Decorre da evasão empreendida pelo eu lírico
Leia o poema “Sou um evadido”, do escritor português Fernando Pessoa, para responder à questão.
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte1,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
(Obra poética, 1997.)
1 “andar a monte”: andar fugido das autoridades.
Leia o poema “Sou um evadido”, do escritor português Fernando Pessoa, para responder à questão.
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte1,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia
Ser eu é não ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
(Obra poética, 1997.)
1 “andar a monte”: andar fugido das autoridades.
Gabarito comentado
Assunto central da questão: Interpretação de texto poético e figura de linguagem (metáfora).
O texto proposto explora a experiência íntima do eu lírico, que se apresenta como alguém “evadido” – isto é, alguém que foge de si mesmo. A questão cobra do aluno a habilidade de reconhecer, no conjunto do poema, qual consequência direta se estabelece a partir dessa fuga interna.
Justificativa da Alternativa Correta (A - sua cisão interna):
No poema, perceba as frases: “Fecharam-me em mim, [...] mas eu fugi", "Minha alma procura-me / Mas eu ando a monte". Essas expressões evidenciam uma divisão interna: o eu lírico se distancia de si mesmo, gerando uma ruptura ou cisão interna. Segundo Bechara (2009), a metáfora é um recurso que atribui a coisas abstratas (como o “eu”, a “alma”) características concretas (como prender, fugir). O texto não fala de fuga de outros, mas de um “fugir de si”, que resulta nessa divisão entre “alma” e “eu”. Este é o elemento central para se chegar à resposta.
Por que as alternativas estão erradas?
B) seu desprezo pelo mundo: O poema não traz críticas ou rejeições ao mundo externo, apenas relata a batalha interior do eu lírico.
C) seu desejo de morrer: Não há menção à morte. Pelo contrário, o eu lírico afirma “vivo a valer”, indicando valorização da própria existência.
D) sua ausência de esperança: O texto não indica desesperança; o movimento do eu lírico traduz é uma busca, e, como destaca Pasquale Cipro Neto, a fuga é um ato intencional de quem deseja solução para um dilema.
E) seu isolamento social: O isolamento no poema é interno, não social; a fuga ocorre de si mesmo, não da sociedade.
Estratégia de resolução em provas:
Sempre, ao analisar questões desse tipo, localize palavras-chave que revelem os conflitos do eu lírico e atente para figuras de linguagem como metáfora. Evite respostas literais ou genéricas.
Referência de apoio:
Bechara, E. – Moderna Gramática Portuguesa.
Cunha & Cintra – Nova Gramática do Português Contemporâneo.
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