Leia o trecho a seguir.
“Qualquer conceito empírico de doença conserva uma relação com o conceito axiológico da
doença. Não é, portanto, um método objetivo que qualifica como patológico um determinado
fenômeno biológico. É sempre a relação com o indivíduo doente, por intermédio da clínica,
que justifica a qualificação de patológico. Embora admitindo a importância dos métodos
objetivos de observação e de análise na patologia, não parece possível que se possa — com
absoluta correção lógica — falar em ‘patologia objetiva’. É claro que a patologia pode ser
metódica, crítica, armada de meios experimentais. Essa patologia pode ser considerada objetiva, em relação ao médico que a pratica. Mas a intenção do patologista não faz com que
seu objeto seja uma matéria desprovida de subjetividade. Pode-se praticar objetivamente,isto é, imparcialmente, uma pesquisa cujo objeto não pode ser concebido e construído sem
referência a uma qualificação positiva e negativa; cujo objeto, portanto, não é tanto um fato
mas, sobretudo, um valor.”
CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2009.
O trecho acima apresenta um contraste entre aspectos subjetivos e objetivos característicos
da construção dos objetos das ciências médicas. Com base nesse trecho, indique a alternativa que expressa de maneira CORRETA a atitude de Canguilhem com relação à conceituação do patológico.
Gabarito comentado
Alternativa correta: D
Tema central: a questão trata da relação entre o fato biológico (o corpo, os sinais e sintomas) e a qualificação valorativa do que chamamos de “doença”. Trata-se de um problema clássico em Georges Canguilhem: a distinção entre método objetivo e o caráter normativo/axiológico do conceito de patológico.
Resumo teórico: Canguilhem (O normal e o patológico) sustenta que, embora a medicina utilize métodos objetivos, a identificação do patológico depende de um julgamento ligado ao indivíduo e à clínica — ou seja, o conceito empírico de doença está entrelaçado com um conceito axiológico. Assim, objetividade metodológica não elimina a componente valorativa do objeto médico. Complementarmente, a definição de saúde da OMS (1946) mostra que fatores sociais e subjetivos também entram na compreensão do fenômeno, mas sem reduzir a doença a mera construção social.
Por que a alternativa D é correta: D afirma que as doenças são fenômenos biológicos objetivos reconhecidos como patológicos por critérios sobretudo subjetivos. Essa formulação capta a dupla ideia de Canguilhem: há um substrato biológico (o fato) e uma qualificação normativa dependente da clínica e do juízo médico (o valor). Ou seja, método objetivo + avaliação axiológica.
Análise das alternativas incorretas:
A (errada): afirma que doenças são puramente objetos biológicos desprovidos de subjetividade — desconsidera a tese central de Canguilhem sobre o papel da valoração clínica.
B (errada): reduz as doenças a meros construtos sociais. Canguilhem reconhece componentes socio-subjetivos, mas não nega o substrato biológico; a relação é dialética, não exclusiva.
C (errada): afirma que todas as doenças são psicossomáticas. É uma generalização excessiva e não condiz com a argumentação que distingue fato biológico e qualificação valorativa.
E (errada): introduz reversão por processos sobrenaturais — deslocamento externo e não relevante ao debate filosófico-científico de Canguilhem; também é absurdo metodológico em prova científica.
Dicas de prova: desconfie de termos absolutos (“todas”); identifique se o autor enfatiza método (objetividade) ou normatividade/avaliação (subjetividade); procure a palavra‑chave “valoração” ou “axiológico” para indicar juízo de valor.
Fonte principal: Georges Canguilhem, O normal e o patológico (Forense Universitária, 2009). Complemento útil: Declaração Constitutiva de Saúde da OMS (1946).
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