Questão 8c778a8d-5f
Prova:UFAC 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Observe o parágrafo abaixo:


“O ex-prefeito de Juiz de Fora Carlos Alberto Bejani é mesmo um fenômeno. Em pleno Brasil do ano de 2008, onde tão pouca gente chega a se meter em algum problema mais sério, de verdade, por cometer atos de delinqüência na vida pública, ele conseguiu ser preso duas vezes seguidas, entre abril e junho. Para começar, deixou-se pegar em flagrante, naquele tipo de cena que hoje em dia se tornou um clássico da nossa política: recebendo pacotes de dinheiro vivo, em valor um pouco acima de 1,1 milhão de reais, numa gravação com imagem e som. Ficou catorze dias na cadeia e foi solto, como acontece sempre: e, como acontece sempre, tudo deveria ir acabando por aí. Neste caso, porém, nem mesmo a incomparável proteção que as leis e a justiça brasileira oferecem a gente como o exprefeito foi suficiente para mantê-lo solto. O documento que ele apresentou para justificar a origem do dinheiro – a já tradicional venda de uma ‘fazenda’, variante da venda de bois, cavalos etc. – foi considerado falso. Diante de sua absoluta falta de cuidado com o que dizia enquanto era gravado, ficou claro que o dinheiro lhe fora entregue em troca da concessão de diversos aumentos no preço das passagens municipais de ônibus. Contra todas as expectativas, o homem teve de voltar ao presídio.” (GUZZO, J. R. Agravo x embargo. Veja, São Paulo, 25 jun. 2008. Seções, p. 140) 


O autor utiliza um recurso de repetição no meio do parágrafo (como acontece sempre) que enfatiza um aspecto importante para o reforço da idéia a ser desenvolvida. Isso demonstra, na seqüência, que ele:

A
confia extremamente na justiça brasileira.
B
estabelece uma posição otimista de mudança do panorama judiciário brasileiro.
C
considera irrepreensível a conduta do ex-prefeito em relação a sua posição de defesa.
D
não considera improvável que o ex-prefeito possa deixar de provar a sua inocência.
E
desconfia da capacidade do ex-prefeito de compreender os mecanismos de funcionamento do nosso judiciário para se safar.

Gabarito comentado

A
Ana FernandesMentora Qconcursos

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o efeito argumentativo da repetição com contraste irônico: “Ficou catorze dias na cadeia e foi solto, como acontece sempre: e, como acontece sempre, tudo deveria ir acabando por aí. Neste caso, porém, nem mesmo a incomparável proteção que as leis e a justiça brasileira oferecem a gente como o ex-prefeito foi suficiente para mantê-lo solto.” A repetição reforça a regularidade da impunidade; o “porém” quebra essa expectativa e sustenta a inferência de que o autor critica o sistema e sugere que o ex-prefeito não conseguiu se beneficiar desse padrão, o que confirma a alternativa E.

Tema central: ironia e impunidade
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque inverte o valor avaliativo do texto. O autor não demonstra confiança na justiça brasileira; ele a critica ironicamente ao falar em “incomparável proteção que as leis e a justiça brasileira oferecem a gente como o ex-prefeito”. O sentido é de denúncia de proteção aos poderosos, não de confiança institucional.
B
Errada
Está errada porque transforma um caso apresentado como exceção em sinal de mudança do sistema. O texto marca explicitamente a excepcionalidade com “Neste caso, porém” e “Contra todas as expectativas”. Isso não autoriza leitura otimista sobre mudança do panorama judiciário brasileiro; ao contrário, mantém a crítica ao padrão usual.
C
Errada
Está errada porque o texto em nenhum momento absolve ou elogia a conduta do ex-prefeito. Pelo contrário, afirma que o documento apresentado “foi considerado falso” e menciona sua “absoluta falta de cuidado”. Há juízo negativo sobre sua atuação e sobre sua tentativa de defesa.
D
Errada
Está errada porque desloca o eixo semântico do texto. O parágrafo não discute a possibilidade de o ex-prefeito provar inocência; discute a expectativa de que ele se safasse num sistema descrito como protetor e o fato de isso não ter ocorrido. A alternativa troca a crítica à impunidade por uma questão de prova de inocência, que não é o foco argumentativo do trecho.
E
Certa
A alternativa E é a que acompanha o movimento do texto. A repetição de “como acontece sempre” generaliza ironicamente um padrão: em casos assim, tudo tende a se encerrar sem maiores consequências. Quando o autor acrescenta que, “neste caso, porém”, nem a “incomparável proteção” das leis e da justiça bastou para mantê-lo solto, ele não elogia o Judiciário; ele o acusa de proteger gente como o ex-prefeito. Somado a isso, o trecho “Diante de sua absoluta falta de cuidado com o que dizia enquanto era gravado” atribui ao ex-prefeito despreparo e incapacidade prática de conduzir sua própria situação. Por isso, a inferência correta é que o autor desconfia da capacidade do ex-prefeito de se safar pelos mecanismos habituais de proteção mencionados no parágrafo.
Pegadinha da questão
A banca explora a tendência de ler literalmente a referência à justiça e concluir que o autor a elogia. O texto faz o contrário: usa repetição, ironia e contraste para criticar a impunidade e mostrar que a volta à prisão foi uma exceção, não uma prova de melhora do sistema.
Dica para questões semelhantes
  • Quando uma repetição reaparece em trecho argumentativo, verifique se ela reforça uma regularidade ou expectativa do autor.
  • Se houver conector de contraste, como “porém”, compare o que era esperado antes com o que ocorreu depois; essa virada costuma decidir o sentido.
  • Expressões avaliativas como “incomparável proteção” e “contra todas as expectativas” devem ser lidas no tom global do texto; aqui, o tom é irônico e crítico.
  • Não troque o eixo do texto: se o parágrafo trata de impunidade e de escapar da punição, não deslocue a interpretação para inocência ou legitimidade da defesa.

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