Leia um trecho do poema A Flor e a Náusea.
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
[....]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas
da tarde
E lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas
em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo
e o ódio.
ANDRADE, C. D. Antologia Poética. Rio de Janeiro. José Olympio, 1978
A partir da leitura do trecho de A Flor e a Náusea, poema
do modernista Carlos Drummond de Andrade, assinale
a alternativa em que o conceito é adequado à temática
apresentada nos versos.
Leia um trecho do poema A Flor e a Náusea.
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas,
alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
[....]
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
E lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
ANDRADE, C. D. Antologia Poética. Rio de Janeiro. José Olympio, 1978
A partir da leitura do trecho de A Flor e a Náusea, poema do modernista Carlos Drummond de Andrade, assinale a alternativa em que o conceito é adequado à temática apresentada nos versos.
Gabarito comentado
Tema central: Interpretação de Texto
Esta é uma questão clássica sobre interpretação de texto e semântica: pede-se ao candidato que relacione sentimentos e conceitos presentes ao longo do poema A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade, ao significado de palavras-chave (esperança, disciplina, dissimulação etc.).
Em interpretação textual, segundo Bechara e também Cunha & Cintra, é fundamental perceber o sentido global do texto: em vez de fixar-se em detalhes isolados, deve-se captar a ideia central que permeia ou transforma o poema.
No trecho apresentado, o eu lírico descreve inicialmente um cenário opressivo (“rua cinzenta”, “melancolia”, “fezes, maus poemas”), mas, de modo surpreendente, “uma flor nasceu na rua!” – metáfora de algo belo, vivo e resistente surgindo em meio à dureza. Essa flor resiste, rompe o asfalto, ilude a repressão e indica possibilidade de mudança.
Alternativa Correta – C) Esperança
Esperança é o sentimento predominante ao final: a flor simboliza uma abertura para o novo, para a transformação. O eu lírico, apesar do ambiente hostil, percebe a possibilidade de renovação. De acordo com a semântica normativa, “esperança” é a “confiança em algo promissor” (Bechara, Moderna Gramática Portuguesa), encaixando-se perfeitamente nesse contexto.
Por que as outras estão erradas?
- Disciplina: O poema não exalta obediência nem postura submissa; há crítica à rotina e ao conformismo.
- Dissimulação: O eu lírico não esconde seus sentimentos; expõe suas emoções e reações de forma explícita.
- Nostalgia: Não há menção à saudade do passado; o foco está na transformação do presente.
- Resignação: Em vez de aceitação passiva (“resignação”), o surgimento da flor sugere resistência e superação.
Dica de prova: Ao encontrar palavras-chave nos textos poéticos, relacione-as sempre à ideia central, observando metáforas e a evolução dos sentimentos do eu lírico. Questões assim valorizam mais o conjunto de sentidos do que o significado literal de fragmentos.
Portanto, a alternativa correta é C) Esperança. O poema não apresenta resignação, nostalgia ou disciplina exacerbadas, mas sim a fé na possibilidade de mudança, simbolizada pela flor.
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