Questão 6fd21364-06
Prova:UNIFESP 2015
Disciplina:Português
Assunto:Interpretação de Textos, Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto

Depreende-se da leitura do primeiro parágrafo que

Leia o excerto da crônica “Mineirinho” de Clarice Lispector (1925-1977), publicada na revista Senhor em 1962, para responder à questão.

    

   É, suponho que é em mim, como um dos representantes de nós, que devo procurar por que está doendo a morte de um facínora1. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinhodo que os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”.

  Por quê? No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter matado será a escuridão para mim.

   Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.

    Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais. Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e falsamente nos salvamos. Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais – vinte e oito anos depois que Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta e sangue, a lama viva. Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver.


(Clarice Lispector. Para não esquecer, 1999.)


1facínora: diz-se de ou indivíduo que executa um crime com crueldade ou perversidade acentuada.

2Mineirinho: apelido pelo qual era conhecido o criminoso carioca José Miranda Rosa. Acuado pela polícia, acabou crivado de balas e seu corpo foi encontrado à margem da Estrada Grajaú-Jacarepaguá, no Rio de Janeiro.

A
a cronista compartilha com sua cozinheira a dificuldade de conciliar sentimentos contrários em relação à morte de um criminoso.
B
a cozinheira se sente incomodada com a pergunta da cronista porque acredita piamente na inocência de Mineirinho.
C
a cronista se sente desconfortável com o fato de sua cozinheira mostrar-se dividida em relação à morte de um criminoso.
D
a cronista provoca gratuitamente sua cozinheira com a intenção de impor seu ponto de vista sobre a morte de Mineirinho.
E
a cronista se mostra perplexa diante da opinião de sua cozinheira de que um criminoso iria para o céu.

Gabarito comentado

S
Sabrina Tavares Monitor do Qconcursos

Tema central: Interpretação de Texto. Nesta questão, é necessário identificar as ideias explícitas e implícitas presentes no primeiro parágrafo da crônica de Clarice Lispector. O objetivo é avaliar a capacidade do candidato de compreender sentimentos contraditórios de personagens diante de uma situação complexa.

Justificativa da alternativa correta:

Alternativa (A): Correta. A cronista compartilha com sua cozinheira a dificuldade de conciliar sentimentos contrários em relação à morte de um criminoso. Isso fica evidenciado em trechos como: “Vi no seu rosto a pequena convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente [...] sensações contraditórias por não saber como harmonizá-las.” Esse tipo de análise exige, segundo Celso Cunha & Lindley Cintra, que o leitor observe tanto o que é dito diretamente quanto o que se revela nas entrelinhas. A passagem mostra que ambas têm dificuldades em lidar com uma mistura de pena, raiva, justiça e compaixão, ou seja, há realmente sentimentos opostos em jogo.

Análise das alternativas incorretas:

B) Incorreta, pois a cozinheira não defende a inocência de Mineirinho. Ela diz: “Quem não sabe que Mineirinho era criminoso?”

C) Também errada. A cronista não demonstra desconforto com a divisão da cozinheira; ela compreende e compartilha dessa divisão.

D) Incorreta, pois não há provocação gratuita. O diálogo é sensível e busca sentir junto. Não há intenção de impor ponto de vista.

E) Incorreta porque a cronista não se mostra perplexa com a possibilidade de Mineirinho ir para o céu; a complexidade dos sentimentos é compreendida e até acolhida.

Estratégias de interpretação: Sempre analise palavras e expressões que revelem emoções, observe se o narrador se posiciona junto ou em oposição aos outros personagens, e desconfie de alternativas que generalizam sentimentos ou atribuem posturas radicais a personagens sutilmente construídos.

Referência teórica: Segundo Evanildo Bechara (Moderna Gramática Portuguesa), interpretar textos é ir além do que está dito, observando contradições e nuances emocionais presentes na construção textual.

Resumo: A alternativa A está correta porque explicita a partilha de uma angústia comum diante de sentimentos divididos sobre um crime, conforme pedido pelo enunciado e evidenciado pelo texto.

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