Questão 7b50c898-b0
Prova:UNICENTRO 2010
Disciplina:Filosofia
Assunto:

Em seu ensaio Desumanização da arte, onde estuda as mudanças profundas que a arte experimenta em nossos dias, Ortega y Gasset propõe este paradoxo: a arte atual é aquela que não existe. Com essa frase contundente, mas que é mais que um simples jogo de palavras, o pensador espanhol chama a atenção para o fato de que as manifestações artísticas contemporâneas estão desligadas do passado”. (NUNES, B. Introdução à filosofia da arte. 5 ed. São Paulo: Ática, 2002.)


Qual das alternativas abaixo NÃO caracteriza o paradoxo acima enunciado?

A
Cortadas as ligações com o passado, a arte só de sua atualidade dispõe. É como se ela estivesse sempre nascendo, para viver, repetidas vezes, o instante precário e tumultuoso da gestação.
B
O pensador espanhol observa que o esforço artístico em nossos dias se processa em ritmo de laboratório, de trabalho experimental, o que explicaria o fato de que hoje “se produza mais teorias e programas do que obras”.
C
O paradoxo de Ortega aponta o sinal inequívoco da emancipação da obra de arte de seus condicionamentos morais e religiosos. A falta de um estilo orgânico é, então, compensada pela possibilidade, hoje tornada concreta, num grau jamais alcançado em anteriores períodos da história, de fruição puramente estética da obra de arte.
D
O paradoxo acima enuncia: teremos que, defrontando-nos com as manifestações artísticas atuais, aceitar a contingência de buscar nelas mesmas as categorias que reclamam, tão profundas e radicais foram as transformações causadas pela revolução industrial – que não modificou apenas o estado das relações sociais, afetando, igualmente, nossa experiência e nosso senso de realidade.
E
O paradoxo de Ortega enuncia: o que se produz hoje não pode ser chamado de arte, mas sim de abstração. “Abstração é desumanização”, portanto, não podemos atribuir-lhe o nome de arte. Ao eliminar a presença do homem, essa estética exigente transformou a expressão dos sentimentos em expressão plástica, afastando-a do grande público.

Gabarito comentado

M
Manuela Cardoso Monitor do Qconcursos

Alternativa correta: D

Tema central — o que entender: Ortega y Gasset, em La deshumanización del arte (1925), descreve a arte moderna como autônoma, desvinculada do passado e progressivamente “desumanizada” — isto é, voltada à forma, à experimentação e muitas vezes incompreensível ao grande público. O paradoxo “a arte atual é aquela que não existe” sublinha a ideia de que a arte contemporânea rompe estilos históricos e está sempre “renascendo”. (Fonte: Ortega y Gasset; Nunes, Introdução à filosofia da arte, 2002.)

Por que a alternativa D NÃO caracteriza o paradoxo: A opção D desloca o foco para uma explicação causal exclusiva — as mudanças seriam consequência direta e central da revolução industrial — e afirma que, por isso, devemos buscar categorias internamente nas obras. Ortega relaciona modernidade, especialização e ruptura com o passado, mas não reduz a transformação estética primariamente à revolução industrial nem faz dessa redução o núcleo do seu paradoxo. Logo, D introduz uma causa histórica restrita que não corresponde ao argumento principal de Ortega — por isso é a resposta que NÃO o caracteriza.

Análise das demais alternativas (por que caracterizam o paradoxo):

A — Corresponde: destaca a perda de vínculo com o passado e a sensação de uma arte sempre “nascente”, condizente com o paradoxo.

B — Corresponde: Ortega observa o caráter experimental e programático da arte moderna, inclusive a produção de teorias e manifestos em vez de obras tradicionais.

C — Corresponde em grande parte: fala da emancipação da obra das condicionantes morais/religiosas e da crescente autonomia estética — aspecto central na tese de desumanização (embora Ortega veja isso também como exclusão do público).

E — Corresponde: relaciona desumanização à abstração e à perda de ligação com o público — formulação próxima ao diagnóstico orteguiano.

Dica prática para provas: ao responder, procure a tese central do autor (ruptura/autonomia/desumanização). Desconfie de alternativas que introduzem causas muito específicas ou palavras que não aparecem na argumentação do autor (ex.: “revolução industrial” como causa exclusiva) — geralmente são armadilhas.

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