Questão 897d23f4-af
Prova:PUC - Campinas 2010
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Deve-se depreender da leitura desse trecho que o narrador machadiano

Para responder à questão, considere o texto abaixo.

     Nas poucas vezes em que o narrador de Machado de Assis abordou diretamente o tema da escravidão, foi contundente e incisivo, a seu modo. Em vez de acusar os horrores da condição e dos castigos que se impunham ao escravo, preferia tratá-los com irônica candura, como se fossem trivialidades aceitáveis. Colocava no mesmo pé a razão de fuga do escravo e a de quem tinha como ofício capturá-lo sob recompensa, isto é, movido por uma necessidade, razão não menos nobre... Na estratégia machadiana, apresentar como natural a brutalidade humana é um modo eficaz de acentuar a barbárie e provocar a indignação do leitor.
(Celso de Oliveira, de um estudo inédito) 

A
afirma o sentido exclusivo e rigoroso do que entende como um ato de nobreza.
B
mostra-se compreensivo com as razões pelas quais se assume um ofício pouco dignificante.
C
abomina as ações que implicam violência desnecessária contra o escravo.
D
relata com repulsa a forma pela qual os escravos fugidos eram recapturados.
E
considera que a ordem social pode ser comprometida pela desordem jurídica.

Gabarito comentado

F
Felipe SantosMonitor com apoio de IA

Gabarito: B

Fundamento decisivo: O comando pede inferência textual, e o trecho "Colocava no mesmo pé a razão de fuga do escravo e a de quem tinha como ofício capturá-lo sob recompensa, isto é, movido por uma necessidade, razão não menos nobre..." autoriza concluir que o narrador trata com aparente compreensão a motivação de quem assume esse ofício. Essa leitura sustenta a alternativa B e afasta as demais, que extrapolam o texto ou atribuem repulsa e condenação explícitas inexistentes.

Tema central: ironia e compreensão aparente do narrador
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque o texto não atribui ao narrador uma definição "exclusiva e rigorosa" de nobreza. A expressão "razão não menos nobre..." aparece dentro de uma construção irônica e de equiparação aparente de motivações, não como formulação conceitual rígida sobre o que seja nobreza.
B
Certa
A alternativa B está correta porque traduz exatamente a inferência autorizada pelo trecho em que o narrador equipara, por ironia, a razão do escravo que foge e a de quem o recaptura por recompensa, apresentando este último como "movido por uma necessidade". Isso sustenta a ideia de que ele se mostra compreensivo com as razões de quem assume um ofício pouco dignificante. O próprio texto esclarece que essa compreensão integra uma estratégia irônica de naturalização aparente da brutalidade, e não aprovação moral direta.
C
Errada
Está errada porque troca crítica indireta por condenação explícita. O texto diz que o narrador não acusa frontalmente os horrores; ao contrário, "preferia tratá-los com irônica candura". Além disso, a alternativa introduz "violência desnecessária", formulação que não aparece no trecho.
D
Errada
Está errada porque fala em relato "com repulsa", mas o texto afirma precisamente o oposto quanto ao tom narrativo: o narrador tratava o tema com "irônica candura, como se fossem trivialidades aceitáveis". A repulsa não é a forma de relato atribuída ao narrador.
E
Errada
Está errada por extrapolação temática. O trecho não menciona "ordem social", "desordem jurídica" nem qualquer comprometimento institucional. A questão está centrada na postura discursiva do narrador diante da escravidão e do ofício de capturar escravos fugidos.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre a ironia do narrador e uma condenação frontal: quem ignora a "irônica candura" tende a marcar alternativas de repulsa explícita ou de juízo moral direto, quando o texto descreve uma compreensão aparente usada como estratégia crítica.
Dica para questões semelhantes
  • Quando o comando pedir para "depreender", procure a inferência autorizada pelo texto, não uma conclusão temática ampla.
  • Se o texto marcar ironia, não leia literalmente expressões valorativas isoladas, como "razão não menos nobre...".
  • Separe o tom do narrador do efeito produzido no leitor: aqui, a indignação do leitor não significa repulsa explícita na voz do narrador.

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