Questão 90b03c3e-e7
Prova:UNB 2012
Disciplina:Filosofia
Assunto:

No âmbito de uma ciência empírica, como a física, elimina-se a dúvida quando se evidenciam, por meio de verificação experimental, as relações existentes entre os componentes de um fenômeno natural.

       A dúvida pode significar o fim de uma fé, ou pode significar o começo de outra. Em dose moderada, estimula o pensamento. Em excesso, paralisa-o. A dúvida, como exercício intelectual, proporciona um dos poucos prazeres puros, mas, como experiência moral, ela é uma tortura. Aliada à curiosidade, é o berço da pesquisa e assim de todo conhecimento sistemático. Em estado destilado, mata toda curiosidade e é o fim de todo conhecimento.
       O ponto de partida da dúvida é sempre uma fé, uma certeza.A fé é, pois, o estado primordial do espírito. O espírito “ingênuo” e “inocente” crê. Essa ingenuidade e inocência se dissolvem no ácido corrosivo da dúvida, e o clima de autenticidade se perde irrevogavelmente. As tentativas dos espíritos corroídos pela dúvida de reconquistar a autenticidade, a fé original, não passam de nostalgias frustradas em busca da reconquista do paraíso perdido. As certezas originais postas em dúvida nunca mais serão certezas autênticas. Tal dúvida, metodicamente aplicada, produzirá novas certezas, mais refinadas e sofisticadas, mas essas certezas novas não serão autênticas. Conservarão sempre a marca da dúvida que lhes serviu de parteira.
       A dúvida, portanto, é absurda, pois substitui a certeza autêntica pela certeza inautêntica. Surge, portanto, a pergunta: “por que duvido?” Essa pergunta é mais fundamental do que a outra: “de que duvido?” Trata-se, portanto, do último passo do método cartesiano: duvidar da dúvida — duvidar da autenticidade da dúvida. A pergunta “por que duvido?” engendra outra: “duvido mesmo?”
       Descartes, e com ele todo o pensamento moderno, parece não dar esse último passo. Aceita a dúvida como indubitável
Vilém Flusser. A dúvida. São Paulo: Editora Annablume, 2011, p. 21-2 (com adaptações).

Tendo o texto acima como referência inicial, julgue os itens de 110 a 118, assinale a opção correta no item 119, que é do tipo C, e faça o que se pede no item 120, que é do tipo D.

C
Certo
E
Errado

Gabarito comentado

M
Manuela Cardoso Monitor do Qconcursos

Resposta: E — errado

Tema central: trata-se da natureza da dúvida e do status epistemológico do conhecimento científico. A afirmação diz que, em ciências empíricas como a física, a dúvida é eliminada pela verificação experimental — tese que confunde confirmação prática com certeza absoluta.

Resumo teórico e justificativa: a ciência empírica não elimina definitivamente a dúvida; ela reduz incertezas mediante evidência, mas permanece provisória e passível de revisão. Dois argumentos clássicos sustentam isso:

  • Problema da indução (Hume): observações repetidas não garantem uma conclusão universal com certeza lógica — resultados passados não asseguram que o mesmo sempre ocorrerá.
  • Falibilismo e falsificacionismo (Popper): a ciência progride por tentativas de refutação; experimentos podem refutar teorias, mas não as tornam indubitáveis ao confirmá‑las. A confirmação aumenta a confiança, não elimina a dúvida.
  • Tese Duhem‑Quine: um teste experimental verifica um complexo conjunto de hipóteses; um fracasso experimental pode dever‑se a pressupostos auxiliares, não necessariamente à hipótese central — isso impede certeza absoluta a partir de um único experimento.

Exemplo prático: a física newtoniana foi verificada com enorme sucesso por séculos, mas não eliminou a dúvida: fenômenos em altas velocidades/campos fortes revelaram limites e deram lugar à relatividade. Assim, evidência experimental robusta confirma e corrige teorias, sem nunca torná‑las indubitáveis.

Estratégia para interpretação de enunciados: desconfie de termos absolutos como "elimina-se", "certeza" e "sempre". Em questões sobre método científico, prefira respostas que reconheçam o caráter provisório e falível do conhecimento empírico.

Fontes sugeridas: David Hume, Enquiry Concerning Human Understanding; Karl Popper, Conjectures and Refutations; discussões sobre o problema de Duhem‑Quine (literatura de filosofia da ciência).

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