Questão 809493e8-df
Prova:UFMT 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Dom Pedro Casaldáliga, padre espanhol radicado na região de São Félix do Araguaia, é representativo de uma poética que, engajada, encoraja a luta contra o silêncio e a dominação, como exemplifica o texto Dá-nos a tua paz!, de Cantigas menores, obra publicada em 1979.


Dá-nos, Senhor, aquela Paz estranha

que brota em plena luta

como uma flor de fogo;

que rompe em plena noite

como um canto escondido;

que chega em plena morte

como beijo esperado.


Dá-nos a Paz dos que caminham sempre,

nus de toda vantagem,

vestidos pelo vento da Esperança.


Aquela Paz dos Pobres,

vencedores do medo.

Aquela Paz dos Livres,

amarrados à vida.


A Paz que se partilha na igualdade,

como a água e a Hóstia.


Aquela Paz do Reino, que vem vindo,

inviável e certo.


Dá-nos a Paz, a outra Paz, a tua,

Tu que és nossa Paz!


Em relação ao sentido da expressão aquela Paz estranha, primeiro verso, marque V para as afirmativas verdadeiras e F para as falsas.


( ) Limita-se ao conceito de paz interior, individual, intransferível.

( ) É concedida ao homem, gratuitamente, como bênção divina.

( ) Emerge da revolução, vez que brota em plena luta.

( ) É flor de fogo que, necessária, ilumina, dá brilho, dá vida.

( ) É diferente, porque vem da luta e não da prece.


Assinale a seqüência correta.

A
F, F, V, V, F
B
V, V, V, F, F
C
V, V, F, F, V
D
F, F, V, V, V
E
V, F, F, V, V

Gabarito comentado

J
Jair CaldeiraMonitor com apoio de IA

Gabarito: D

Fundamento decisivo: O critério decisivo é a leitura contextual de "aquela Paz estranha" a partir do poema, especialmente de "que brota em plena luta" e de "A Paz que se partilha na igualdade". Esses trechos orientam a interpretação da expressão como uma paz paradoxal, ligada à luta, à partilha e à dimensão coletiva, o que sustenta a sequência F, F, V, V, V.

Tema central: sentido de paz
Análise das alternativas
A
Errada
Está errada porque marca a 5ª assertiva como falsa. Pela base adotada na correção oficial, a expressão "Paz estranha" é diferente exatamente por "brotar em plena luta". A alternativa até acerta 1ª e 2ª como falsas e 3ª e 4ª como verdadeiras, mas cai no ponto decisivo que distingue a sequência oficial.
B
Errada
Está errada em três pontos objetivos. A 1ª não pode ser verdadeira, porque o poema afasta a leitura individualista ao falar em "Aquela Paz dos Pobres", "Aquela Paz dos Livres" e "A Paz que se partilha na igualdade". A 2ª não pode ser verdadeira, porque o texto não define essa paz como dom "gratuitamente" concedido, mas a associa a condição histórica de luta, esperança e partilha. A 4ª não pode ser falsa, porque "como uma flor de fogo" é metáfora valorizadora da paz.
C
Errada
Está errada porque contraria diretamente o texto em quatro afirmações. A 1ª é falsa no poema, não verdadeira, pela dimensão coletiva da paz. A 2ª também é falsa, pois a ideia de concessão "gratuitamente" não está formulada no texto. A 3ª não pode ser falsa diante do verso literal "que brota em plena luta". A 4ª não pode ser falsa porque a imagem "flor de fogo" sustenta leitura positiva e intensa da paz.
D
Certa
A alternativa D é a correta porque corresponde à leitura sustentada pelo próprio poema. A 1ª assertiva é falsa, já que a paz não é interior e intransferível: ela é "dos Pobres", "dos Livres" e "se partilha na igualdade". A 2ª também é falsa, porque, embora a paz seja pedida a Deus, a formulação "gratuitamente, como bênção divina" extrapola o texto, que a vincula à luta, à esperança e à partilha. A 3ª é verdadeira, pois o verso "que brota em plena luta" liga diretamente essa paz ao enfrentamento. A 4ª é verdadeira, porque "como uma flor de fogo" é imagem positiva de força vital, intensidade e brilho. A 5ª, conforme o gabarito oficial, é verdadeira porque o poema não opõe luta e prece, mas os articula na construção dessa paz.
E
Errada
Está errada porque marca a 1ª assertiva como verdadeira e a 4ª como falsa. A 1ª é incompatível com o campo semântico coletivo do poema: essa paz é partilhada, ligada aos pobres, aos livres e à igualdade, não algo individual e intransferível. A 4ª é incompatível com a metáfora "como uma flor de fogo", que atribui à paz força vital, claridade e intensidade, e não valor negativo ou nulo.
Pegadinha da questão
A banca explora duas confusões reais: reduzir "paz" a estado íntimo individual e opor prece e luta, quando o poema constrói uma paz ao mesmo tempo pedida a Deus e nascida "em plena luta".
Dica para questões semelhantes
  • Fixe o sentido da expressão pedida pelas imagens que a cercam, não por uma ideia abstrata da palavra isolada.
  • Quando o texto traz marcas como "dos Pobres", "dos Livres" e "se partilha na igualdade", descarte leituras puramente individualistas.
  • Desconfie de alternativas que acrescentam termos não formulados no texto, como "gratuitamente", se isso muda o alcance do sentido.
  • Em poemas com paradoxos, leia "estranha" como qualificação contextual da experiência, não como traço automaticamente negativo.

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