Questão 8fff6cad-12
Prova:UNICENTRO 2011
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Desce a península, mas desce devagar. Os sábios, ainda que com muita prudência, preveem que o movimento está prestes a cessar, fiados da universal evidência de que se o todo, como tal, nunca para as partes que o compõem hão de parar alguma vez, sendo demonstração deste axioma a vida humana, riquíssima, como se sabe, em possibilidades comparativas. Com tal anúncio da ciência, nasceu o jogo do século, uma ideia que terá surgido praticamente ao mesmo tempo em todo o mundo, e que consistiu no estabelecimento de um sistema de aposta dupla sobre o momento e o lugar em que se verificará a suspensão do movimento, uma hipótese para se compreender melhor, às dezassete horas, trinta e três minutos e quarenta e nove segundos, hora local do apostador, claro está, e o dia, mês e ano, e as coordenadas, limitadas à indicação do meridiano, em graus, minutos e segundos, servindo como referência o já mencionado cabo Creus. Estavam em causa triliões de dólares, e se alguém viesse a acertar em ambos os resultados, isto é, o preciso momento e o exacto lugar, o que, segundo o cálculo de probabilidades era pouco menos que impensável, essa pessoa de uma presciência quase divina ver-se-ia de posse da maior riqueza que alguma vez foi possível reunir sobre a face de uma terra que tem visto tantas. Compreende-se que nunca tenha havido jogo mais terrível do que este, porque em cada minuto que passa, em cada milha percorrida, vai-se reduzindo o número de apostadores com probabilidades de ganhar, devendo em todo o caso notar-se que muitos dos excluídos voltam a apostar, fazendo assim crescer o bolo a cifras que já são astronômicas. Claro que nem todas as pessoas conseguem reunir dinheiro para uma nova aposta,claro que muitas delas não encontram outra saída para o estado de ruína em que caíram que não seja o suicídio.
SARAMAGO. José. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 181-182.
A partir da leitura do fragmento e da obra “Jangada de pedra” em sua totalidade, analise as afirmações, assinalando V para as verdadeiras e F, para as falsas.
( ) O deslocamento da Península Ibérica do restante do continente europeu pode sugerir a indiferença da sociedade europeia em relação às nações ibéricas.
( ) A separação da Península inicia-se a partir do momento em que uma personagem traça uma linha no chão com uma vara de madeira, criando uma analogia imaginária com uma fronteira no mapa.
( ) A expectativa do povo, através das apostas quanto ao lugar e ao momento preciso em que a “Jangada de pedra” iria parar de se deslocar, concretiza-se ao longo do enredo.
( ) O fragmento em destaque evidencia a angústia e as dúvidas do povo ibérico em relação ao deslocamento da Península, ao contrário da postura das autoridades, que já sabiam a solução para o problema.
( ) A “Jangada de pedra”, para os sábios, haveria de parar, pois um dia seria considerada como um novo continente diferente do seu de origem.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
Desce a península, mas desce devagar. Os sábios, ainda que com muita prudência, preveem que o movimento está prestes a cessar, fiados da universal evidência de que se o todo, como tal, nunca para as partes que o compõem hão de parar alguma vez, sendo demonstração deste axioma a vida humana, riquíssima, como se sabe, em possibilidades comparativas. Com tal anúncio da ciência, nasceu o jogo do século, uma ideia que terá surgido praticamente ao mesmo tempo em todo o mundo, e que consistiu no estabelecimento de um sistema de aposta dupla sobre o momento e o lugar em que se verificará a suspensão do movimento, uma hipótese para se compreender melhor, às dezassete horas, trinta e três minutos e quarenta e nove segundos, hora local do apostador, claro está, e o dia, mês e ano, e as coordenadas, limitadas à indicação do meridiano, em graus, minutos e segundos, servindo como referência o já mencionado cabo Creus. Estavam em causa triliões de dólares, e se alguém viesse a acertar em ambos os resultados, isto é, o preciso momento e o exacto lugar, o que, segundo o cálculo de probabilidades era pouco menos que impensável, essa pessoa de uma presciência quase divina ver-se-ia de posse da maior riqueza que alguma vez foi possível reunir sobre a face de uma terra que tem visto tantas. Compreende-se que nunca tenha havido jogo mais terrível do que este, porque em cada minuto que passa, em cada milha percorrida, vai-se reduzindo o número de apostadores com probabilidades de ganhar, devendo em todo o caso notar-se que muitos dos excluídos voltam a apostar, fazendo assim crescer o bolo a cifras que já são astronômicas. Claro que nem todas as pessoas conseguem reunir dinheiro para uma nova aposta,claro que muitas delas não encontram outra saída para o estado de ruína em que caíram que não seja o suicídio.
SARAMAGO. José. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 181-182.
A partir da leitura do fragmento e da obra “Jangada de pedra” em sua totalidade, analise as afirmações, assinalando V para as verdadeiras e F, para as falsas.
( ) O deslocamento da Península Ibérica do restante do continente europeu pode sugerir a indiferença da sociedade europeia em relação às nações ibéricas.
( ) A separação da Península inicia-se a partir do momento em que uma personagem traça uma linha no chão com uma vara de madeira, criando uma analogia imaginária com uma fronteira no mapa.
( ) A expectativa do povo, através das apostas quanto ao lugar e ao momento preciso em que a “Jangada de pedra” iria parar de se deslocar, concretiza-se ao longo do enredo.
( ) O fragmento em destaque evidencia a angústia e as dúvidas do povo ibérico em relação ao deslocamento da Península, ao contrário da postura das autoridades, que já sabiam a solução para o problema.
( ) A “Jangada de pedra”, para os sábios, haveria de parar, pois um dia seria considerada como um novo continente diferente do seu de origem.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
SARAMAGO. José. A jangada de pedra. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 181-182.
A partir da leitura do fragmento e da obra “Jangada de pedra” em sua totalidade, analise as afirmações, assinalando V para as verdadeiras e F, para as falsas.
( ) O deslocamento da Península Ibérica do restante do continente europeu pode sugerir a indiferença da sociedade europeia em relação às nações ibéricas.
( ) A separação da Península inicia-se a partir do momento em que uma personagem traça uma linha no chão com uma vara de madeira, criando uma analogia imaginária com uma fronteira no mapa.
( ) A expectativa do povo, através das apostas quanto ao lugar e ao momento preciso em que a “Jangada de pedra” iria parar de se deslocar, concretiza-se ao longo do enredo.
( ) O fragmento em destaque evidencia a angústia e as dúvidas do povo ibérico em relação ao deslocamento da Península, ao contrário da postura das autoridades, que já sabiam a solução para o problema.
( ) A “Jangada de pedra”, para os sábios, haveria de parar, pois um dia seria considerada como um novo continente diferente do seu de origem.
A alternativa que contém a sequência correta, de cima para baixo, é a
A
F F V F V
B
V F F F V
C
V V F F F
D
F F V V F
E
V V F F V
Gabarito comentado
A
Aníbal Monteiro Monitor com apoio de IA
Gabarito: C
Fundamento decisivo: O critério decisivo é o confronto entre o fragmento e a totalidade da obra, distinguindo previsão prudente, expectativa coletiva e extrapolação indevida: “Os sábios, ainda que com muita prudência, preveem que o movimento está prestes a cessar (...) consistiu no estabelecimento de um sistema de aposta dupla sobre o momento e o lugar em que se verificará a suspensão do movimento (...) Compreende-se que nunca tenha havido jogo mais terrível do que este (...) Claro que muitas delas não encontram outra saída para o estado de ruína em que caíram que não seja o suicídio.” Isso sustenta a sequência V, V, F, F, F e afasta a leitura de solução já conhecida, concretização do acerto ou novo continente.
Tema central: validação de afirmações
Análise das alternativas
A
Errada
A sequência F F V F V erra em quatro pontos decisivos. A 1ª não deve ser marcada como falsa, porque o enunciado usa “pode sugerir”, isto é, admite leitura interpretativa compatível com a obra. A 2ª também não pode ser falsa, pois remete ao episódio desencadeador do enredo. Já a 3ª foi marcada como verdadeira indevidamente: o fragmento registra apostas e expectativa, não a realização do acerto. A 5ª também foi indevidamente tomada como verdadeira, porque o texto não associa a parada da península ao reconhecimento dela como novo continente.
B
Errada
A sequência V F F F V só acerta a 1ª, a 3ª e a 4ª. O erro está na 2ª e na 5ª. A 2ª contraria a totalidade da obra, pois o risco no chão com a vara é precisamente o fato narrativo que desencadeia simbolicamente a separação. A 5ª extrapola o texto: os sábios apenas preveem que o movimento vai cessar; não afirmam que isso ocorrerá porque a península passaria a ser considerada um novo continente.
C
Certa
A alternativa C é a única que respeita, ao mesmo tempo, o que o fragmento diz e o que a obra autoriza. A 1ª afirmação é válida porque formula uma possibilidade interpretativa, marcada por “pode sugerir”, compatível com a leitura alegórica do romance sobre o distanciamento europeu em relação às nações ibéricas. A 2ª é verdadeira porque corresponde ao fato desencadeador do enredo na obra: o gesto de Joana Carda ao riscar o chão com uma vara funciona como imagem inicial da separação. A 3ª é falsa porque o texto mostra expectativa coletiva por meio das apostas, mas não sua concretização; ao contrário, o acerto exato aparece como hipótese “pouco menos que impensável”. A 4ª é falsa porque “preveem” e “com muita prudência” indicam apenas previsão cautelosa dos sábios, não conhecimento de uma solução. A 5ª é falsa porque o raciocínio atribuído aos sábios limita-se à ideia de que o movimento cessará; a conclusão sobre novo continente foi acrescentada indevidamente.
D
Errada
A sequência F F V V F inverte justamente os pontos centrais. A 1ª foi tratada como falsa, mas é uma inferência literária autorizada pelo “pode sugerir”. A 2ª foi tratada como falsa, embora corresponda a um fato do enredo completo. A 3ª foi indevidamente tomada como verdadeira, confundindo expectativa popular com concretização do acerto das apostas. A 4ª também foi marcada como verdadeira sem base, porque o fragmento não mostra autoridades com solução conhecida; mostra apenas sábios que “preveem” “com muita prudência”.
E
Errada
A sequência V V F F V só falha na 5ª, e esse erro basta para eliminá-la. O texto não autoriza afirmar que, para os sábios, a península pararia porque seria considerada um novo continente. Essa relação causal e essa classificação geopolítica não aparecem no fragmento nem podem ser atribuídas aos sábios com base nele.
Pegadinha da questão
A banca explora três confusões reais: tratar “pode sugerir” como se exigisse prova literal, transformar a previsão prudente dos sábios em solução já conhecida e converter a expectativa criada pelas apostas em fato efetivamente realizado no enredo.
Dica para questões semelhantes
- Separe leitura interpretativa autorizada de afirmação literal: quando o item traz “pode sugerir”, o critério é compatibilidade com a obra, não explicitação textual direta.
- Não transforme hipótese ou previsão em fato consumado: “preveem” e “com muita prudência” não equivalem a certeza nem a solução encontrada.
- Quando o comando menciona a obra em sua totalidade, valide cada item também pelo enredo completo, não apenas pelo excerto.
- Controle a extrapolação: se o texto fala apenas em cessação do movimento, não acrescente causa ou consequência que ele não enuncia.






