de androides nem à substituição dos seres humanos por máquinas.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: a proximidade gráfica entre "pais" e "país" na alternativa B e o efeito da ironia, que pode levar o candidato a procurar uma conclusão indireta, quando o texto enuncia literalmente o resultado final do projeto.
Dica para questões semelhantes
- Quando o comando pedir resultado final, separe o objetivo central do texto das etapas intermediárias mencionadas no desenvolvimento.
- Em texto com ironia, mantenha o conteúdo afirmado e identifique que a ironia critica esse conteúdo, mas não o substitui.
- Elimine alternativas que introduzem temas não nomeados no trecho, como divindade, país, cultura planetária ou androides.
- Se houver uma formulação literal no texto que corresponda a uma alternativa, ela tem mais força do que inferências amplas ou associações vagas.






