Questão 807e71ef-df
Prova:UFMT 2008
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Com base no texto de Machado de Assis, assinale a afirmativa correta.

Leia trecho de Dom Casmurro, de Machado de Assis, para responder à questão. 


A DENÚNCIA


    Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. A casa era a da Rua de Matacavalos. O mês novembro, o ano é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas à minha vida só para agradar as pessoas que não amam histórias velhas; o ano era de 1857.

    – D. Glória, a senhora persiste na idéia de meter o nosso Bentinho no seminário? É mais que tempo, e já agora pode haver uma dificuldade.

    – Que dificuldade?

    – Uma grande dificuldade.

    Minha mãe quis saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veio ver se havia alguém no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a dificuldade estava na casa ao pé, a gente do Pádua.

    – A gente do Pádua?

    – Há algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande metido nos cantos com a filha do Tartaruga, e esta é a dificuldade, porque se eles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separá-los.

    – Não acho. Metidos nos cantos?

    – É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quase que não sai de lá. A pequena é uma desmiolada; o pai faz que não vê; tomara ele que as coisas andassem de tal maneira, que... Compreendo o seu gesto, a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida...

    – Mas, Sr. José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a idade: Bentinho mal tem quinze anos. Capitu fez quatorze à semana passada; são dois criançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquela grande enchente, há dez anos, em que a família do Pádua perdeu tanta coisa; daí vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer?... Mano Cosme, você que acha?

    Tio Cosme respondeu com um “Ora!” que, traduzido em vulgar, queria dizer. “São imaginações de José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?”

     – Sim, creio que o senhor está enganado.

     – Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar... ......................................................................................................................................................................................................................

José Dias desculpava-se: “Se soubesse, não tinha falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo afeto, para cumprir um dever amargo, um dever amaríssimo...” 

A
Tio Cosme acoberta o namoro de Bentinho com Capitu e por isso desdenha a opinião de José Dias.
B
Por reconhecer que sua suspeita não tem fundamento, José Dias acaba pedindo desculpas.
C
Bentinho sabe que reconhecer que se enganou é, para José Dias, um dever amargo, um dever amaríssimo...
D
Há indicativos de que entre o narrador e Bentinho haja uma distância temporal curtíssima.
E
Bentinho é narrador participante dos eventos que compõem o enredo de Dom Casmurro.

Gabarito comentado

J
João Costa Monitor com apoio de IA

Gabarito: E

Fundamento decisivo: O critério decisivo é o foco narrativo em primeira pessoa com rememoração da própria vida: “Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta. [...] o ano era de 1857.” Nesse trecho, quem narra age dentro da cena e, ao mesmo tempo, recorda de um passado remoto de sua própria trajetória; por isso, Bentinho é narrador participante dos fatos narrados.

Tema central: foco narrativo
Análise das alternativas
A
Errada
A alternativa erra por inferência indevida. O texto não autoriza afirmar que Tio Cosme acoberta um namoro. O que aparece é sua descrença na suspeita de José Dias: o “Ora!” traduzido pelo narrador indica que ele toma a denúncia como imaginação ou exagero. Desdenhar a suspeita não equivale a proteger conscientemente um namoro comprovado.
B
Errada
A alternativa distorce o valor semântico da fala de José Dias. Ele não reconhece que sua suspeita era sem fundamento; ao contrário, preserva essa possibilidade ao dizer: “Pode ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar...”. As desculpas finais não funcionam como admissão inequívoca de erro, mas como autolegitimação do ato de denunciar “pela veneração, pela estima, pelo afeto”.
C
Errada
A alternativa erra o referente da expressão citada. “um dever amargo, um dever amaríssimo...” aparece como justificativa de José Dias para ter feito a denúncia, não como referência ao reconhecimento de que se enganou. Além disso, não há base para afirmar que Bentinho sabe disso nos termos formulados pela alternativa. O problema é de reinterpretação indevida da fala citada.
D
Errada
A alternativa contraria marcas explícitas de temporalidade retrospectiva. O narrador diz que o ano é “um tanto remoto”, menciona “histórias velhas” e fixa o episódio em 1857. Esses elementos mostram distância temporal significativa entre o eu que narra e o Bentinho adolescente narrado, não uma distância “curtíssima”.
E
Certa
A alternativa E se sustenta nas marcas textuais de primeira pessoa associadas a ações vividas pelo próprio narrador: ele “ouvi[u]” e “escondi[-se] atrás da porta”. Além disso, ao afirmar que não trocará “as datas à minha vida” e ao situar o episódio em 1857, o texto mostra que o narrador rememora um fato antigo de sua própria existência. Logo, não se trata de alguém narrando a vida de Bentinho de fora, mas do próprio Bentinho narrando acontecimentos de que participou.
Pegadinha da questão
A banca explora a confusão entre o Bentinho personagem adolescente e o narrador que recorda esse passado: são o mesmo sujeito em tempos diferentes. Quem não percebe essa narração retrospectiva pode errar tanto a alternativa correta quanto a noção de distância temporal.
Dica para questões semelhantes
  • Localize primeiro as marcas de pessoa verbal e pronominal para identificar quem narra e se esse narrador participa da ação.
  • Observe expressões de memória e datação do passado; elas mostram a distância entre o tempo da narração e o tempo narrado.
  • Não transforme fala diplomática ou hesitante em confissão clara; verifique se o texto mantém ou abandona a suspeita.
  • Evite atribuir intenção psicológica sem apoio textual explícito, como acobertamento, proteção ou reconhecimento de erro.

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