Questão 89adb310-af
Prova:PUC - Campinas 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Nesse trecho, o personagem Mestre Amaro, um dos protagonistas de Fogo morto, revela-se para o leitor como um

Para responder à questão, considere o texto abaixo.


    − É o que lhe digo, seu Laurentino. Você mora na vila. Soube valorizar o seu ofício. A minha desgraça foi esta história de bagaceira. É verdade que senhor de engenho nunca me botou canga. Vivo nesta casa como se fosse dono. Ninguém dá valor a oficial de beira de estrada. Se estivesse em Itabaiana, estava rico. Não é lastimar, não. Ninguém manda no mestre José Amaro. Aqui moro para mais de trinta anos.

(José Lins do Rego. Fogo morto. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1956. p. 32) 

A
agregado da casa grande, íntimo do velho patriarca e saudoso do seu tempo de professor.
B
profissional ao mesmo tempo livre e dependente do grande proprietário.
C
pobre mestre de ofício, desempregado e deslocado na periferia da cidade.
D
pequeno proprietário de terras, ameaçado pela usina que tomará conta das plantações de cana.
E
vaqueiro de ofício, ora submetido a penosas jornadas de trabalho na roça.

Gabarito comentado

C
Carolina RodriguesMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O critério decisivo é semântico-textual: a autocaracterização de Mestre José Amaro combina autonomia pessoal e dependência socioeconômica. Isso aparece em “Você mora na vila. Soube valorizar o seu ofício. [...] É verdade que senhor de engenho nunca me botou canga. Vivo nesta casa como se fosse dono. [...] Ninguém manda no mestre José Amaro.”, de modo que o gabarito é a alternativa que reúne liberdade relativa e dependência estrutural.

Tema central: caracterização do personagem
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra em três pontos sem apoio no excerto: não há caracterização de “agregado da casa grande”, não há sinal de intimidade com “o velho patriarca” e não existe qualquer referência a passado de professor. O texto o define por “ofício” e por “oficial de beira de estrada”, o que exclui essa tipificação.
B
Certa
A alternativa B está correta porque capta os dois traços que o próprio personagem explicita: ele é um profissional, identificado por “Soube valorizar o seu ofício” e por “oficial de beira de estrada”, e, ao mesmo tempo, vive uma condição ambígua de autonomia e dependência. A autonomia aparece em “senhor de engenho nunca me botou canga” e “Ninguém manda no mestre José Amaro”; a dependência aparece em “Você mora na vila” e em “Vivo nesta casa como se fosse dono”, fórmula que não afirma posse real, mas uma situação apenas comparativa. O acerto da alternativa está justamente em não absolutizar nem a liberdade nem a submissão.
C
Errada
A alternativa introduz “desempregado” e “periferia da cidade”, mas o trecho não autoriza nenhuma dessas afirmações. Ao contrário, o personagem se apresenta como homem de ofício, o que afasta a ideia de desemprego, e os referentes espaciais são “vila” e “beira de estrada”, ligados ao universo do engenho, não à periferia urbana.
D
Errada
A alternativa contraria diretamente o valor semântico de “como se fosse dono”: essa construção não afirma que ele seja dono, apenas compara sua situação à de um dono. Além disso, o excerto não menciona terras próprias, plantações de cana nem ameaça de usina. A leitura como pequeno proprietário é infiel ao trecho.
E
Errada
A alternativa nomeia uma profissão que o texto não menciona. O personagem é associado a “ofício” e a “oficial de beira de estrada”, não a vaqueiro. Também não há no excerto referência a jornadas na roça. Trata-se de generalização indevida do universo rural para uma função específica não textualizada.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a autodeclaração de independência — “Ninguém manda no mestre José Amaro” — e uma independência plena. O próprio trecho impede isso ao mostrar que ele “mora na vila” e “Vivo nesta casa como se fosse dono”, isto é, tem autonomia afirmada, mas dentro de uma inserção dependente.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o personagem se define pela própria fala, extraia primeiro os traços explícitos dessa autocaracterização antes de aceitar rótulos das alternativas.
  • Se a alternativa acrescenta profissão, posição social ou passado não mencionado no excerto, elimine-a por extrapolação.
  • Observe expressões comparativas como “como se fosse”: elas podem sugerir aparência ou condição relativa, não fato literal.
  • Em questões de interpretação, una os indícios que parecem tensionados no texto; aqui, liberdade pessoal e dependência material coexistem.

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